miscelânea

Um pouco de tudo, de tudo um pouco

Fabíola Donadão

Me encantam o simples, o diferente e o divertido. Palavras são como o ar que respiro. Sem elas, não vivo

O capitão saiu para o almoço e os marinheiros trocaram a estação do rádio

Por que há tão poucas pessoas interessantes? Em milhões, por que não há algumas? Devemos continuar a viver com esta espécie insípida e tediosa? Parece que seu único ato é a Violência. São bons nisso. Realmente florescem. Flores de merda, emporcalhando nossas chances. O problema é que tenho que continuar a me relacionar com eles. Isto é, se eu quiser que as luzes continuem acesas, se eu quiser consertar esse computador, se eu quiser dar a descarga na privada, comprar um pneu novo, arrancar um dente ou abrir a minha barriga, tenho que continuar a me relacionar. Preciso dos desgraçados para as menores necessidades, mesmo que eles mesmos me causem horror. E horror é uma palavra gentil.


Demorei a me encontrar com ele, e agora aqui estou rendida à rabugice do velho malandro. Se eu gosto dele? Eu não sei. Da obra? Sim, é honesta, transparente. É ele. Sem filtros. E chega a ser nauseante.

Sem qualquer paralelo ou comparação, apenas curiosidade, o livro O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio de Charles Bukowski, um dos escritores contemporâneos de poesia, conto e romances mais aclamados da América do Norte me fez pensar em A vida como ela é de Nelson Rodrigues.

bukowski 2.jpg Imagem: Robert Crumb (1996)

Por um momento, todos os dias enquanto dirijo até a pista, eu fico clicando no botão do rádio em diferentes estações, procurando por música boa, descente. É tudo um lixo, ruim, sem rima ou melodia, chato, sem vida.

Trechos da leitura trouxeram-me lembranças dos meus tempos de produtora artística.

Em passagem quase relâmpago pela área, tive a sorte ou a sina de viver os bastidores de encontros artísticos primorosos, com gente de primeira do universo musical brasileiro.

Gente tão boa, tão de “primeira” que o brasileiro desconhece. Ou conhece pouco, ou somente ouviu falar.

Parafraseando o poeta, teria sido o meu trabalho uma merda?

Talvez. Por que não? Seja como for, eu me frustrei muito nessa época e me indignei mais ao ver tanto talento indo para o ralo enquanto a dancinha da garrafa, a popozuda e outras porcarias estouravam nas paradas musicais das rádios nacionais.

Deve haver uma explicação científica-social que demonstre o porquê de o brasileiro preferir uma coisa à outra. Mas, não pretendo promover esse debate. Só me permita, por favor, lamentar.

Bukowski-3.jpg Imagem: bukowski.net

Cristo! Você já imaginou quanta urina um homem mija durante a sua vida inteira? Quanto ele come e caga? Toneladas. Que horror. É melhor morrer e dar o fora daqui, estamos poluindo tudo com o que expelimos.

Hoje eu vejo o passado como uma realidade distante. Guardo com apreço os bons momentos vividos com essa gente boa, cheia de história pra contar. Pois é, pra contar. Um dia, quem sabe, também conto mais. Em terceira pessoa, com certeza. Ironicamente detesto escrever na primeira.

Seja como for, o texto vem como vem e se a primeira pessoa está pulsando mais forte na ponta dos dedos melhor deixar que ela extravase. Melhor evitar a febre causada por aquilo que deixamos, nós que escrevemos, de colocar no papel.

Cruzo com Bukowski e gosto de seus exageros, todavia quero enxergar o mundo de maneira menos seca e cética.

Apesar das porcarias que ouvimos, tem muita gente boa no nosso universo artístico musical. Pessoas interessantes como Olmir Stocker, Zezo Ribeiro, Duofel. E esses são apenas alguns nomes de homens de bem e seus violões.

Quero acreditar que há luz no fim do túnel da estrada que leva ao Brasil, por mais que ainda precisemos de algumas infelicidades para suprir nossas menores necessidades.


Fabíola Donadão

Me encantam o simples, o diferente e o divertido. Palavras são como o ar que respiro. Sem elas, não vivo.
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