João Ricardo

Criador criativo de criações aleatórias

DIGITAL DETRITUS

Imagens aparentemente desfiguradas, que normalmente aparecem quando há alguma interferência nos satélites de comunicação. É quando pensamos “vai cair o sinal bem no final do filme?". A partir daí, a TV mostra imagens desconexas e sons estranhos avisando que pde acontecer algum problema técnico que, para alguns, as imagens foram “infectadas, degeneradas, violentadas”, ou o serviço de cabo está de brincadeira.


Eu sou culpado em qualificar este tipo de imagens fotográficas. Sou um adimirador, aficcionado por imagens que destoam do padrão estético comercial que não pode ter imperfeições e são editadas e re-editadas até que se chegue numa imagem supostamente “perfeita” aos olhos superficiais, os quais aprenderam a ver uma simples camada exterior que cobre uma máquina altamente complexa mas, ao mesmo tempo, viceral ao extremo. Por isso, eu adoro o corpo humano e acredito que deveria ser um cirurgião, enfim. Por anos eu venho acompanhando o trabalho do visionário filmmaker (na verdade eu não sei como rotulá-lo) Nam June Paik. Dizia ele que a video arte imitava a natureza, não em sua aparencia ou massa, mas na sua mais profunda essencia, na sua intima estrutura temporal. meerdo_03.jpg Começou manipulando os monitores velhos que tinha na sua estrutura eletrônica, mexendo em sua estrutura física, em seu âmago, deflorando o meio que escolheu para trabalhar, como um estuprador querendo sentir diferentes sensações das suas várias vítimas. Este trabalho seria para técnicos em eletrônica, mas ele inventou maneiras e depois alguns dispositivos para manipular, desajustar suas imagens através da experimentação em transistores e cabos e fios que ficam dentro dos monitores.

Adicionou outras facetas como imãs e coisas que ele pesquisava, que poderiam alterar a imagem que aparecia na tela. É como se ele manipulasse a alma de sua mídia, intervindo em sua função natural. O resultado foi o começo do “glitch” visual, que adimiro muito e pode ser visto de outras maneiras nas mais diferentes formas artisticas. Como a música de John Cage, que trabalhou com Nam June Paik em alguns projetos.

Imagens aparentemente desfiguradas, que normalmente aparecem quando há alguma interferência nos satélites de comunicação. É quando pensamos “vai cair o sinal bem no final do filme?!). A partir daí, a TV mostra imagens desconexas e sons estranhos avisando que pde acontecer algum problema técnico que, para alguns, as imagens foram “infectadas, degeneradas, violentadas”, ou o serviço de cabo está de brincadeira! meerdo_11.jpg O interessante é que estas imagens, por alguma razão, me atraem profundamente pois são fruto do acaso, da experimentação que vem da pesquisa extensiva de métodos de capturar o visual, tornando a aura plástica visual em resultados únicos, aparentemente sem explicação, aleatórios na sua intimidade. Lógico que algumas são manipuladas para criar o esfeito desejado e, quando isto é feito, parecem forçadas, um tanto diferentes das reais distorções aleatórias vindas por exemplo de uma falha de sinal, ou de uma lente quebrada ou de um problema interno do monitor, de uma falha do satélite.

Na minha concepção, quando eu conheci o trabalho de Nam June Paik Jun Paik eu fiquei aterrorizado, chocado com o processo. Ele mais parecia um técnico em eletrônica do que um “artista” visual. Seu estúdio era abarrotado de monitores desmontados e peças velhas por toda parte. Foi a partir deste período que eu comecei a enxergar o processo da produção artística como fonte essencial do resultado que se espera.

O então coletivo Tomato de Londres lançou um livro chamado “Process: A Tomato project”, antigo mas excelente para quem tem como base visual a técnica superficial que busca uma imagem sem erros e aperfeiçoada ao extremo que mais parecem com aquelas madames que vão ao salão de beleza quase diariamente “retocar” um suposto erro genético. Fazem tratamento até para terem unhas mais resistentes e do tamanho exato para que mostrem em festas regadas a gente fútil que tem dinheiro para comprar coisas que não precisam, para mostrá-las para pessoas que elas detestam mas suportam pois fazem parte da “socialite”, daqueles que a mídia dá atenção e são de alguma forma referência de alguma coisa sinistra e subliminarmente poderosa que afeta milhões..... meerdo_02.jpg Bom, tudo isso serve de introdução para o trabalho fotográfico publicado no site In the in-between. Um dos comentários que ele faz é que, normalmente, os fotógrafos esquecem que há um processo íntimo de autenticidade visual que, ao meu ver, é a impressão digital da foto, o que lhe caracteriza sua veracidade, única e sem precedentes ou decendentes. Utopicamente, uma obra que não pode ser reproduzida duas vezes exatamente do mesmo jeito pelo seu registro de autenticidade, assim como dizia Heráclito no seu (dis)curso: uma pessoa nunca entra num mesmo rio duas vezes.

Christopher Meerdo usa métodos que são dos primordios da fotografia. Um ato de pura experimentação binária, não mais do que uma imagem é. Leia a entrevista completa no blog e se pergunte, critique e mude seu processo de produção de conhecimento. Isso pode levá-los a transcender a visão e transformar seu olhar numa visão de raio-x.


João Ricardo

Criador criativo de criações aleatórias.
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