João Ricardo

Criador criativo de criações aleatórias

Deformações atrativas, divididas e recorrentes

A arte de Miles Johnston faz mais do que deformar, dividir, atrair e recorrer ao que está dentro de seus personagens: ela inspira este outro corpo que necessita de exposição para ser e para declarar quem e a quem pertence.


Analisando seus trabalhos colocados no seu site, na categoria autointitulada “Deform”, suas figuras são ao mesmo tempo angelicais e grotescas. O exterior da espaço ao bestial do interior de seus personagens que se transformam em criaturas horrendas mas sempre com uma parte de serenidade de onde as partes toscas e disfuncionais são geradas. A deformação sempre vem da perfeição da forma e nunca o inverso acontece.

Uma mulher na posição fetal, quase inocente, tem sua coluna vertebral deformada por um liquido que sai de sua cervical e preenche o espaço. Seu olhar revela um conhecimento do ato, ela sabe que tem alguém flertando consigo. Mesmo assim, outras formas deformam seu corpo infantil, saindo da sua espinha dorsal que agora se transformou num emaranhado de um líquido negro desforme com um símbolo quase no centro do desenho que somente o artista sabe seu significado.

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Em outra seção de seus trabalhos chamada “Divide” encontramos retratos de mulheres em desconstrução. Em um de seus trabalhos desta série, seu personagem de corpo feminino é divido ao meio. Com suas mãos segurando sua própria figura que está prestes a ser dividida em duas partes iguais, seu interior revela um labirinto, também parecido com nossas mitocôndrias. Nossas indagações, preocupações, suposições, nossas idas sem vindas, nossos caminhos que muitas vezes não fazem sentido e não nos levam a lugar nenhum podem ser vistos dentro da personagem. A figura está nua, despida de quaisquer empecilho que possa interferir no olhar do espectador para o que realmente está acontecendo: a exposição dos labirintos que dispomos e criamos em nossas mentes que reverberam em nossos corpos de alguma maneira e são expostos de alguma forma.

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Já na parte com o nome de “Attract”, suas criações, seus personagens parecem ser sugados para dentro do próprio desenho. Assim como nossos corpos são atraídos para dentro de nós mesmos ou para dentro de algum ambiente qualquer. Em algum momento permanecemos dentro de nós para nos avaliarmos, para nos olharmos de frente, para deixar o mundo exterior e nos sugarmos para outro mundo, nosso próprio mundo, tão difícil de ser encontrado, de ser sentido, de ser finalmente entendido.

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Na seção “Recur”, Miles Johnston nos mostra, recorrentemente, nosso perfil narcisista, a parte que para muitos é a mais interessante. Em uma de minhas jornadas de leitura aleatórias eu me deparei com um conceito ultra moderno ou pós-moderno, aqui não interessa a classificação de gênero, de que todos estão muito preocupados consigo mesmo e não tem tempo suficiente para se preocuparem com os outros. Então, não somos tão especiais assim para os outros, a não ser para nós mesmos. Ninguém está me olhando dentro do ônibus, no trem ou na rua por que todos estão preocupados com eles mesmos e eu diria que, ultimamente, estão muito mais preocupados com seus celulares do que com as outras pessoas que estão ao seu redor. LT8cKHQ.jpg

Seus desenhos são altamente técnicos e muito interessantes pois passam uma mensagem, mesmo que de difícil compreensão. Eu diria que sua técnica é um tanto obsessiva devido a qualidade dos detalhes mas de rápida absorção visual. Miles Johnston é britânico e teve seus trabalhos expostos em algumas galerias pela Inglaterra e Estados Unidos. O que não falta em sua arte é este deslumbramento primeiro com a sua técnica depois com os conceitos que vão aparecendo a medida que o espectador da espaço ao impossível.


João Ricardo

Criador criativo de criações aleatórias.
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