miscelânea

Um pouco de tudo, de tudo um pouco

Fabíola Donadão

Me encantam o simples, o diferente e o divertido. Palavras são como o ar que respiro. Sem elas, não vivo

Basta afeto

Vivemos tempos agitados. São tempos líquidos, já disse Zygmunt Bauman. Tempos que escorrem por nossas mãos.
O homem pensa que o controla, mas está sempre correndo contra ele.
O estresse reina soberano. E traz consigo a obesidade, o diabetes, as doenças do coração, do fígado, a má digestão.
Como crescem as crianças nessa agitação toda? Será que crescem?
Alguns autores diriam que não. O principal problema? A falta de afeto.


relogio Imagem: pixabay.com

Verdade seja dita, o estresse é o mal do século. Mas, é preciso um olhar cuidadoso quando o assunto é colocado em pauta para que não haja distorção daquele que, muitos, popularmente costumam chamar do mesmo nome.

Um nervosinho aqui ou ali faz parte da vida. Tem pessoas que são mais agitadas, explosivas, outras, um poço de paciência. Nem sempre o que os olhos vêm são de fato o retrato da realidade.

O estresse propriamente dito é a pressão exercida sobre algo ou alguém. Cada um, cada organismo, reage à sua maneira. E todos crescem.

Crescer é um ato heroico, pois o organismo está constantemente sob pressão.

Está certo que o crescimento é o resultado direto da ingestão de nutrientes. A relação é simples, quanto mais se come, mais se desenvolve.

Na criança, entretanto, esse não é um processo trivial. O cérebro aumenta, o formato da cabeça muda. As células se dividem, se multiplicam e sintetizam novas proteínas. Células cartilaginosas se solidificam formando longos ossos.

Tudo acontecendo numa velocidade incrível.

Crescer não é fácil. Cálcio deve ser assimilado propriamente para construir os ossos, amino ácidos são necessários para síntese das proteínas, ácidos graxos trabalham continuamente para construir as paredes celulares. A glicose entra na parada e o apetite floresce de maneira feroz.

Hormônios mobilizam energia para os projetos de expansão corporal. A divisão celular acontece à todo vapor. Quanto estresse!

Opa! Espere um pouco. Se é estressante por que crescemos?

Robert M. Sapolsky, na obra Por que as zebras não têm úlceras, dedica um capítulo especial para explicar os impactos do estresse na infância. O assunto chamou tanto a minha atenção, que resolvi traduzir e adaptar alguns trechos para falar um pouco mais em detalhe.

Pois bem, o autor diz que não apenas o desenvolvimento musculoesquelético é comprometido pelo estresse, mas também é ele quem torna o organismo suscetível a determinadas doenças durante toda a sua vida.

portrait-317041_1920.jpg O estresse inibe o crescimento.

E tudo começa no pré-natal.

Pense no seguinte: o que é a infância?

A infância é o período da existência onde o homem começa a avaliar a natureza do mundo. Por exemplo, ‘se deixo um objeto cair, ele geralmente vai para baixo’ (com exceção da bexiga cheia de gás hélio). Ou, ‘se a mamãe sai por alguma razão, ela volta logo.’ Ou ainda, ‘nem tudo o que desaparece deixa de existir’.

Geralmente, essas experiências moldam a sua visão de vida para sempre.

Durante o desenvolvimento fetal, o seu corpo está aprendendo sobre o mundo e, metaforicamente falando, tomando decisões vitais sobre como responder à ele do lado de fora. Dependendo das circunstâncias em que essas decisões forem tomadas, acredite, isso pode aumentar os riscos da evolução de certas doenças.

Considere, por exemplo, uma mulher muito carente. Tendo passado fome durante a gestação, nem ela, tampouco o feto foram nutridos adequadamente. Na sua memória gestacional, esse feto tem lembranças de momentos de escassez onde seu corpo aprendeu a sobreviver com reservas mínimas de alimento. Algo no seu metabolismo muda para sempre e fica ‘gravado’ em sua memória. Para todo o sempre, esse feto fica programado a reservar cada grãozinho de sal precioso de sua dieta.

Fadado ao que chamam de metabolismo parcimonioso, quando adulto, esse organismo corre muito mais risco de desenvolver hipertensão, obesidade, diabetes juvenil e até mesmo doenças do coração.

O contrário, ou seja, o excesso de nutrientes durante a gestação, também é prejudicial e outras (muitas) complicações podem ser enumeradas. O importante agora é lembrar que existem coisas mais concretas com as quais realmente devemos nos preocupar. Portanto, parafraseando o ‘homem das zebras’, esqueça aquela discussão sobre a gravação do parto ou vai ‘se estressar’ por bobagem.

Falando em bobagem. É fato que o estresse pós-parto pode prejudicar o desenvolvimento ou isso é apenas tolice?

Gostaria de responder que é uma tolice, mas experiências feitas com ratos em laboratório mostraram que a pior coisa que pode acontecer com um ratinho bebê é a privação do contato com sua mãe.

Uma dessas experiências, conduzida por Paul Plotsky, da Universidade de Emory, comprovou que a privação do contato materno gera consequências similares às do estresse no pré-natal. Os níveis de glicocorticoides aumentam. Mais ansiedade e danos no desenvolvimento cerebral, especialmente nas áreas de aprendizado e memória. O mesmo aconteceu com macacos que passaram por experimento similar.

Nesses casos, a figura materna foi excluída do contato com o bebê. O que acontece quando a mãe está fisicamente presente, mas simplesmente não corresponde ao filho?

Existem inúmeros estudos nesse campo, com ratos, macacos e, claro, seres humanos. Acontece, que essa é uma área muito complexa e quando o ser humano entra em jogo, fica ainda mais complicado avaliar. Vou citar mais um caso adiante (também compilado da obra de Sapolsky porque esse cara é demais!) para você entender melhor. Por ora, é possível afirmar que não ter a presença de um dos pais durante a infância, aumenta consideravelmente o risco da criança se tornar um adulto depressivo.

É bem provável que o estresse na infância seja a raiz de uma série de doenças apresentadas na vida adulta.

nanismo.jpg Os efeitos do estresse na estatura. Criança com nanismo e a mudança de aparência durante período de tratamento. Imagem: Sapolsky, Robert M. Why Zebras Don't Get Ulcers. - 3rd ed. p 104.

Um estudo bastante curioso foi realizado na Alemanha após a segunda guerra mundial. Dois orfanatos distintos foram observados, um deles administrado por uma amável fräulein onde a rotina das crianças envolvia atividades nas quais elas interagiam com a jovem, sempre muito amável. Outro, administrado por uma fräulein, digamos, não tão amável. As crianças desse abrigo não eram sequer tocadas. Nenhum abraço ou elogio. O resultado?

As crianças sob os cuidados da fräulein carinhosa cresceram em estatura, eram mais seguras e contentes. No outro orfanato, um dado assustador, muitas chegaram até a apresentar casos de nanismo.

Esse tipo de doença, também chamada de nanismo psicogênico, diz respeito aos níveis baixíssimos de hormônios de crescimento na circulação.

A relação entre os hormônios de crescimento e o estado emocional foi também mostrada em um outro estudo realizado na década de 70, dentro de um hospital infantil. Depois de um certo tempo, em que as crianças internadas em tratamento já estavam acostumadas com a rotina e a equipe, a enfermeira predileta entra em férias. Ao analisar os níveis de cálcio depositados nos ossos dessas crianças o resultado foi uma queda surpreendente.

Entendendo o corpo como um todo, é mais do que esperado que o nanismo psicogênico também cause problemas gastrointestinais.

Thumbnail image for childhood-610539_1920.jpg Imagem: pixabay.com

Muitos outros experimentos foram feitos com intuito de comprovar os efeitos do estresse no organismo durante essa fase tão delicada que é o crescimento. O resumo da ópera é o seguinte:

Glicocorticoides sintéticos

A prescrição de glicocorticoides sintéticos, especialmente para mulheres grávidas, deve ser minimizada, sempre que possível, pois existem grandes evidências de sua relação com o mau desenvolvimento fetal e até problemas de ordem emocional e comportamental na infância. Infelizmente, não existem dados suficientes para demonstrar se os efeitos colaterais do uso desses hormônios esteroides são passageiros.

Fatores hereditários

Existem os fatores hereditários, mas esses fatores são muito mais ligados às situações extremas, ou traumas. A vida moderna tem muito mais a dizer à respeito do estresse do que o passado de nossos ancestrais. Recado dado, ocupe-se com o presente.

Estresse gestacional

Sobre as chances de o feto desenvolver algum tipo de síndrome por conta do estresse gestacional. Novamente, o estresse não é bem visto em nenhum momento, mas acontece inevitavelmente. É preciso, então, não brigar com essa realidade, mas entender as melhores maneiras de responder à ela, de modo a não sacrificar o organismo. Uma coisa é certa, e é para ela que temos que olhar, quanto mais cedo se vive uma situação de estresse ou trauma maior o risco de desenvolver transtornos psíquicos no futuro.

Querido leitor, quero lembra-lo que nós estamos aqui. Passamos por essa fase e fico feliz pela oportunidade de lhe trazer um pouco de esclarecimento. Ou será que te deixei mais confuso?

Calma. Aquele grito às duas manhã com o seu bebê insone não vai fazer com que ele esteja fadado a um enfarto em 2060. Na maioria das vezes, uma pequena mudança de hábito e, até de ambiente, resolve tudo, inclusive os casos de nanismo. Incrível, não?

Pois é. Incrível e, apesar do longo texto, simples.

Acredite, basta afeto.

A F E T O.

Cinco letrinhas. E tudo o mais que esse sentimento envolve, pois, sem ele, o estresse inevitavelmente vai assolar o organismo carente.

Por favor, por você, pelos seus, esqueça por um instante os milhares de autores que surgiram nas últimas décadas, navegando na onda de uma nova geração de pais famintos por informação. É um tal de manual daqui, manual dali que só faz assustar esses pais, tão letrados e tão analfabetos.

Converse com um deles e verá que você está redondamente enganado sobre tudo. Você não sabe nada porque não leu a teoria de fundamento duvidoso desses escritores maravilhosos.

Talvez essas “teorias” sejam apenas modismos. Afinal, já na década de 50, especialistas como o Dr. Luther Holt, da Universidade de Columbia, alertavam pais sobre os “perigos” de pegar o bebê todas as vezes em que ele chorava.

Quer saber? Deixa pra lá. Sapolsky está aqui para você junto de alguns outros nomes por trás de estudos seriamente conduzidos. Até então, prefiro professores de Stanford e pesquisas de neurociência e biologia. Você escolhe o que quiser, porque no final das contas, o que vale mesmo é o amor.

Ainda que efêmero, o amor é a mais potente arma contra todos os males. Ele cura, ameniza a dor e, sim, a ciência comprovou: faz crescer.


Fabíola Donadão

Me encantam o simples, o diferente e o divertido. Palavras são como o ar que respiro. Sem elas, não vivo.
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