mise en scène do mundo

A expressão, em todas as suas formas e compartilhada, é a independência do homem.

Fabíola Amaral

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A (i)moralidade de Hollywood na Guerra Fria

A herança do estereótipo do bem e do mal nos cinemas, com a identidade do American way of life de Hollywood. Na Guerra Fria, esse estereótipo foi instrumento privilegiado para persuasão ideológica.


Thumbnail image for the-mouthpiece001.jpg Filme The Mouthpiece (1932)

Antes de chegar à “imoralidade” como no filme The Mouthpiece, de James Flood e Elliott Nugent, é bom lembrar que na Segunda Guerra Mundial os filmes realizados como combate ao nazismo tinham grande peso nas conquistas políticas, antes mesmo do exército entrar no campo de batalha.

Mas não era só de propaganda política que Hollywood vivia, existiam também artifícios mascarados de censura moral, “regras de boa conduta”. Terminada a Guerra, o governo norte Americano encomendava filmes para criar a personificação do não socialmente aceito, do mal e do temor aos russos – Era a Guerra Fria.

Hollywood se tornou uma grande máquina de divulgação da identidade americana e dos seus padrões de consumo, e assim, expandiu sua influência no mundo – convencendo a opinião internacional de que seu sistema político, econômico e sociocultural era superior. Por isso, a expressão - American way of life - era muito utilizada pela mídia para mostrar as diferenças da qualidade de vida entre as populações capitalista e socialista. É um conceito, aplicado com objetivos diferentes, que ainda está presente em nossa narrativa audiovisual brasileira, não?

Nessa conjunção, de forma secundária, nascem as diretrizes da censura moral que regia as produções cinematográficas dos Estados Unidos no período de 1930 a 1968 – o Motion Picture Production Code. Também é popularmente conhecido como Código Hays, por causa do seu criador, o advogado Will H. Hays.

O código, por exemplo, proibia cenas de beijo com mais de 3 segundos – que foi “burlado” por Alfred Hitchcock no filme Notorious. A cena ficou famosa em 1946, de Cary Grant e Ingrid Bergman, por seus vários beijos de 3 segundos, mas que juntos formam uma sequência de cerca de 3 minutos.

E Hitchcock além de enfrentar o código Hays, entrou no clima da guerra. Se ele se dedicava ao suspense quase que exclusivamente, no filme Topázio ele o usou mais como um atrativo em meio a uma trama política sobre espionagem e mísseis soviéticos escondidos em Cuba durante a Guerra Fria.

Thumbnail image for 7456.jpg Bastidores do filme Topázio (1969) - Alfred Hitchcock e Claude Jade

Às vezes é na censura ideológica que a criatividade surge – supostamente – como uma heroína, com a intenção de romper estereótipos indo contra o “sistema”. E nada melhor do que a arte como ferramenta de protesto da sociedade para manifestar os abusos da censura. Mas também é uma forma de manipulação disfarçada de protesto. É o que vemos também em filmes que pretendem retratar as questões sociais e políticas de um país, mas que são financiados pelo governo, permitindo, esse, a sua manipulação ideológica.

É nesse contexto que na Grande Depressão o cinema optou pelo “imoralismo hollywoodiano”, caminho que mais tarde seria ridicularizado pelos cineastas. O que muitos cineastas não expressaram é que Hollywood só assumiu a autocensura por uma razão puramente mercadológica.

Ainda no “imoralismo”, o diretor e produtor Howard Hughes do filme O Proscrito, recusou cortar 37 closes dos seios da atriz de seu longa, solicitado pelo administrador da época do código, Joseph Breen. Em 1946 o diretor lançou o filme e ainda provocou com uma publicidade interessante para a época. Ele contratou aviões para escrever no céu o título do filme e com dois balões e um pequeno círculo no meio, numa clara referência aos atributos da atriz Jane Russell. Dois anos depois, o sistema foi definitivamente substituído pela classificação por faixa etária (utilizado até hoje).

O pós-guerra traz consigo a influência do neorrealismo, que se traduz numa nova consciência social e na filmagem em locação, além de novas visões com criadores em volta do globo. E, em meados dos anos de 1950, surge também uma nova geração de cineastas americanos, alguns exilados desde muito novos por suas obras: Kazan, Losey, Dassin, Nicholas Ray.

kazan.jpg Elia Kazan (esquerda) durante a montagem do filme Baby Doll (1956)

A Guerra Fria não mudou só Hollywood, mudou toda a construção da consciência coletiva mundial, dos valores comportamentais em uma fase crítica e marcante para a humanidade. Deixou muitas referências no cinema não citadas aqui como o filme Noir, o Macarthismo, entre outras histórias. Além disso, deixou como herança a criatividade surpreendente de alguns de seus realizadores.

A fase declinou depois da década de 1980, mas nunca mais a indústria cinematográfica foi a mesma, até hoje sentimos os seus ideais.


Fabíola Amaral

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