mise en scène do mundo

A expressão, em todas as suas formas e compartilhada, é a independência do homem.

Fabíola Amaral

Publicitária com pensamentos críticos sobre cultura e arte.

No cinema nada se perde, tudo se transforma

Temos a impressão, mas só a impressão, de que para tudo na vida existiu antes uma referência, algo para transformarmos. Talvez exista pouca legitimidade e o uso da palavra referência nos liberte da culpa na construção de ideias. Mas o que seria a criatividade se não a junção de combinações úteis? No cinema isso não é diferente, com ciclos de referências cinematográficas nascentes no cinema romântico de Hollywoody, ou antes, nos clássicos japoneses, franceses... Mas quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?


o-picolino-4.jpg O Picolino, Mark Sandrich, 1935

The-Artist.jpg O Artista, Michel Hazanavicius, 2011

Sabe aquela sensação de “já vi isso antes”, quem nunca? A criatividade é a capacidade na evolução humana para inventar, discernir, e por fim, escolher. Às vezes, o ciclo infinito de referências nos transborda criativamente em nossas escolhas. É verdadeira a afirmação de que “na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”, atribuída a um químico, chamado Antoine-Laurent Lavoisier, mas que na verdade pode ter sido citada antes e usada apenas como referência.

Na falta de explicação lógica para “quem nasceu primeiro”, o filósofo - amado e idolatrado - Platão, nos presenteou com a doutrina filosófica do Conhecimento Inato. Segundo esse pensamento de Platão, e depois de racionalistas também, o conhecimento inato está presente em nós desde o nascimento, não são adquiridos ou aprendidos. Seria o início e o fim do ciclo de referências que buscamos, terminado no pensamento de alguém que já possuía a ideia antes de exteriorizada, e assim, evoluiu.

Para dar sequência aqui aos ciclos criativos da vida, nada melhor do que mencionar as referências cinematográficas que influenciaram outros cineastas, e que por fim, pode nos influenciar também em nossas atividades do dia a dia. Assim, como no filme O Artista, de 2011, de Michel Hazanavicius - no início desse artigo - é uma homenagem ao cinema mudo em toda a sua concepção. Suas cenas podem ter sido inspiradas em filmes como O Picolo, de 1935, do gênero musical, dirigido por Mark Sandrich.

O grande artista plástico - cineasta experimental do surrealismo - Salvador Dalí, teria sido influenciado pelo carioca, Alberto Cavalcanti, com seu filme Rien que les Heures, de 1926. Dalí usou a referência, do cineasta brasileiro, em cenas criadas no filme Quando Fala o Coração, de 1945, de Alfred Hitchcock.

Quando Fala o Coração.jpg Quando Fala o Coração, Alfred Hitchcock, 1945

Rien que les Heures_ (1926) Alberto Cavalcanti.jpg Rien que les heures, Alberto Cavalcanti, 1926

Depois foi Salvador Dalí quem influenciou outros cineastas em 1929, junto com Luis Buñuel, com o filme Um Cão Andaluz. Em uma visão onírica, as formigas são representadas também no filme Veludo Azul, de David Lynch, de 1986.

Um Cão Andaluz.png Um Cão Andaluz, Salvador Dali e Luis Buñuel, 1929

Veludo Azul.png Veludo Azul, David Lynch, 1986

Os sonhos como porta da alma, refletindo o mundo interior, é o surrealismo no filme Sangue de Um Poeta, de 1930. Primeiro filme de Jean Cocteau, cineasta que se destacou com uma linguagem própria, mesclando poesia e realidade, inspirou muitos outros cineastas que mostraram o subconsciente representado em espelhos, corredores e portas. Visivelmente essas referências estão presentes no filme A Origem, de 2010, de Christopher Nolan.

O Sangue de Um Poeta.jpg Sangue de Um Poeta, Jean Cocteau, 1930

A Origem.jpg A Origem, Christopher Nolan, 2010

Considerado uma obra-prima do cinema mudo, o filme norte-americano Intolerância, de 1916, dirigido por D. W. Griffith, é uma referência épica de batalhas medievais. Ridley Scott, em seu filme Cruzadas, de 2005, possui identidade visual e de figurino com base em Griffith.

Intolerância.jpg Intolerância, D. W. Griffith, 1916

Cruzada.jpg Cruzada, Ridley Scott, 2005

Martin Scorsese sempre fez referência aos clássicos e românticos filmes, das primeiras décadas do cinema, em sua filmografia. Em seu filme, Os Bons Companheiros, de 1990, temos o mesmo enquadramento, com uma cena igual ao filme O Grande Roubo de Trem, de 1903 - o primeiro filme do estilo western de Edwin S. Porter.

O Grande Roubo do Trem.jpg O Grande Roubo de Trem, Edwin S. Porter, 1903

Os bons companheiros.jpg Os Bons Companheiros, Martin Scorsese, 1990

Uma das cenas clássicas da história do cinema, por sua dramaticidade e idealização de montagem, é na escadaria de Odessa. Em meio a pessoas sendo pisoteadas e correndo escada abaixo, um carrinho com um bebê dentro desce sem direção, o filme é O Encouraçado Potemkin, do soviético Sergei Eisenstein, de 1925. Brian De Palma utilizou o mesmo recurso dramático e enquadramentos idênticos, ao clássico, em seu filme Os Intocáveis, de 1987.

O Encouraçado Potemkin.jpg O Encouraçado Potemkin, Sergei Eisenstein, 1925

Os Intocáveis.jpg Os Intocáveis, Brian De Palma, 1987

Como essa lista não tem fim e nunca terá, continuamos com uma recriação que nem pode ser chamada de referência, pois é a cópia de quadro a quadro de algumas sequências de A Carruagem Fantasma, de Victor Sjöstrom, de 1921 – considerado um dos filmes mais importantes da era silenciosa. Os quadros copiados estão nas cenas mais aclamadas de O Iluminado, de Stanley Kubrick, de 1980.

O iluminado 3.png A Carruagem Fantasma, Victor Sjöstrom, 1921

The Phanton Carriage The Shining.jpg

O Iluminado 2.jpg O Iluminado, Stanley Kubrick, 1980

O Iluminado.jpg

Uma das mentes com maior repertório e conhecimento cinematográfico, que usa em toda sua filmografia referências de filmes B – ou trash dos anos de 1970 –, cultura pop e mangá, é de Quentin Tarantino. Ele se inspira em movimentação de câmera, construção de personagens e até mesmo reproduz cenas idênticas. Como exemplo, o filme Kill Bill, de 2003 e 2004, possui referências na estética e de conceito criativo de Lady Snowblood, um filme japonês de 1973, dirigido por Toshiya Fujita.

E as menções em Kill Bill não param por aí, filmes como Era Uma Vez no Oeste de 1968 – também referência estética para outros milhares. Continua com Gone in 60 Seconds de 1974, na paleta de cores e cenas conceituais iguais. Figurino bem próximo de Bruce Lee em Jogo da Morte, de 1979. Mesma estética visual nas batalhas do filme Samurai Fiction, de 1998. As coreografias filmadas de cima, referência do filme O Dragão Chinês, de 1971. O personagem Pai Mei é cópia de Carrascos de Shaolin, de 1977. Tarantino não tem limites em seu repertório.

Lady Snowblood, Toshiya Fujita, 1973.png Lady Snowblood, Toshiya Fujita, 1973

Kill Bill 1.jpg Kill Bill, Quentin Tarantino, 2003

O exercício aqui é procurar filme por filme, comparar cena por cena, assim, aumentar o repertório pessoal de boas referências e evoluir nas ideias. Esse artigo surgiu do documentário A História do Cinema: Uma Odisseia, que nos ensina justamente que tudo se transforma no cinema. Foi na junção de ideias, em 1894, que os irmãos Lumière construíram o aparelho que usava filme de 35 mm. De um mecanismo de alimentação intermitente, baseado nas máquinas de costura, captava as imagens numa velocidade de 16 quadros por segundo.

A criatividade se revela a partir de associações e combinações das quais experienciamos sensorialmente durante a vida. Então, criatividade é viver.


Fabíola Amaral

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