miopia

Singularidade desfocada, com visão de nome próprio.

Ivan Gomes

Servidor público como Drummond e Vinícius e diletante nas horas vagas. Humanista trágico que espera, na diligência que é viver, acumular afetos, experiências e conhecimento: e transbordar. Porque a virtude tem que ser dadivosa.

O Menino (eu, você) e o Mundo

Uma animação de papel e lápis, em plena era do 3D; que diz: 'da cor viemos, e à cor voltaremos'.


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Linguagem. Apesar de seu primitivo, ela não se restringe apenas à língua ou palavra – escrita ou falada. Uma narrativa pode ser contada de várias formas, com vários tipos de linguagens diferentes. Músicas – cantadas ou não; imagens – em movimento ou não; gestos – acompanhados ou não de fala. E como é difícil encontrar narrativas que vão além dos textos ou - como é mais comum na era digital pós-TV - em vídeos. Na contramão disso tudo, Alê Abreu e a produtora Filme de Papel lançam mão da mistura entre gravura, movimento e música; num amálgama que fez nascer a película O Menino e o Mundo. Uma animação onde sem palavras se torna mais do que uma expressão de cunho adjetivo: mas um jeito de narrar 'as coisas' com mais cores e menos [ou nenhuma] palavras.

É comum, na grande maioria das vezes, deparar-nos com personagens bem definidos, de nome próprio e características bem delineadas. Não é o caso aqui. Nos créditos, contamos com a descrição oficial dos personagens: Menino, Jovem, Velho, Mãe, Pai e Cachorro. Ao longo da narrativa, aparecem outros agrupamentos de pessoas, mas que não podemos chamar de personagens em si. Como disse, são agrupamentos: ou seja, segmentos sociais que, como tal, não podem ser definidos como indivíduos - mas sim, um conjunto de indivíduos. Esses agrupamentos têm uma importância enorme na travessia dos personagens. Eles também são o Mundo.

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Quem espera assistir uma narrativa totalmente linear - com começo, meio e fim bem definidos, como a maioria das animações hollywoodianas - irá estranhar – e muito. O Menino e o Mundo não foi construído para obedecer tão fielmente uma linearidade. Imagem/Movimento, lembremos, não significa necessariamente Imagem/Linearidade. O Reto ajuda na percepção, mas somos nós quem torcemos a realidade a ponto de vê-la assim: e quanto perdemos nisso... Durante sua travessia, o Menino passa por cenários diversos - tão diversos que só mesmo uma animação pode dar conta. O campo/rural, a fábrica, a cidade/urbano, a periferia, a cabeça do Menino, os agrupamentos/multidões: tudo isso que é totalmente apreensível no real, é traçado pelos lápis de cores e gizes de cera de Alê Abreu. O Menino e o Mundo – Sujeito e Objeto – misturam-se, nas cores e na vida – ao ponto onde não existir mais 'um e outro'. Apesar da 'postura espectadora' em parte do tempo, o Menino está em constante interação com o Mundo – ele age no mundo que age nele. Parcerias são formadas, conflitos tensionados e o Político, a Partilha do Sensível – como quase tudo no filme – são representados pelas cores dos lápis de cor e pela melodia da música das/que são pessoas: a fênix é de festa, música e comunhão.

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E veja só: não espere redenção visível. O paradoxo é superado. Apesar de o cinema – sobretudo o cinema de animação – possuir a capacidade de criar facilmente uma narrativa redentora, idealizada e utópica, O Menino e o Mundo não – ao menos necessariamente – remete a isso. De forma fantástica: da cor viemos, à cor voltaremos e pela cor viveremos.

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-- Direção e Roteiro: Alê Abreu Título Original: O Menino e o Mundo Gênero: Aventura Duração: 1h 20min Ano de lançamento: 2014


Ivan Gomes

Servidor público como Drummond e Vinícius e diletante nas horas vagas. Humanista trágico que espera, na diligência que é viver, acumular afetos, experiências e conhecimento: e transbordar. Porque a virtude tem que ser dadivosa..
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