miscelânea

Um pouco de tudo, de tudo um pouco

Fabíola Donadão

Me encantam o simples, o diferente e o divertido. Palavras são como o ar que respiro. Sem elas, não vivo

Capitão Fantástico

A mãe se foi, mas no final das contas, todos os que estão à parte do clã parecem mortos de alguma maneira, e o mais triste, em plena existência.


hero_Captain-Fantastic-2016.jpg Imagem: Divulgação

Capitão Fantástico (Captain Fantastic, 2016), escrito e dirigido pelo ator e diretor Matt Ross (do filme Vale do Silício), apresenta uma família totalmente fora dos padrões da modernidade, vivendo num mundo à parte, na floresta do noroeste do Pacífico, onde caçam para comer e são auto-suficientes. Eles desfrutam de ar fresco e nenhum consumismo ou materialismo.

Parece incrível na atualidade, não? Um pouco insustentável também. Tais utopias precisam de um líder forte e a figura do pai Ben (Viggo Mortensen) é exatamente isso. Ele é centro dessa família e da história em si, e ao mesmo tempo em que mantém os filhos longe de outras influências, lhes abre um mundo de possibilidades oferecendo-lhes conhecimento teórico e prático na vida, diria, enclausurada em que vivem.

Ben é um pai carismático, bem intencionado e, de certa forma, controlador. Os filhos o seguem com admiração.

No início da história, a mãe deste pequeno clã (Leslie de Trin Miller) está hospitalizada por transtorno bipolar, deixando o pai como o "capitão" do navio.

É tarefa dele garantir que as crianças tenham atividades físicas diárias. À noite eles sentam em volta de uma fogueira, onde as crianças leem livros como Guns, Germs and Steel, Middlemarch e Dostoevsky. Eles discutem sobre capitalismo e classes exploradas. Os filhos sentem falta da mãe e querem saber quando ela volta. Ben recebe a notícia de que a esposa se matou e informa a realidade nua e crua aos filhos, e assim, o filme realmente começa.

Apesar de o roteiro ser, do modo como é apresentado, um pouco improvável na vida real, é exatamente essa exacerbação que chama a atenção para o subjetivo.

A morte é subjetiva.

Não que ela não tenha sido clara para os filhos, e até para as outras crianças da parte “normal” da família, cujos pais tentam mascarar o fato de a tia ter dado cabo da própria vida (essa cena é ótima, por sinal). Refiro-me à morte em si.

Em sua essência, o deixar de existir é pertinente em diversos momentos da narração.

A mãe se foi, mas no final das contas, todos os que estão à parte do clã parecem mortos de alguma maneira, e o mais triste, em plena existência.

O exagero, a censura, a hipocrisia apresentadas nas outras personagens traz a reflexão: será que estamos preparados para aceitar a morte?

Nascer, crescer e morrer é o que caracteriza qualquer ser vivo existente no Planeta, portanto, a morte é uma, ou seria a única, certeza humana.

E, como ninguém, ninguém mesmo, sabe o que acontece depois dela, se é que acontece, esse mistério gera um sentimento de incerteza, de medo e até mesmo desespero. Evita-se tocar no assunto, como se fosse possível evitar o fato. Poucos também são os planos a esse respeito. Planejar o quê, afinal?

O homem mal se organiza para viver, quiçá ele vai querer pensar no modo como vai morrer. Entretanto, o inevitável acontece todos os dias, quando o corpo envelhece e as células se renovam dando nova luz à espécie humana. É o ciclo natural da vida determinando a morte.

Simples assim, para não morrer, basta não nascer!

Mas, essa morte do corpo não deve assombrar. É triste, sem dúvida, mas não há com o que se assombrar, já disse.

Horroriza-te com o modo como as pessoas se matam diariamente e como também contribuímos para que elas morram dia após dia. Isso sim é triste. Mais triste do que a consumação da “morte morrida”.

Os vícios, a hipocrisia, o egoísmo, a tirania, a ignorância… Tudo isso consome o homem e ele morre, morre de verdade, porque quando ressuscita, poucos lhe dão vida, daí ele definha e sofre.

Tanto sofrimento é presenciado! Com o passar do tempo, enquanto o próprio corpo envelhece e a condição plena da vida pede espaço para aflorar, somos corrompidos pelos estereótipos de beleza, e esquecemos que é exatamente neste momento que devemos dedicar esforços para viver.

O que é o belo, afinal?

A morte da alma, da essência, não depende do corpo para acontecer; contudo, depende do ser para simplesmente não acontecer.

Somos tão responsáveis pela morte quanto por nossa própria vida. Então, por que deixar-se morrer enquanto se pode viver?

Capitão Fantástico está longe de ser um filme romântico. A crítica o tem como um filme perturbador.

Talvez porque a família apresentada não siga padrões, mas... Quais são os padrões?


Fabíola Donadão

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