miopia

Singularidade desfocada, com visão de nome próprio.

Ivan Gomes

Servidor público como Drummond e Vinícius e diletante nas horas vagas. Humanista trágico que espera, na diligência que é viver, acumular afetos, experiências e conhecimento: e transbordar. Porque a virtude tem que ser dadivosa.

Kumiko, o deslocamento, a solidão e o tesouro do mapa.

O que é real e o que é inventado em nossas vidas? Kumiko perambula pelas ruas de Tóquio, tal qual um espectro, cercada de cobranças sociais. Num ato corajoso - ou desesperado - vai à caça de um tesouro absurdo. O que nos faz pensar: não estaríamos nós mesmos correndo atrás de tesouros absurdos, por pura vontade de dar, a qualquer custo, um sentido para nossa existência?


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Kumiko, a caçadora de tesouros, é um espectro. Alheia a importantes instituições e convenções sociais – como casamento, trabalho ou família – ela vaga por uma Tóquio praticamente indiferente a sua existência. Em grande parte da narrativa, a protagonista encontra-se sozinha: seja no ônibus; caminhando ou em seu pequeno e bagunçado apartamento – que ela divide com seu coelho, Bunzo. Esta é uma obra que fala não apenas sobre a solidão, mas sobre aquilo que orbita essa condição. Um filme repleto de metáforas para serem sentidas, e não apenas explicadas. Já que toda explicação perde uma infinidade de conteúdo.

Se pudesse cometer o crime de resumir o filme em uma palavra: metafórico. Sentado agora, pensando em como construir uma narrativa sobre a narrativa, me perco nas inúmeras metáforas que ela carrega. Cada personagem que cerca a rotina de Kumiko, ou que surge no decorrer da obra, não devem ser percebidos como personagens em si. Eles são representações daquilo que cerca Kumiko e que a faz sentir-se deslocada. O patrão que não faz nada além de dar ordens. A mãe que interessa-se apenas pelo status de relacionamento da filha. As colegas de trabalho, que perdem-se em assuntos frívolos. Ou até mesmo sua antiga conhecida, que tenta uma reaproximação, mas sufoca Kumiko - uma vez que esta representa a imagem daquilo que a protagonista deveria ter se tornado: esposa, mãe, bem sucedida aos 29 anos - em suma, uma mulher 'normal'.

Vagando por Tóquio - de casa para o trabalho, do trabalho para casa -, Kumiko passa grande parte de seu tempo livre em seu pequeno e desordenado apartamento, em companhia do coelho Bunzo, assistindo à fita VHS do filme Fargo, dos irmãos Coen. O filme principia com a frase “That is a true story” (algo como 'baseado em uma história real'). Mas o que deixa Kumiko obcecada é o final do filme, quando uma maleta de dinheiro é enterrada na neve da gelada Minnesota, EUA. Kumiko traça estratégias e mapas para chegar a esse 'local do tesouro escondido'. Esse um dos pontos nevrálgicos do filme. A tensão entre o real e o imaginado. Kumiko não sente-se incluída na ciranda da vida real, então cria para si a figura de uma desbravadora que irá a caça de um tesouro. A relevância está na caça, não no tesouro. Entre outros panos de fundo, é um filme que fala sobre travessia. A travessia de uma mulher deslocada do pano social, que busca dar sentido a sua vida traçando a rota à um tesouro enterrado do outro lado do planeta.

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Na segunda parte do filme, vemos a protagonista desembarcar com seu moletom vermelho no aeroporto de Minnesota, EUA. Conhecendo muito pouco da língua daquele país, Kumiko limita seu vocabulário a, entre outras frases curtas, 'I want to go Fargo' (algo como 'Eu quero ir Fargo'). É inverno e neva no norte dos EUA. Mas para além das intempéries do tempo, Kumiko enfrenta obstáculos de outra monta. O maior deles é a barreira linguística e cultural, citada pelo xerife que busca ajudá-la em determinada altura de sua travessia. Contudo, nesse ponto, há uma contradição fortíssima. Afinal, Kumiko sentia os efeitos dessa barreira dentro de seu próprio país, cercada de sua família e de seus compatriotas. E aqui é perceptível como, assim como diz Derrida, não existe comunicação. Durante todo o filme, Kumiko não é ouvida. Seja nos EUA - devido a barreira linguística, cultural e até mesmo social (uma mulher, japonesa, perambulando no inverno estadunidense com um edredom sob as costas) -, seja no Japão, onde a tradição fala tão alto, que uma mulher como ela, que não sente-se compelida a dançar conforme o ritmo da ciranda, torna-se uma deslocada, uma pessoa habitante do 'entre-lugar', um espectro. O final trágico do filme, como todo ele, é aliteral. Fica a cargo do espectador inserir ali o seu sentido.

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Uma coisa é certa: Kumiko, a caçadora de tesouros, não é um filme para se levar ao pé da letra. Como disse acima, é um turbilhão de metáforas contadas tanto pela narrativa textual como visual. Desde seus cabelos desgrenhados e seu moletom vermelho vivo, à sua busca solitária e desenfreada por um tesouro no norte gelado de um país do outro lado do mundo, que o xerife veio chamar de irreal – mas que Kumiko insiste em defender que é real. Nesse sentido, é uma tarefa dificílima escrever e descrever uma obra como essa, carregada de um potencial de causar inúmeros afetos em cada pessoa que o assistir. É um filme que instala-se naquele que o assiste, nos cantos mais escondidos e empoeirados, e faz emergir aqueles sentimentos e pseudo-certezas difíceis de assumir: de que alguns de nós escolhe estar só, e que o sentido da nossa travessia, somos nós quem inventamos – tenha ele fundamento ou não -, apenas para termos onde nos agarrarmos. Ou, como diria Gep Gambardella de A Grande Beleza, 'è tutto un trucco'. O mapa é só uma ilusão.

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Título Original: Kumiko, the Treasure Hunter Ano: 2015 Título Traduzido: Kumiko, a caçadora de tesouros Escrito por: David e Nathan Zellner Dirigido por: David Zellner


Ivan Gomes

Servidor público como Drummond e Vinícius e diletante nas horas vagas. Humanista trágico que espera, na diligência que é viver, acumular afetos, experiências e conhecimento: e transbordar. Porque a virtude tem que ser dadivosa..
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