missão errante

muitos, muitos submundos

Mailson Vieira

Estuda história, faz história e conta história

CINEMA DE ESTRADA: VIAGEM NAS REPRESENTAÇÕES

Quando o cinema filma o Nordeste, não se compara a nenhuma cidade, de tão rica de gente e claridade, e com tanta riqueza acima do chão.


Central doBrasil 2.png Na narrativa dos filmes de estrada, ou road movies, o cinema nacional frequentemente optou pelas dicotomias existentes entre o meio urbano e rural, a cidade e o interior. Tais temáticas tornaram-se de importante significado na história cinematográfica brasileira. E englobam inevitavelmente, questões relativas às representações sociais no cinema. No cinema, a sequencia determina a narração. Toda narração é um discurso. E nessa perspectiva, quando o espectador senta-se na sala do cinema e estabelece o pacto de ficção, aquele que o permite acreditar numa história durante uma hora e meia, inevitavelmente beberá com alguma intensidade do que está incrustado no conteúdo da narração. E como já é sabido, o pacto de ficção, aliado à experiência que o cinema acomodado na dosagem de realismo que o filme proporciona, tem inerente ao seu corpo, uma sustentação ideológica. O universo temático que explorou as contradições entre a metrópole e o sertão se manifestou com grande representatividade durante o Cinema Novo. Esse cinema tinha o claro objetivo de descobrir o que seria o Brasil no seu sentido mais bruto, mais verdadeiro. Explorar na sua narrativa os pontos determinantes para a formação das identidades brasileiras e problematizar a realidade na sala do cinema. A miséria, a seca, a fome, foram retratados com forte caráter de denúncia. Filmes que não queriam se encerrar juntos com os créditos, mas que tinham função reflexiva.

O pagado Cópia.pngSão vários os filmes desse período que se dedicam a isso, mas coloco em destaque o incrível O PAGADOR DE PROMESSAS (1962). Um dos filmes que abrem os olhos do mundo para o cinema nacional e traz no seu corpo, um interessante panorama dos abismos existentes no interior da sociedade brasileira. A história do filme se dá na trajetória de Zé Burro no cumprimento de sua promessa. Carregar nas costas uma cruz semelhante à de Cristo de sua casa no meio rural até a igreja de Santa Bárbara no centro de uma cidade, após seu burro ter a vida salva ao ser contemplado com um milagre da santa. Zé é impedido de cumprir a promessa, após o padre barrar sua entrada na igreja, alegando paganismo no seu culto. Zé Burro havia feito sua promessa em meio a uma cerimonia de tradição africana, cuja divindade (Iansã) é correspondente à Santa Bárbara na tradição católica. Descortinam-se traços da identidade brasileira, profundamente marcada pela religiosidade e com presença de dissonâncias e simbioses entre tradições. O pagador de Promessas 1 - Cópia1.png A representação do homem da cidade e o homem do campo segue uma fórmula que vai se repetir em vários filmes dedicados ao tema. A jovem ingênua cooptada pela lábia do malandro da cidade. Zé burro, o estereotipo do nordestino, subjugado, sofrido, inocente. A convicção, a busca obstinada é fórmula constante nas representações nordestinas. O cinema, como a mais importante manifestação artística do nosso tempo, oferece, nas suas representações, evidencias dos próprios mecanismos sociais da sociedade contemporânea. Mesmo os filmes de temática histórica, trazem em si traços dos mecanismos sociais da sociedade que o produziu. Talvez essa seja uma explicação do por que as representações da vida urbana predominarem na filmografia mundial. Para lançar luz à questão rural no cinema de grande público é preciso evidenciar que, se tratam de imagens construídas pelo meio urbano. Mesmo os que foram buscar no campo uma “estética brasileira” para o cinema, trouxeram o referencial das metrópoles, onde o cinema se reproduzia. Com Mazzaropi rompe-se um pouco com o quadro geral até então delegado ao campo, apesar de não tratar propriamente do nordestino. Explorando temáticas socioculturais onde o homem rural permanece em contraposição à modernidade. Apesar dos lúdicos episódios de demonstração das diferentes formas de sociabilidade entre o caipira e o paulista, o homem do campo aparece como esperto. Sujeito de sua própria vontade e convertendo a esperteza urbana em seu benefício.

Central do brasil 7.png O impacto urbano sobre o mundo rural, a transformação das tradições e hábitos serão responsáveis por importantes variações no Cinema da Retomada, inclusive com filmes de estrada que trazem a migração inversa, da cidade para o campo. Como no celebrado CENTRAL DO BRASIL (1998), que ratifica a existência de um país puro e cheio de significados em seu interior. Os valores urbanos e rurais se manifestam juntamente com a trajetória de transformação da personagem. Dora, que escreve cartas na estação é permeada de um clima pesado e de uma impessoalidade construída na sua vida na cidade grande. A montagem transmite com muita eficiência a ideia de velocidade imposta pela modernidade. Dora se vê diante do desafio de levar um garoto órfão de volta para o Nordeste, após sua mãe ser atropelada por um ônibus. A personagem decide largar tudo e ir junto com o garoto na viagem, mas quando chega encontra um Nordeste modernizado. Porém, é nesse sertão urbano que acontecem as manifestações culturais, as festas e onde a sociedade se constrói. Em contraposição ao clima acelerado da metrópole, o tempo parece passar mais devagar e são maiores os momentos de contemplação. A imagem que Dora tem dos nordestinos, aqueles que ela enganava na estação não se altera propriamente, a condição de ingenuidade permanece, as mudanças parecem ocorrer mais no sentido da comparação ambiental. Apesar da sensibilidade de Walter Salles, o filme romantiza o cenário do campo, demonstrando ainda uma visão urbana do interior. Os migrantes nordestinos aparecem exclusivamente como analfabetos, ingênuos passíveis de atropelamentos na cidade grande.

O Caminho das Nuvens 4.png Em O CAMINHO DAS NUVENS (2002), um road movie de bicicletas, o filme centra-se na obsessão de Romão por um salário de mil reais, que o motiva a viajar com a família de bicicleta da Paraíba em direção ao Rio de Janeiro. As situações de oposição da modernidade com os hábitos nordestinos se manifestam nas contestações do filho de Romão, Antônio. O filho mais velho contesta a posição autoritária do pai perante a família, e a obstinação pela viajem. Há vários momentos de demonstração da escassez, fé e princípios de honestidade. Em uma das cidades que a família passa em busca do sonho urbano, encontram o clássico personagem aproveitador, que rapidamente sai de cena. O filme encerra com os personagens chegando ao Rio de Janeiro, mas não traz nenhuma evidencia da condição marginalizada que o imigrante encontra na região Sudeste. A obstinação, a fé e a busca são os principais instrumentos utilizados pela família na busca por uma vida melhor, que no caso só poderia ser encontrada na cidade. A oposição da modernidade com a tradição enfraquece o poder paterno, e vários episódios ao longo do percurso, evidenciam a vitória da modernidade, inclusive com enfraquecimento da tradicional religiosidade. O cenário nordestino de boates e ambientes tecnológicos é semelhante ao Nordeste das rotas de turismo. Há vários outros nordestes, estes que continuam esperando sua representação. Que se distanciem das aspirações pobres e das convicções desproporcionais. Um nordeste rico nas relações humanas, que não esteja relegado ao passado. É necessário olhá-lo sobre novos prismas. Ainda estamos em busca de representações de nossas raízes e necessitamos de um mergulho mais apurado na realidade do nosso ambiente rural, que entenda que além das contradições existe uma identidade não necessariamente subordinada ao meio urbano. O caminho das nuvens 1.png


Mailson Vieira

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