missão errante

muitos, muitos submundos

Mailson Vieira

Estuda história, faz história e conta história

FOTOGRAFIA: Lugar do olhar e da história

No aniversário da tragédia em Eldorado dos Carajás, um suporte visual traz a questão: qual função a fotografia pode ter para evidenciar um processo histórico? Ilusão da realidade? Representação do real?


g2_5.jpg Caixões de dezenove camponeses assassinados em 17 de abril no povoado de Eldorado dos Carajás.Pará, Brasil, 1996. Por Sebastião Salgado

A fotografia propõe um olhar, uma perspectiva que apresenta o instante sob um ângulo que privilegia uma dada realidade. Essa realidade poderia ser exposta de maneiras diversas, mas é importante evidenciar que o processo interpretativo se dá, sobretudo frente à experiência proporcionada por uma captação específica, com escolhas angulares e estéticas pontuais. A colocação dos caixões de trabalhadores em primeiro plano comunica o objetivo da produção, o que se desejava ser comunicado. O destino de dezenove camponeses após participarem de conflito em seu povoado. Dessa forma, a fotografia tem a função de evidenciar um processo histórico, político e social, a partir de sua narrativa e linguagem simbólica. Acaba por desempenhar um papel extremamente importante de registro, e captação de um presente que ao final do clique, já se tornou passado. O armazenamento de uma memória visual é o que dá à fotografia um imenso número de possibilidades para produção historiográfica, ainda que já tenha uma historiografia em si mesma. No momento de explorá-la como documento, a premissa a ser colocada é a que entende a fotografia como representação do real. No momento histórico que vivemos, a imagem fotografada tem um caráter corriqueiro, fortemente impregnado na sociedade contemporânea. O apelo intenso que temos a este recurso no cotidiano, pode nos levar a não ler a fotografia criticamente, e modificar de forma determinante a percepção do que está sendo visto. É necessário que o material fotográfico seja desconstruído. Pensar na sua manipulação, escolhas angulares, de objetos, luminosidade etc. Quando Sebastião Salgado optou por produzir a fotografia do cortejo de caixões em preto e branco, utilizou um critério estético na produção, logo, existe uma arbitrariedade inerente ao objeto. Fica evidente que estamos em um lugar no tempo onde as imagens já saíram do âmbito dos historiadores da arte. Imagens como essa já ocupam posição importante em pesquisas historiográficas, sobretudo para especialistas em história cultural. Essa ampliação da concepção do potencial da imagem na formação do conhecimento pode e deve ser integrada a propostas que a integre como recurso didático, que não esteja necessariamente subordinada a um texto. Dessa forma, o conhecimento histórico e as questões pedagógicas caminharão na mesma direção, do desenvolvimento da capacidade de observação, investigação, assim como o conhecimento da própria subjetividade.

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A forma como trabalha os contrastes de luz são especialmente marcantes. O céu aberto na parte esquerda e fechado à direita contrastando com as luminosidades respectivas embaixo, coloca os seguidores do caminhão de caixões como indivíduos sem rosto. Ocultados num clima sombrio, se destaca totalmente do lado oposto, onde passa em sentido contrário um ônibus com os dizeres “Cidade Nova”. Os passageiros levados pelo “cidade nova” tem face, e olham do seu lado iluminado o cortejo fúnebre com relativa atenção, enquanto se dirigem ao cenário que retirou os semblantes daqueles que voltam. O sol não foi suficiente para devolver suas fisionomias, tratava-se de um acontecimento de ordem política, humana, e a captação traz uma narrativa que evidencia o desamparo dos indivíduos naquele momento. A análise nos permite estabelecer hipóteses. A bandeira que cobre os caixões como um manto que traz a palavra “trabalhadores” pode ser considerada uma pista no processo investigativo de interpretação da imagem, onde a sua condição tem relação com o fato. A fotografia apresenta variedades de veículos numa pista de duplo sentido, que transitam em maior número no sentido mais próximo ao “expectador”. São motos, bicicletas, ônibus e um caminhão. Rodeados por uma moldura natural de árvores e mata ao redor da estrada que evidenciam o ambiente interiorano da captação. Essa narrativa é por mim interpretada a partir de um direcionamento de olhar, criado, entre outros aspectos, a partir da legenda a ela atribuída. O conhecimento da publicação Êxodos, do trabalho do fotógrafo Sebastião Salgado, aliado à singela pesquisa, contribuem para o processo de produção de conhecimento baseado na imagem. Digo, porque se estivesse colocado em um debate onde o tema fosse “meios de transporte”, provavelmente construísse outro enfoque interpretativo, uma vez que, como aponta Silvia Caiuby, recebemos a imagem “a partir de uma negociação de sentidos que transcendem a própria imagem e que se realiza no contexto da cultura e dos textos culturais com que ela convive”. A significação que damos às coisas, o tratamento e relevância diferentes que damos a objetos, cores e sinais nos prova que, apesar de se processar de forma biológica, ver não é apenas um fenômeno físico, mas também um fenômeno cultural. A imagem não fala apenas a partir do olhar daquele que a fotografa, mas dialoga inevitavelmente com aspectos, modos e questões típicas da sociedade e dos sujeitos que a produzem, sejam eles fotógrafos, fotografados ou indivíduos que se deparam com o fotográfico.


Mailson Vieira

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