Angelo R Farias

Artista Plástico, Designer, Diretor de Arte, Multimídia, Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado"... Atualmente Curador de Arte do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB.

O Mangaio na obra de Mestre Sivuca

A plasticidade da Feira de Mangaio, obra icônica e universal de Sivuca e Glorinha Gadelha


IMG_2649.JPG

O verbete “mangalho” está em vários dicionários. Das duas significâncias que se aponta, esqueço o chulismo da primeira e aponto para a segunda: substantivo masculino; “conjunto de produtos de fabricação caseira ou saídos de pequenas lavouras, que são vendidos em feiras e mercados do interior (Houaiss)”. Para chegar a mangaio, há um percurso de mutação linguística, natural no contexto social de certas comunidades rurais, “redução” do vocábulo para melhor atender às características sócio geográficas, bem como às urgências da oralidade e da compreensão da palavra no contexto do cotidiano social. As pessoas que fabricam o mangaio e aquelas que vendem, o mangaieiro, tem uma enorme importância no contexto único do processo histórico e cultural da região.

P9011161.JPG

Comum no nordeste brasileiro, as feiras livres, ou mercados, cuja tradição remonta aos tempos da gênese da colonização, já num evento herdeiro e oriundo das regiões ibéricas, cujos mercados por sua vez receberam muita influência daqueles árabes (invasões e conquistas dos mouros – mercado persa, mercado árabe etc) e foram exportados para o Novo Mundo como costume, bem como toda a sorte de artesãos para a feitura da colônia. Perceber no meio de um arruado uma confusão de gente vendendo, trocando e expondo seus fazeres e produtos, tornou-se sinônimo de identidade e formação de um povo, que se perpetuou intocável na sua significância enquanto vivência de seus papéis e personagens da história, talvez mais importante que a própria venda ou escambo. Da culinária citada da obra de Sivuca e Glorinha Gadelha, "Feira de Mangaio", imortalizada na voz de Clara Nunes, “bolo de milho, broa e cocada, pé de moleque, alecrim, canela... bicada com lambú assado... farinha, rapadura e graviola", aos objetos de serventia domésticas como “arreio de cangalha (cangaia)... cabresto de cavalo e rabichola... pavio de candeeiro, panela de barro...alpargata...renda”, percorre-se fotogramas de um filme que se conhece bem neste setor das feiras e mercados livres.

_DSC0112.JPG

Junto à esta hoste de produtos, os frutos do artesanato primitivo e purista e também aqueles mais elaborados, encontra-se muitos tipos de cestaria de cipós, com balaios de todos os tamanhos, cestos e cestas, também utilizados no transporte da feira para casa pelos balaieiros. As fibras de coco, agave e grande variedade de palhas dão formas aos chapéus, cestos, esteiras, tapetes, peneiras – urupemba – colchões de capim, tapetes de coxim, e os flandres com a arte medieval de dar forma ao precioso material: latas, canecos, bacias, copos, funis, medidores, cuias, bicas e calhas. Este caldo cultural e étnico é permeado pelos odores da feira: o fumo de rolo, as ervas medicinais, ervas aromáticas para banhos e catimbós e os temperos e comestíveis ensacados, embrulhados a granel juntamente com as garrafadas, lambedores, licores, cachaças aromáticas, de cabeça e papuda, e raízes para remédios, herança da África e ancestral indígena. Neste contexto, sempre por perto há o complemento alimentar da feira, que se aglutina como um mapa antigo, com seus personagens típicos, as músicas e o espírito de um povo ainda na sua afirmação como miscigenação das mais belas etnias do planeta.

P9011190.JPG P8270770.JPG

Por fim, numa fornalha ardente e vermelha, o fole sopra e atiça as labaredas, e o velho ferreiro molda o metal ardente na forma que quer, enquanto o cego canta as litanias religiosas com seu guia esbarrando em ciganas que leem a mão. Enquanto isso “ tem um Sanfoneiro no canto da rua, fazendo floreio pra gente dançar... Tem Zefa de Purcina fazendo renda, e o ronco do fole sem parar”!

P9011036.jpg


Angelo R Farias

Artista Plástico, Designer, Diretor de Arte, Multimídia, Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado"... Atualmente Curador de Arte do MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba da UEPB - Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Angelo R Farias