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Cinema, literatura & outras artes

Andrei Ribas

Escritor e servidor público. Lançou O monstro (novela, All Print, 2007) e Animais loucos, suspeitos ou lascivos (contos, Multifoco, 2013). Nasceu em Santo Ângelo/RS e mora em Santa Rosa/RS

A (nem sempre compreendida) arte da violência

Em Pulp fiction é com a violência, seja como pano de fundo ou mesmo personagem principal, que Tarantino fez a sua arte, seu dito épico e guiou outras obras que vieram em seguida. Como cineasta influenciado, passou a fazer influência.


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Muito provavelmente após ler a chamada na página de capa você clicou nesta coluna esperando encontrar o que ainda não leu sobre a (para alguns) obra-capital de Tarantino, que neste ano completou 20 anos. Muito provavelmente isso não seja verdade e, se você decidir encarar as linhas seguintes, não vou mentir que as informações são as mesmas que, desde o lançamento do filme em 1994, vêm sendo reproduzidas a granel em revistas, jornais, sites, blogs etc. – afinal, o filme virou culto instantâneo e alavancou a carreira de seu diretor (assim como a de John Travolta, antes perdido no ostracismo hollywoodiano) – com a única diferença de ter algumas (singelas) impressões pessoais temperadas no texto. Feita a ode à franqueza, cabe mencionar que dentro dessas impressões será ponderado acerca do papel da violência como manifestação da arte na película e ainda brevemente verificar sua influência em outras produções que lhe seguiram.

Pulp fiction, que no Brasil teve o esdrúxulo subtítulo de “tempos de violência” – o que é mania recorrente e nunca abandonada pelos departamentos de marketing das distribuidoras a fim de, acreditam eles, repassar uma ideia exata do filme – é caracterizado, basicamente, pelo seu enredo não-linear. Não era novidade antes de sua concepção ao público, mas Tarantino deu uma visão toda própria a tal mecanismo: converteu o básico em uma estrutura que se desdobra em diversas histórias paralelas e, às vezes, tangenciais, que, ao final, deixam evidente o domínio que tem sobre a câmera e sobre a montagem, além da sempre presente e (quase) perfeita trilha sonora. Vejamos, por exemplo, o pulo temporal que Tarantino faz no meio do filme, quando vemos o pequeno Butch (Bruce Willis) recebendo a visita do Capitão Koons (Cristopher Walken), que conviveu com seu pai quando os dois foram prisioneiros de guerra. Toda essa cena, que conta uma história só com um longo monólogo de Koons, sem desviar do personagem, tem como objetivo demonstrar para nós a importância do relógio do pai de Butch. Isso acontece já no meio da entrecortada narrativa que o diretor nos impõe, mas, quando o flashback ocorre, nós o aceitamos naturalmente, sem estranheza ou sem nem por um momento deixar de entender o que está acontecendo. Hoje parece óbvio e pouco imaginativo (até copiado de Tarantino), mas nos transportemos para 1994. Ninguém antes havia montado um filme desse jeito, pelo menos não de maneira consistente e contando várias histórias ao mesmo tempo. Mas a montagem do filme é apenas um aspecto de atenção à arte a ser considerado.

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Cada linha narrativa é crivada de diálogos que funcionam como uma expansão do que vimos em Cães de aluguel, primeiro longa de Tarantino. Enquanto seu filme anterior tinha diálogos que ficavam circunscritos a um mesmo círculo de pessoas composto por gângsteres ou assaltantes de banco de origem caucasiana com o recurso de idas e vindas no roteiro já sendo utilizado, em Pulp fiction vemos uma profusão de personagens diferentes em dinâmica de dupla: o casal de assaltantes amador que abre e fecha o filme (Tim Roth e Amanda Plummer); a dupla de assassinos Vincent Vega (John Travolta) e Jules Winnfield (Samuel L. Jackson) em uma missão; o chefão do crime Marsellus Wallace (Ving Rhames) e o lutador de boxe no crepúsculo de sua carreira, Butch (Willis), deparando-se com os estupradores Zed (Peter Greene) e Maynard (Duane Whitaker); Vincent Vega e Mia Wallace (Uma Thurman) às voltas com uma overdose de heroína e com o fornecedor de droga Lance (Eric Stoltz) e sua esposa Jody (Rosanna Arquette) e Vincent, Jules, Jimmie (o próprio Tarantino) e o “resolve-tudo” Mr. Wolf (Harvey Keitel) lidando com uma desagradável situação envolvendo sangue e pedaços de cérebro espalhados em um carro. Cada diálogo é cuidadosamente talhado para funcionar com seu personagem e a respectiva interação com o outro personagem. Há de tudo um pouco e mais a incrível capacidade de Tarantino de inserir menções à cultura pop a todo momento – quem sabe até prevendo que se tornaria também ícone desta mesma cultura, como as reproduções ilustrando estas palavras demonstram. As frases sobre as pequenas diferenças entre Europa e Estados Unidos, sobre os “atos medievais” de Marsellus em cima de Zed por desforra, sobre a citação da Bíblia que Jules usa antes de matar e diversas outras tão vazias de conteúdo quanto repletas de ritmo ao ponto de terem se entranhado no conhecimento geral, na lista de qualquer cinéfilo e na cabeça (ainda que não gostem do filme, possivelmente pelo excesso de violência) de espectadores casuais.

No aspecto da violência, que como disse, não é rala, Tarantino utiliza homicídios, cabeças espatifadas, litros de sangue, coações morais, entre outras espécies mais ou menos físicas de violência, para esquadrinhar um mundo não tão subterrâneo, onde segredos e mentiras valem algo próximo do precioso grama da cocaína. O faz com bom humor (negro), tiradas e personagens que viriam a grudar no imaginário popular, revestindo, ainda, a sordidez com o verniz do trivial, e entregando uma retórica pretensamente erudita (mas, como dito, esvaziada) a párias ordinários e bastante semelhantes aos cidadãos acima de qualquer suspeita. A violência faz parte daquele (e do nosso) mundo e é configurada em personagem quando não se pode desviar dela no decorrer dos fatos. Quando estamos chegando a um bom tempo de reprodução do filme, praticamente ao deslinde, por exemplo, ao ver o boxeador que havia pago para perder a luta no carro em sua frente, parado esperando que passasse pela rua, Wallace fica estupefato (de fato, numa cidade grande como Los Angeles, qual é a chance disso ocorrer?) e Butch não vê outra alternativa se não atropelar o chefão que certamente quer sua cabeça numa bandeja pela desobediência. Depois disso, é mais lesão corporal (luta entre eles), cárcere privado e sodomia (nessa mesma ordem) e, mesmo sabendo todos que é muito crime violento junto, tudo faz parte da história e, pode-se dizer, é a ordem natural das coisas naquele universo que, confessamos, depois de entendê-lo passamos a gostar.

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Não podemos dizer que desde o começo não sabíamos do conteúdo a ser apresentado – e nem falo de indicação de faixa etária permitida, que nem era tão exigente naqueles anos como é hoje –, já que uma definição do porquê do título, fazendo referência às revistas publicadas a partir da década de 1900 com papel de baixa qualidade (a “polpa”) que continham histórias noir, de fantasia e ficção científica, e, no caso do filme, foi utilizada para descrever histórias de pouca importância ou absurdas em que imperam atos violentos (que acabam se tornando irrelevantes, comuns), é-nos apresentada assim que o longa inicia. E com a violência, seja como pano de fundo ou mesmo personagem principal, Tarantino fez a sua arte, seu dito épico e guiou outras obras que vieram em seguida. Como cineasta influenciado, passou a fazer influência.

Numa brevíssima análise, no que diz respeito aos cortes narrativos, pode ser citado Amnésia (2000), de Cristopher Nolan; quanto aos diálogos – em alguns casos, monólogos – sobre banalidades que vão da influência do sistema métrico europeu, nomes de sanduíches à maneira correta de se massagear os pés de uma mulher, tais maneirismos podem ser notados em filmes como Coisas para se fazer em Denver quando você está morto (1995), de Gary Fleder, ou Jogos, trapaças e dois canos fumegantes (1998), de Guy Ritchie. No aspecto da violência, ela está nos citados e continuou, cada vez mais resistente nos demais filmes que Tarantino fez (vide Kill Bill I e II – demonstração de todo o seu amor por Uma Thurmann – e Bastardos inglórios). Justamente por fazer arte com a ideia de violência, pegando motes repulsivos e dando a elas novos conceitos e pontos de vista favoráveis até de admiradores de filmes mais suaves, o reconhecimento ao diretor estadunidense continua até hoje, sendo Pulp fiction um divisor inclusive na indústria cinematográfica por ter desbancado nas bilheterias produções multimilionárias do mesmo ano. Atinente a seu propósito de fazer arte com a violência, quando acusado de serem seus filmes violentos demais Quentin respondeu que seus filmes têm violência demais porque são sobre violência. É como, segundo ele, reclamar que os filmes de Gene Kelly têm dança demais.

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Andrei Ribas

Escritor e servidor público. Lançou O monstro (novela, All Print, 2007) e Animais loucos, suspeitos ou lascivos (contos, Multifoco, 2013). Nasceu em Santo Ângelo/RS e mora em Santa Rosa/RS.
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