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Cinema, literatura & outras artes

Andrei Ribas

Escritor e servidor público. Lançou O monstro (novela, All Print, 2007) e Animais loucos, suspeitos ou lascivos (contos, Multifoco, 2013). Nasceu em Santo Ângelo/RS e mora em Santa Rosa/RS

NOSSA MENTE TÃO CHEIA DE ROMANCES ERRADOS

O livro Barba ensopada de sangue parece ser o mais existencialista e perturbador do escritor radicado gaúcho, natural de São Paulo, Daniel Galera. Demonstra, ainda, sua maturidade literária e a candidatura do volume a clássico cult.


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Daniel Galera é autor de cinco livros: Dentes guardados, Até o dia em que o cão morreu, Mãos de cavalo, Cordilheira e Barba ensopada de sangue. Entre Cordilheira e Barba, em parceria com Rafael Coutinho, escreveu Cachalote, uma HQ. O maior deles (424 páginas), porém, parece ser também o mais existencialista e perturbador do escritor radicado gaúcho, natural de São Paulo. Demonstra, ainda, a maturidade literária de Galera e a candidatura do volume a clássico cult.

O protagonista do livro possui um raro distúrbio neurológico que o impede de memorizar a aparência das pessoas. A primeira ironia desta condição reside no fato do personagem ser professor de natação, inserindo, na sua responsabilidade de agente da ação, uma competência incomum acerca dos limites de seu corpo e dos demais personagens que lhe cercam. Sem ser nomeado, o protagonista, na cena que abre o romance, visita seu pai. O pai lhe revela que irá se suicidar e o incumbe de uma missão inusitada: matar sua cadela, Beta, para que o animal não se sinta sozinho após a morte do dono. Contudo, esta é apenas a primeira motivação do livro que vai se sustentar não na esquisita decisão paterna, mas no que é dito no diálogo antes da revelação do futuro suicídio, ou seja, a história da morte do avô do personagem principal, conhecido por Gaudério, em condições misteriosas na pacata cidade de Garopaba, litoral catarinense, morte ainda sem resolução.

O protagonista então irá se mudar para Garopaba onde passará a dar aulas de natação e, nas horas vagas, investigar o que houve com seu avô. Entretanto, se descobrirmos ao longo do livro (principalmente no capítulo final) que o herói tinha outras motivações para sua mudança, é também impossível apontar a “investigação” como centro exclusivo do enredo do romance. A relação com a cadela do pai que o protagonista decide não matar, o passado conturbado com o irmão e sua mulher (que foi sua namorada), a responsabilidade ligada à família, o convívio com a hostilidade da nova cidade (que não gosta das perguntas que ele faz), com os alunos e com as mulheres (sim, mulheres, dando uma característica “macho-alfa” ao personagem, concretizando o estilo do autor delineada nos livros anteriores e influenciada por autores como Comarc McCarthy) – com ênfase em Jasmim, com quem sai por um tempo –, permitem a produção de uma linha dramática cheia de curvas e arestas.

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O mistério da morte do avô, assassinado em um baile após um apagão, é só a primeira constante estrutural do romance. O livro está repleto de trechos dissociados da ação principal, o que prova a habilidade literária de Galera como romancista. São assim todas a cenas envolvendo seus alunos ou o simpático amigo budista Bonobo, por exemplo (idêntico nome de outro personagem – o mesmo? – encontrado em Mãos de cavalo). A proliferação de experiências, vinculadas às inúmeras veredas narrativas, empresta certa lentidão ao romance, que se detém nos aspectos sensoriais do mundo em todas as situações vividas pelo narrador. Esta é uma das formas de lidar com a representação de sua patologia. Nesse sentido, o próprio mistério a ser desvendado enfatiza e se nutre da lentidão de um texto que demora a desvendá-lo. Outra forma de lidar com o distúrbio do narrador é a importância especial dada às descrições, algo raro na prosa contemporânea. Elas surgem como uma forma viável de memimetizar uma consciência que está sempre se reconstruindo, sempre reaprendendo as aparências – além de render trechos geniais como na cena do concurso da rainha mirim (p. 188). É interessante notar que, às vezes, no intuito de criar este efeito, elas chegam atrasadas, a exemplo da primeira cena com o pai (p. 30). Além disso, elas também funcionam nada gratuitas no sentido de amparar e realçar as dominantes psíquicas e até ideológicas das personagens e das cenas relatadas. O detalhamento ajuda a reforçar descrições de tipo valorativo, que criam um sentido para a ação, como “os túmulos são tão próximos uns dos outros que as poucas passagens disponíveis terminam em becos sem saída” (p. 69), em que a descrição de um espaço limítrofe funciona análogo à crise das personagens. No momento em que Dália revela que se drogou antes de sair com o filho, lê-se “não dá nada, diz olhando para ele como se isso fosse óbvio, como se toda pessoa viva já tivesse tomado um ácido e soubesse que não tem problemas, ora bolas. O malabarista comete outro erro, dessa vez com as bolinhas” (p. 145), em que o erro do malabarista enfatiza o julgamento do narrador com respeito à atitude também equivocada de Dália. Na última cena do livro, em que muito é explicado, a partir da conversa do protagonista com Viviane, seu antigo amor e atual esposa do irmão, tem-se o seguinte comentário: “Ele risca quatro fósforos até conseguir acender o fogão” (p. 406), em que tal série de tentativas frustradas explicita a condição mental do sujeito no tenso embate com seu passado. Por isso também a última forma de lidar com a especificidade do protagonista está na escolha do tempo do romance. Narrado todo em tempo presente, característica de algumas obras contemporâneas, mas que aqui adquire um sentido diferenciado, afinal, os seres vistos pelo personagem principal nunca têm passado, estando conservados no eterno presente da visão e nunca por intermédio referencial do reconhecimento. Assim, a primeira palavra do romance depois do prólogo (“vê”), além de sinalizar para a experiência sensorial mais importante do livro, também cria uma ambiguidade interessante entre imperativo e presente neutro. A solução é acertada, visto que, na já mencionada última cena do livro, há o embate filosófico entre livre arbítrio (expresso pelo verbo no presente neutro) e determinismo (atingido se o verbo for lido como imperativo).

O protagonista oscila entre ser o agente de suas escolhas ou o fruto de um destino pré-determinado, o que remete ao final da trajetória de seu avô. A barba é o item descritivo essencial aqui, já que é ela que liga, conforme cresce, a imagem do narrador (que começa o romance sem barba) com a de seu avô. O ritmo rotineiro de um enredo sem grandes sobressaltos se torna um trágico embate entre o sujeito e o coletivo nas duas histórias, visto que a cidade (que já sabemos ter sido a autora do suposto assassinato) também agride o herói. O enredo parte de um ritmo prosaico e cotidiano e mostra como ocorre a transmutação de uma ação comum em mítica. Além disso, o conflito simula um tópico da própria teoria da personagem, visto que a liberdade do herói é sempre medida pelos determinantes do autor, o que assegura uma espécie de nível metapoético, em um texto tão preocupado com a ausência deste tipo de reflexão (basta mencionar que, entre o irmão escritor e o professor de natação, o romance opta por acompanhar o segundo).

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O livro ainda tem grandes insights. É a presença de textos de secretárias eletrônicas, chamadas telefônicas e outros depoimentos em rodapés (clara influência de David Foster Wallace, que Galera traduziu), geralmente alheios à perspectiva que o herói tem das coisas e, por isso, legadas ao submundo do texto. Ademais, vê-se que o romance oscilou algum tempo entre duas alternativas que, para alguns, pareciam excludentes, a saber, o regionalismo e o urbanismo (ou cosmopolitismo). Ao lidar com um protagonista urbano que se muda para um ambiente mais ligado à natureza e que se sente cada vez mais próximo ao avô – Gaudério, representante do gaúcho típico, estrangeiro em terreno catarinense e sempre disposto a puxar a faca para manter seu ponto de vista – o livro sinaliza para a mescla das duas vertentes, assim como para a superação sem traumas da necessidade de uma escolha entre elas. Galera herda a narrativa urbana, mas sabe da imensidão dos temas e dos contornos maleáveis da mimese. É Jasmim a personagem que mimetiza esta preocupação do autor ao ir a Garopaba com o intuito de descobrir se, em algum lugar periférico, os distúrbios psíquicos diferem dos da capital. Ao se referir à divisão centro e periferia, mencionando sua pesquisa de pós-graduação, a personagem sustenta que “o tipo de problema dos pacientes é a mesma coisa que rola em Porto Alegre, em São Paulo, em Manaus, em qualquer lugar. O que existe de especial aqui é a sazonalidade dos distúrbios (...) De resto Garopaba é o mundo” (p. 263).

Entre o local e o mundo, Galera opta pelo segundo e, ao fazer isso, não permite que nenhuma de suas dimensões seja excluída a priori do terreno da ficção. O resultado da segurança do projeto é uma obra-prima, um provável clássico, um livro para guardar e reler quando a memória, como no problema do personagem principal, estiver esfumando suas características de nossa mente tão cheia de romances errados.


Andrei Ribas

Escritor e servidor público. Lançou O monstro (novela, All Print, 2007) e Animais loucos, suspeitos ou lascivos (contos, Multifoco, 2013). Nasceu em Santo Ângelo/RS e mora em Santa Rosa/RS.
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