miopia

Singularidade desfocada, com visão de nome próprio.

Ivan Gomes

Servidor público como Drummond e Vinícius e diletante nas horas vagas. Humanista trágico que espera, na diligência que é viver, acumular afetos, experiências e conhecimento: e transbordar. Porque a virtude tem que ser dadivosa.

Europa imaginada, o muro que fustiga chumbo

Os muros existem e não existem. A sua materialidade sustenta-se na imaterialidade de signos e símbolos que desenham o nacionalismo europeu. Nacionalismo esse que, para além da xenofobia, cria um problema inconciliável: a intolerância para com o outro e a nomeação de um inimigo que deve ser exterminado.


O fenômeno está aí. Uma horda de seres humanos que, carregados de esperança – ou medo, ou seja lá o 'afeto' que os mova – caminham a esmo, tendo como destino o desconhecido. Ninguém migra porque quer. Melhor dizendo: nenhum agrupamento de centenas de milhares de pessoas, migra por capricho. Não. Nesse caso não há capricho. O que há, atrás dos passos de cada uma dessas pessoas, é a guerra e todas as suas consequências. Sentado aqui, pensando em que escrever, só uma frase teima em estampar-se no meu consciente: como é difícil! Como é difícil fazer um recorte de tudo o que vem ocorrendo nas ultimas semanas 'do Atlântico pra lá'. Todo recorte deixa pra trás um sem fim de eventos que se transpassam uns aos outros, como um emaranhado de fios que somos obrigados, pela necessidade do entendimento, em resumir em uma palavra que tomou corpo e substância: refugiados.

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A guerra civil na Síria não é recente. Aliás, qualquer guerra não é recente. O ser humano e seus agrupamentos guerreiam desde quando nem podemos contar. Os gregos e suas pólis, há milênios, guerreavam – mesmo entre si; os romanos só alcançaram o status de 'império' por tanto guerrear – e conquistar pela força; a Europa, mesmo antes de ser chamada Europa, vivia em guerras constantes. Sem precisar ir muito longe no tempo e no espaço, miramos – e ainda somos afetados – pela as duas Grandes Guerras do século XX, onde a própria Europa foi dizimada e consumida por fogo próprio – e inimigo. E tantos foram os indivíduos que buscaram abrigo em terras distantes. Então: por que hoje, quando outros agrupamentos de seres humanos, em situação 'semelhante' aos europeus do século XX, buscam algum refúgio dentro do Velho Mundo, encontram muros que fustigam chumbo?

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Claro que a resposta não é fácil. Buscar argumentos apenas na moralidade ou na indiferença – não, 'a Europa' de Merkel não é indiferente (muito pelo contrário) – não vai nos munir de potência o suficiente para construir perspectivas contundentes para o fenômeno que está dado. Aliás… O fenômeno está dado? Acredito que não. Explico: nada está dado. Só está dado, o que dizemos que está dado. A Europa, ou melhor, o europeu, quando xenófobo com aquele que lhe bate a porta, esta vestindo a reluzente armadura do nacionalismo. E todo o nacionalismo europeu, se pauta em uma noção de comunidade que – sinto-lhes dizer – não existe mais. Afinal, o que é o europeu? Aquele que nasce entres as linhas imaginadas da União Europeia? Aquele que fala alemão fluente, francês fluente, italiano ou espanhol fluente? Ou então – para utilizar um exemplo mais próximo de nós – o que é o brasileiro? O que tem no futebol 'paixão nacional'? Mas e a na Europa? O futebol também não é um esporte largamente aclamado?

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Acontece que todo o nacionalismo é pautado na ideia de comunidade, e toda a comunidade precisa de símbolos e signos que sirvam como formadores de uma identidade conjunta entres os diversos indivíduos dessa mesma comunidade. Em outras palavras, toda comunidade é imaginada. E quem está fora dessa comunidade – ou seja, quem não adota (ou é adotado) por esses signos ou símbolos – é o outro, o desconhecido e, consequentemente, o inimigo. É aquele que ameaça a nossa coesão enquanto uma comunidade una; aquele que tem o potencial de minar com as nossas tradições e nossas tábuas de valores. É aquele que, por tudo isso e muito mais, acaba indo para a câmara de gás; a sola da bota da polícia militar ou afogando-se no Mar Mediterrâneo.

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Não é apenas um problema de organização político-social. O receio das autoridades não se pauta apenas na dificuldade em alocar tamanho contingente humano em situação de extremo risco – um receio, aliás, legítimo, visto o exposto. O paradoxo, pai de todo o receio, está na própria ideia imaginada de comunidade, nos fundamentos de todo o nacionalismo. Enquanto existir o 'nós', irá existir o 'outro'. Esse agrupamento humano que recebe o nome de 'refugiados sírios' são como fantasmas. Porque não são refugiados – visto que não há lugar seguro para lhes servir de refúgio (engana-se quem espera isso na Europa ou em qualquer outro lugar do planeta) -, nem sírios – uma vez que a Síria, de certa forma, 'não existe'.

Pois: precisamos rever nossos conceitos. Todos eles. Revê-los; removê-los; redesenhá-los; reimaginá-los; redefino-los indefinidamente. Pois enquanto cantamos à pátria, um sem fim de despatriados afogam-se no entre-lugar.

As imagens que permearam este texto foram recortadas de uma série montada pela International Rescue Communittee, que ilustra o conteúdo das mochilas de alguns dos refugiados da Síria.

Benedict Anderson é um historiador e politólogo, professor emérito da Universidade de Cornell. Filho de pais europeus, mas nascido na China - chinês ou europeu? E escreveu o livro que inspirou, em grande medida, esse texto: Comunidades Imaginadas.


Ivan Gomes

Servidor público como Drummond e Vinícius e diletante nas horas vagas. Humanista trágico que espera, na diligência que é viver, acumular afetos, experiências e conhecimento: e transbordar. Porque a virtude tem que ser dadivosa..
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