miscelânea

Um pouco de tudo, de tudo um pouco

Fabíola Donadão

Me encantam o simples, o diferente e o divertido. Palavras são como o ar que respiro. Sem elas, não vivo

Aquela música que não sai da sua cabeça

Sabe aquela canção horrível, ou melhor, o refrão dela, talvez a pior parte, que está ali há dias na sua cabeça, te infernizando?


musica 5.jpg (Imagem: freepick.com)

O termo em inglês brainworms (vermes do cérebro) é o que descreve a sensação daquela música que não sai de sua cabeça por nada. É o que acontece quando a imaginação musical normal transpõe um limite e se torna, por assim dizer, patológica, explica o neurocientista Oliver Sacks.

Essas repetições tendem a continuar, por horas ou dias e vão sumindo pouco a pouco. Da mesma forma que chegaram se vão. Parece até um tique nervoso, a música fica ali martelando repetitivamente.

Somos atraídos pela repetição e ela acontece, inevitavelmente, naquele jingle da campanha do creme dental, nas cantigas das brincadeiras infantis, na canção popular. Parecem feitas para ficar.

Não importa se boa ou ruim. Tampouco nos cabe julgar, uma vez que cada ser humano é único e, portanto, tem suas próprias maneiras de interpretar os estímulos sonoros que lhes são apresentados ao longo de suas vidas. O fato é: a música está presente.

Queiramos ou não, estamos cercados por um bombardeio musical. Na antessala do consultório médico, na recepção da empresa, na loja, no restaurante, na padaria, na academia. É música que não acaba mais.

Sacks afirma que essa barragem musical gera certa tensão em nosso sistema auditivo primorosamente sensível, o qual não pode ser sobrecarregado sem temíveis consequências. Uma delas é a grave perda de audição, outra são as irritantes músicas que não saem da cabeça. Por outro lado, ao lembrar antigas canções e até mesmo entoar músicas favoritas estimula a mente e manter o cérebro ativo é crucial para a saúde psíquica do ser humano.

A música não somente exerce poder sobre a mente humana como é uma necessidade.

O som, com todos os seus ritmos e melodias, é uma das experiências mais precoces no processo de desenvolvimento humano. Pense no bebê se balançando ao receber um estímulo musical. Todos esses estímulos ficam pra sempre na memória e, de alguma forma, transformam esse indivíduo.

Até mesmo quando imaginada a música é vital, pois ativa, quase que com a mesma intensidade da ativação causada por ouvi-la, uma parte do cérebro chamada de córtex auditivo.

Estudos realizados por Robert Zatorre e seus colegas, relatados no livro Alucinações Musicais (Sacks, 2007), usando avançadas técnicas de neuroimagem demonstram o fato e ainda provam que imaginar a música também estimula o córtex motor, enquanto que imaginar a ação de tocar a música estimula o córtex auditivo.

E se a música é assim, tão vital para nossa psique, qual não seria a nossa alegria se ela pudesse nos proporcionar ainda mais saúde? Pois trate de ficar feliz. Ela pode!

musica (2).jpg A música interage com o ser humano de formas inimagináveis e os benefícios são incontáveis.

Ao ouvir música exercitamos o nosso cérebro e é por isso que ela é infinitamente usada em atividades terapêuticas, especialmente as que se referem à área da neurologia, no tratamento de Alzheimer, Parkinson e lapsos de memória dos mais variados fundos e causas, com eficácia em 95% dos casos. Para os outros 5% existe a chamada “amusia”, ou seja, a incapacidade patológica de produzir, reproduzir ou perceber sons musicais.

Existe um projeto desenvolvido nos Estados Unidos desde 2006 que é muito tocante neste sentido. Seu fundador, Dan Cohen, até então um executivo de tecnologia com especialização em serviços sociais, o criou motivado pelo pensamento de que a música deve fazer parte da vida até o fim.

Tony-and-K-smiles.small_.jpg (Foto: musicandmemory.org) “Se tiver que ficar sob os cuidados de uma casa de repouso durante a velhice, tudo bem, desde que eu possa ouvir minhas canções favoritas” - Dan Cohen.

Cohen fundou a instituição Music & Memory, que prepara enfermeiros e profissionais ligados aos cuidados de pacientes com Alzheimer, demência e outros desafios cognitivos e físicos em toda a América do Norte, para o uso de tecnologias capazes de reconectar essas pessoas com o mundo por meio de suas memórias musicais.

O documentário Alive Inside (Vivo por dentro), dirigido por Michael Rossato-Bennett, premiado como o preferido do público no Festival de Sundance 2014, aborda o poder de transformação proporcionado pela música nos pacientes envolvidos no projeto.

Para assistir ao trailer com legendas em português, clique aqui.

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O livro Alucinações Musicais: relatos sobre a música e o cérebro, de Oliver Sacks, traz à luz as questões que envolvem o poder da música no cérebro com o relato de pacientes que sofrem de distúrbios neurológicos ou perceptivos ligados à música, e fala da abordagem humanizada para cuidar da saúde psicológica, moral e espiritual desses pacientes.

É também do autor o livro Tempo de Despertar, que inspirou o filme de mesmo nome.


Fabíola Donadão

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