mise en scène do mundo

A expressão, em todas as suas formas e compartilhada, é a independência do homem.

Fabíola Amaral

Publicitária com pensamentos críticos sobre cultura e arte.

“Faça-se a luz!”. E assim, o cinema nasceu!

Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas. A versão romântica do nascimento da luz em Gênesis é improvável, sabendo que a escuridão não existe por ser a ausência de luz. Sem entrar nessa discussão, mais sim, pensar que da luz e do tempo, nasceu a sétima arte, para além da visão científica e tecnológica de “luz”. E vimos que o cinema era bom, e iluminou a alma das trevas.


thecabinetofdoctorcaligari.jpeg Das Kabinett Des Doktor Caligari - Robert Wiene (The Cabinet of Dr. Caligari) - 1919

Em 2015 será celebrado o Ano Internacional da Luz. Quem proclamou isso foi a Assembleia Geral das Nações Unidas, em reconhecimento à importância das tecnologias associadas à luz no desenvolvimento sustentável e em soluções para os desafios globais nos campos da energia, educação, agricultura e saúde. A luz, como bem, como fenômeno da natureza, como energia, como desenvolvimento social e de progresso econômico, possui significados e representações distintas, mas que ao iluminar, o certo, o bonito e o eficiente aparecem.

Ano Internacional da Luz.jpg Ano Internacional da Luz - 2015

A comemoração do Ano Internacional da Luz possui base em algumas conquistas importantes relacionados à luz na história da ciência, mas e na arte? O que a luz representa na então arte do entretenimento, na arte da iluminação da alma, na arte da verdade em narrativa, dos sonhos e da linguagem universal? O que a luz representa no cinema?

A ONU esqueceu-se de proclamar que a luz, tal como o som, é um fenômeno de natureza ondulatória que está intimamente ligada à história do cinema, principalmente pelo ponto de vista estético. A história da luz faz parte da história do cinema, pois a luz é a essência do cinema. Sem a luz não haveria irmãos Lumière criando o Cinematógrafo, lá em 28 de dezembro de 1895 no Grand Café, em Paris.

sala-do-cinematografo.jpg Cinematógrafo Lumière - A primeira sala de cinema em Paris

Filmes sem atore existem, sem música, sem som, sem cenário também. Mas filmes sem luz são impossíveis, é a luz que permite a magia dos sonhos em 24 quadros por segundo – dos nossos sonhos audiovisuais. E da nascente do cinema, a luz também representa a linguagem fotográfica, a interpretação e dirige nossos pensamentos na narrativa. A luz, no cinema, é linguagem.

E qual escola cinematográfica representa mais a íntima relação da luz no conceito narrativo do cinema? Todas as escolas possuem grande representatividade de significados por meio da iluminação. Os cineastas atuais como Wes Anderson, Darren Aronofsky, Terrence Malick, Lars Von Trier, entre outros, manipulam muito esse recurso.

dogville.jpg Dogville - Lars von Trier - 2003

Cisne Negro.jpg Black Swan (Cisne Negro) - Darren Aronofsky - 2010

Tree-of-Life.png Tree of Life (A Árvore da vida) - Terrence Malick - 2011

Mas sem as cores, e em uma época sem o som no cinema, uma das escolas que representou muito bem as formas visuais baseadas nos efeitos da luz elétrica, foi o Expressionismo Alemão. Em grande parte, esse expressionismo recorre, de um lado, a figuras e motivos da literatura romântica, mas encena visualmente as narrativas do século XIX com tais efeitos de luz adaptados. Com efeitos inovadores e uma técnica de luz elaborada, a narrativa lembra muito as encenações teatrais, no exagero, no literário e dramático.

Sobre as técnicas visuais do cinema Expressionista Alemão, existem histórias a respeito da possibilidade de tudo ser “sem querer”. A partir do emprego do cone de luz e do holofote móvel, cortando o espaço e contrastando o protagonista com a luz, em completa escuridão, criando fortes áreas de sombras no então chamado expressionismo, tudo isso seria apenas uma saída econômica devido à falta de recursos para cenários complexos. Não podemos negar que são, sobretudo, tais “imagens de sombra e figuras de luz“, que marcam os filmes alemães da época e é a base para sua classificação como expressionista.

cabinet-du-dr-caligari.jpg Das Kabinett Des Doktor Caligari (The Cabinet of Dr. Caligari) - Robert Wiene - 1919

Expressionismo Alemão.png

E depois do Expressionismo no cinema, veio Ingmar Bergman, com a magia do ballet, de forma quase teatral, no filme Juventude. Ensinando-nos que a fotografia é linguagem e que a iluminação pode ser o fator exclusivo da interpretação e relação que criamos com os personagens. Isso na beleza do preto e branco, em flashback e com uma iluminação incrível.

O filme Juventude é um dos favoritos de Godard. Seu pensamento sobre o colega: "O cinema não é um ofício. É uma arte. Cinema não é um trabalho de equipe. O diretor está só diante de uma página em branco. Para Bergman estar só é se fazer perguntas; filmar é encontrar as respostas. Nada poderia ser mais classicamente romântico". (Jean-Luc Godard, "Bergmanorama", Cahiers du cinéma, Julho – 1958).

Juventude.jpg Sommarlek (Juventude) - Ingmar Bergman – 1951

Discorrer sobre a luz no cinema poderia levar uma vida inteira de análises e de fascínio pela beleza e inteligência que alguns dos grandes cineastas do mundo conseguiram em suas obras. Mas eu proponho apenas, que a ONU lembre em 2015, que devemos celebrar também o Ano Internacional da Luz no Cinema, ou da luz que se fez o cinema, para deixar a vida muito mais iluminada. Que clichê!


Fabíola Amaral

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