miscelânea

Um pouco de tudo, de tudo um pouco

Fabíola Donadão

Comunicóloga e Nutricionista Funcional.
Me encantam o simples, o diferente e o divertido. Palavras são como o ar que respiro. Sem elas, não vivo

Sobre comer bem, animais de estimação, mães e filhos

MÃE
Hoje fiz repolho roxo orgânico refogado com tomate, cebola e alho.

FILHA
Repolho? Amo!

MÃE
kkkkkkkkkkkkk


É duro acreditar que aquela criança que cresceu comendo purê de batata com ovo porque não colocava um grão de arroz na boca, não passa mais um dia sequer sem variar o prato. E come de tudo! De tudo. Mesmo.

salad-2655893_1920.jpg Imagem: pixabay.com

O que foi que aconteceu? O que a fez mudar?

Antes de mais nada, esse papo aí em cima é um diálogo real com minha amada mãe, a que ri.

Algo que sempre repito para quem me conhece hoje e não sabe do meu passado: “vamos com calma, eu tenho uma história e hemorróidas”.

Claro que existe uma dose de exagero nisso, que eu, como boa comunicóloga gosto de usar para trazer meus colegas e clientes para a realidade. Você escolhe onde o exagero mora, na história ou no diagnóstico.

De toda sorte, a verdade é sempre boa companheira.

Eu não fui uma criança fácil.

Eu não fui uma adolescente fácil.

Você já sacou a parada.

Tudo começou quando decidi estudar Nutrição e Naturopatia Animal para oferecer à nossa mascote o que ela merece comer e experimentar, em respeito ao canídeo que ela é.

Esse curso foi um marcador de águas em minha vida.

Gregory Tilford e Mary Wulff, autores do livro “Ervas para seu animal de estimação” (do inglês, Herbs for Pets), dizem que os nossos bichos estão em nossas vidas com a finalidade de nos reconectar com a Natureza.

Concordo tanto com essa afirmação.

O modo como nos relacionamos com esses queridos companheiros de jornada nos diz tanto. Quando honramos os cães, os gatos, as aves e assim por diante, pelos animais que eles são, e lhes permitimos acesso ao alimento apropriado, e uma vida em harmonia com a Natureza, se sujando e brincando, correndo, latindo, piando, voando... Quando isso acontece e o encanto nos comove, veja, “co-move” no sentido de promover um movimento interno de emoções e sentimentos; quando percebemos essa sinergia, nós também sentimos a urgência da conexão com o nosso próprio ser.

Tá bem, essa conexão às vezes demora um bocado. Vou desenvolver a ideia para ficar mais claro...

Mudei meus hábitos alimentares e meu estilo de vida num processo com diferentes etapas e desafios. Ouso dizer que ele ainda não terminou e, acredito, jamais terminará, porque uma vez ávido por conhecimento, nunca mais se desiste de procurar compreender as coisas, e por assim dizer: estudar.

Enquanto focava meus estudos nos bichos, meu filho teve um melanoma, e isso foi o grande impulsionador para eu mergulhar de vez na área da Nutrição Funcional para humanos.

Racionalmente, eu queria cuidar dele de forma natural, não invasiva.

Desesperadamente, do fundo do meu coração, tudo o que eu queria era deitar a cabeça no meu travesseiro e acordar na certeza de que aquele diagnóstico era um sonho. Mas, aquele momento era real.

Bola para frente é o dizem e assim fizemos. Juntos.

Encaramos uma mudança alimentar para cercar as células tumorais. Nos distraímos montando pratos e descobrindo combinações com alimentos que jamais ousaríamos. Foi muito bom. Tão bom, que nem percebemos o tempo passando e trazendo calmaria.

Depois de mais uma pequena cirurgia, o resultado da biópsia veio dentro da normalidade. Pudemos respirar, mas jamais vamos relaxar os nossos hábitos, porque ambos sabemos que o nosso corpo produz células tumorais a todo instante e que os nossos hábitos influenciam imensamente no comportamento delas (elas podem se multiplicar ou morrer, entrando em apoptose).

As escolhas do presente decidem como o corpo vai se comportar no futuro.

exercise-2099096_1280.png Imagem: pixabay.com

A epigenética explica a influência de fatores externos na mudança do comportamento celular. A exposição a campos eletromagnéticos e pensamentos ruins, por exemplo, alteram o DNA celular fazendo com que as células se comportem de maneira muito ruim. A boa alimentação, em contrapartida, influencia nossas células de maneira muito positiva.

Mas, veja, não se trata apenas de “comer bem”, é preciso “digerir bem” também. A digestão é a chave para a boa saúde.

De forma mais abrangente, podemos dizer que a forma como os pensamentos, as emoções, o ar que respiramos, o sol que recebemos, a atividade física que escolhemos, e claro, a comida que ingerimos, tudo isso precisa ser bem digerido.

Você vai dizer: “mas isso não é possível hoje em dia! Não é assim que as coisas funcionam”.

Eu compreendo. Vivemos em tempos muito agitados. Estamos às voltas com campos elétricos invisíveis. E sempre apressados.

Tantos afazeres nos faz procurar por alimentos prontos, escolas prontas, filhos prontos, informações prontas, conexões imediatas.

Daí eu te digo: é preciso digerir, assimilar, sintetizar e a única forma de se conseguir isso com plenitude é se desconectando dessa agitação.

É preciso desconectar para conectar.

Parece impossível. Eu sei.

Mas não é. É apenas um processo. Único para cada indivíduo.

Um processo que não tem tempo certo para começar ou sequer um começo ou fim definidos.

Um processo chamado vida. Viver é possível.

A espécie humana é parte do reino animal e como tal, nós temos nossos instintos, mesmo que adormecidos, gritando por sobrevivência e de alguma forma expressamos isso, mesmo que inconscientemente.

Pertencer a este mundo é uma necessidade visceral inerente a todo homem.

Ainda assim, resistimos, e engolidos pelo caos da modernidade, nos distanciamos da nossa essência e daquilo que nos faz verdadeiramente humanos.

Falar em desconectar? Nem pensar! O outro se sentirá ofendido.

É o mito da caverna de Platão na atualidade. Enxergamos a realidade que nos deram, nos sentimos seguros e não queremos sair de nossas zonas de conforto.

Meu amigo, você me escuta se quiser. Combinado?

Você tem que sair da sua zona de conforto.

Não há outra saída. Não adianta sentar do meu lado na sala de aula se você não está disposto a se desligar dessa agitação de plástico injetado. Pior ainda, de nada adianta esse seu prato de salada!

Comer um pratão de salada e achar que já fez a sua parte é um engano terrível.

A boa alimentação é parte importante e fundamental para a manutenção da saúde, porém nunca se esqueça das outras partes, que incluem:

- Uma boa dose de , em si mesmo, no divino, no outro, no país, no Planeta. Precisamos de otimismo
- Exercício, tanto o físico como o mental
- Água pura para beber e também banhar, além dos cuidados com as nossas “águas” internas (o sistema linfático somente circula quando nos movimentamos)
- Sol, que as plantas recebem e nos entregam como nutrientes quando ingeridas frescas e o sol que tomamos para a produção de vitamina D, importante para manter os ossos, para o controle do colesterol e tantas outras funções do organismo
- Moderação para nos poupar do exagero
- Descanso merecido e necessário. Uma boa noite de sono é crucial
- Ar... Para respirar e para refrescar

Aliás, essa foi a primeira coisa que fizemos quando chegamos a este mundo. Nós respiramos! E ninguém precisou nos ensinar.

Meu professor de medicina Aiurvédica diz que a respiração nos conecta com a nossa alma.

Deveríamos escolher os nossos alimentos com a mesma naturalidade que respiramos. O cheiro dos temperos, das frutas maduras espremidas no suco fresquinho. Que delícia!

Queria banir as embalagens, elas tentam me enganar e confundem meus olhos.

Comida boa, um querido amigo aventureiro já disse: “não tem rótulo”.

Esse foi o papo com a minha mãe. Falamos de tantas coisas e de como eu mudei.

É tão bom divagar em pensamentos.

Agora, sobre “comer bem”.

A minha opinião é a de que quando a gente se reconecta com a Natureza, com a Mãe Terra, a gente sente uma necessidade espontânea de comer o que ela oferece.

Nem é uma questão de comer bem, mas sim uma questão de “pertencer”, e assim sendo, o alimento faz essa ponte. Você come o que a terra oferece e ela passa a fazer parte de você. E sente-se tão vivo que quer mais. É mais profundo, espiritual e individual. Essa relação, o ciclo vital, o comer para alimentar a alma sem sobrecarregar o corpo físico, a gratidão pelo que o solo oferece.

Tudo isso te faz querer mais, te faz querer pertencer mais e mais.

Somos pura energia. Esse corpo que ganhamos para viver nesse Planeta precisa estar conectado com a suas raízes, com sua própria essência.

Quando esse click acontece, ninguém precisa te falar “coma ou faça isso ou aquilo”, porque você, instintivamente, sentirá essa urgência.

Observe os animais, respire e deixe-se encantar. Você vai desejar ser um humano ainda mais incrível.

E ah! Estará comendo muito bem até lá. Pode acreditar.


Fabíola Donadão

Comunicóloga e Nutricionista Funcional. Me encantam o simples, o diferente e o divertido. Palavras são como o ar que respiro. Sem elas, não vivo.
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