João Ricardo

Criador criativo de criações aleatórias

Artistas e tipografia

Alguns poucos artistas usam apropriadamente a arte tipográfica e conseguem resultados plásticos de qualidade inquestionável.


Artes Plásticas e Direção de Arte vivem em mundos separados por anos luz de distância. Mesmo assim, há momentos em que estes mundos interagem ,como se houvesse uma forma alienígena de interação cósmica que aproxima estes mundos caracterizados por tamanha diferença em essência e contexto.

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Lawrence Weiner-Crushed between cobblestones

Existem duas maneiras de usar tipografia em nas artes plásticas: como linguagem e como imagem. Artistas que usam tipografia como linguagem são comumente “rotulados” como conceituais, mesmo que a essência desta categoria tenha sido amplamente usada para quase todas as obras de arte contemporâneas, como o remédio genérico, que pode categorizar vários tipos de medicamentos de diferentes aplicações.

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Alguns poucos artistas usam apropriadamente a arte tipográfica com esmero e conseguem resultados plásticos de qualidade inquestionável, como por exemplo o trabalho do artista Joseph Kosuth, que se “apropriou” da letra chamada "Sabon". Seu uso ficou associado ao artista, como uma marca, um estilo pessoal que caracteriza as peças de cada artista com estilo próprio. Se você escrever num muro da cidade qualquer sentença com as letras do estilo "Sabon", vão rapidamente ligar sua “grafitagem” com o trabalho de Joseph Kosuth. Só tome cuidado com os direitos autorais!

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Joseph Kosuth-A labyrinth into which I can venture

Christopher Wool que usa a pintura tipográfica como linguagem e como imagem, consegue criar uma confusão de alto padrão plástico por utilizar grandes stencils de fontes sobrepostos onde o produto final mais parece uma pintura abstrata do que o simples uso de tipografia "nonsense". Wool usa uma liguagem direta que para muitos pode parecer ofensiva. Frases do tipo “If you don't like it, you can get the f**k off my house” escritas com letras em negrito e bem visíveis, tornando quase que obrigatório para as pessoas que estão visitando a galeria lerem. O Artista Ruscha trabalha também na mesma veia de Wool criando tensão entre como a tipografia é visualizada e qual seu significado.

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Christopher Wool

Finalmente, temos Damien Hirst que se difere plasticamente destes artistas acima citados no uso da tipografia como linguagem e como imagem. Hirst se situa em cima do muro entre o da tipografia como linguagem e como imagem com sua série de impressões intituladas “The Last Supper”. Este trabalho consiste em embalagens de remédios modificadas com o nome verdadeiro do remédio trocado por nomes de comidas comuns, que são usadas na rotina diária das pessoas. Os logos das indústrias farmacêuticas são alterados por criações do artista com seu próprio nome.

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Damien Hirst-The last supper

Este processo usa tipografia como linguagem gera um debate, até mesmo filosófico da relação entre o que as coisas são e como são chamadas. Hirst conseguiu unir linguagem e imagem num só trabalho e ainda levantou questões filosóficas que vão além da simples relação acima citada. O resultado desta interação criativa se alimenta da confusão que o visual causa nas pessoas, porque Hirst muda o contexto da linguagem, usando-a como imagem num campo totalmente diferente e mundano. O resultado é a estranheza e a confusão que causa nas pessoas. Lembrem de Rene Magritte pintando um cachimbo e dizendo que “Ceci n'est pas une pipe”.

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Rene Magritte-Ceci n'est pas une pipe

Hirst quebra o que as pessoas esperam de uma simples embalagem de medicamento. Mas também afirma que estes medicamento são alimentos para pessoas que dependem deles como as pessoas dependem de comida para sobreviverem. Aqui vemos um processo altamente conceitual por mexer com os neurônios das pessoas, gerando questões para aqueles que desejam entender a finalidade do que está a sua frente e, para aqueles que não gostam de pensar e querem tudo mastigado, gera desconforto. A arte é feita para fomentar questões, formar opiniões e tornar nós, meros seres humanos em pessoas que criticam o que vemos e Hirst conseguiu fazer isso e muito mais com uma simples embalagem de remédio.


João Ricardo

Criador criativo de criações aleatórias.
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