missão errante

muitos, muitos submundos

Mailson Vieira

Estuda história, faz história e conta história

A SOCIOLOGIA NO CHEIRO DO RALO

O filme tem momentos de densidade, mas a rotatividade de personagens cria uma atmosfera dinâmica e com muitas situações engraçadas. O personagem de Selton Mello, além de grandes frases de efeito, tem um humor ácido e satírico de refinado alcance nas situações.


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Música agradável e foco na passagem de um quadril vestindo um shortinho com estampa de paisagem paradisíaca. É nessa narrativa que começa uma das mais interessantes obras da cinematografia nacional, O Cheiro do Ralo (2006).

Lourenço vive num universo de compra e venda de objetos usados, de maneira que a circulação constante de pessoas dependentes e em situação fragilizada imprime na sua personalidade uma relação fria e impessoal no seu relacionamento com o outro. O micro poder dado a ele na posição de comprador de objetos alheios reflete-se em conflitos internos e rompe a barreira do mundo do trabalho.

ralo 6.png A narrativa segue com a característica da narração subconsciente do protagonista, que aliás, é o único que tem nome o filme. Mesmo a garçonete quando num flerte se apresenta a Lourenço, tem seu nome absorvido por um silêncio, numa interessante sacada que contribui para que o público entenda a singularidade desse relacionamento e dessa aproximação. Sua imersão na prática de um trabalho que arranja todo o relacionamento interpessoal à transação monetária e atribuição de valores a objetos pela simples arbitrariedade do ir ou não com a cara do indivíduo na sua sala, põe em evidencia o lugar complexo do “eu profissional” na relação emaranhada com o “eu pessoal”. Essa relação transformadora do homem com o trabalho é de grande importância para o entendimento do lugar do indivíduo na sua trajetória social, mesmo no campo da ficção é possível verificar conexões com referenciais teóricos como o de Karl Marx.

Marx já havia enunciado a questão da práxis social como um processo de trabalho cuja realização depende da transformação real do indivíduo trabalhador. O trabalho não se assenta exclusivamente na transformação de objetos e manipulação de situações, como também implica na adaptação da identidade do sujeito a transformar a si mesmo na realização do ofício. A identidade de Lourenço carrega traços de sua atividade, assentada na eficiência da arte de negociação de preços de artefatos. Porém, o poder está centrado na sua figura, a câmera algumas vezes assume a perspectiva do que oferta o objeto a ser comprado. As figuras que visitam a sala pretendem um bom retorno financeiro, mas isso não interessa a Lourenço, cuja prática e experiência não o permite olhar com pena das pessoas. Para esses sujeitos valerá um dos jargões que o personagem carrega durante o filme: “A vida é dura”.

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O filme é composto de muitos planos fixos de câmera, poucas locações e cenários inertes de passagem que dão a ideia de rotina. As sequencias induzem o público a um voto de silêncio involuntário. Isso se deve e muito, a grande incorporação do papel em Selton Mello, cujos silêncios, encaradas e mesmo algumas tragadas de cigarro comunicam com muita naturalidade a composição oscilante do personagem, muitas vezes cumprindo o papel de anti-herói de si mesmo. Em casa, após abandonar a noiva histérica preocupada com os convites de casamento na gráfica, Lourenço se rende ao vício e a solidão pornográfica na tevê, onde obedece aos movimentos de uma sensual professora de dança. No trabalho enxerga a ausência nos sujeitos de algo para oferecer. É tudo venda, relação de poder e fim. Porém, a necessidade de explicar o cheiro que vem do ralo de um banheiro a todos os que passam por sua sala, denotam um universo de fraquezas e problemas escondidos, projetados na alegoria do ralo. O cheiro do ralo é um portal, lugar de redenção e reflexão.

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A garçonete (Paula Braun) não está dentro desse mundo, logo, aparece mais segura, menos dependente. Apesar de demonstrar interesse em Lourenço, ele tem problemas com esse tipo de relacionamento, já que “se bobear os convites vão pra gráfica”. A obsessão está em comprar a parte do corpo que mais o atrai na garçonete (quando ela pede demissão ele sequer percebe sua ausência antes verificar a bunda da nova garçonete). Apesar de cômico a trajetória de busca se mostra também dramática. É preciso comprar a bunda, ela tem de fazer parte de seu acervo. “O poder é afrodisíaco”. É preciso pagar pra ver, e o espectador poderá ter a mesma sensação de Lourenço, da bunda como objeto (há exemplos pela mídia), às vezes dissociado do corpo e da pessoa.

Ora, ao longo de toda história da humanidade o homem cria objetos para suprir suas necessidades, porém o leitor provavelmente deve se lembrar de situações da vida cotidiana onde o próprio homem fica subordinado ao objeto, e não o contrário. Quais os limites de uma sociedade cujo alcance do fetichismo é cada vez mais indeterminado? A história depende muito dos objetos que entram no caminho do personagem, aliás, temos cenários riquíssimos em informação nas paredes, móveis etc. São muitos objetos, muitas histórias que os cercam. A fotografia utilizada envolve em muitos tons de pastel e bege, o que considerei adequada para a absorção do sentimento, do clima das coisas e dos elementos que rodeiam o filme.

A admirável representação de Selton Mello como protagonista, não diminui a riqueza dos coadjuvantes na amarração da trama. Belas atuações como a de Silvia Lourenço fazendo o papel de uma viciada, responsável por trágicos e cômicos desdobramentos nas suas visitas e com uma humanidade muito interessante na sua atuação. O vendedor do olho postiço, no qual se cria a história de um pai para Lourenço, compondo a tripla obsessão ralo-bunda-pai frankstein. Belos personagens como o vendedor do violino, o entregador de pizza, além do carismático Lourenço Mutarelli, criador a obra literária homônima inspiradora do filme, como segurança.

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O filme tem momentos de densidade, mas a rotatividade de personagens cria uma atmosfera dinâmica e com muitas situações engraçadas. O personagem de Selton Mello, além de grandes frases de efeito, tem um humor ácido e satírico de refinado alcance nas situações. A minha favorita é, quando um cliente olha o ralo e diz “Olha, tem até merda voltando”, e Lourenço responde “Então faz igual a merda, volta outra vez”.

Feito com o orçamento de trezentos mil reais (o que para cinema é bem barato) foi possível chegar a um grande resultado. Com grande desempenho de Heitor Dhalia na direção, o premiado O Cheiro do Ralo é um grande filme, com grandes atuações, mas ainda prova que para fazer cinema no Brasil é preciso mais que vontade. A paixão e a associação dos produtores, atores e toda equipe foi determinante para a viabilização desse projeto de grande nível de sofisticação no roteiro e maturidade cinematográfica, raríssimos em tempos de Globo Filmes. A complexidade do personagem que desperta simultânea e aleatoriamente lapsos de amor e ódio, há de figurar entre os grandes personagens do nosso cinema, como retrato dos dilemas sociais e comportamentais do nosso tempo.


Mailson Vieira

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