João Ricardo

Criador criativo de criações aleatórias

realismo surreal

O ser humano sempre é ou parece ímpar, inconveniente, outro ao ambiente. Está quase sempre a procura ou fugindo de algo, destituído de sentido, inserido no surreal, desprovido de um lugar seguro que condiz com sua natureza.


Com o seu olhar imerso na sociedade, nas paisagens e seus personagens, o artista representa uma realidade com traços surreais, seguindo os parâmetros técnicos do realismo tradicional, ele consegue incluir em seus trabalhos uma realidade outra, dando uma sensação surreal e modernista a suas pinturas, retratando cenas comuns da realidade mas ao mesmo tempo consegue dar espaço para uma reflexão subversiva sobre a sociedade em que se encontra, sem deixar de mostrar sua beleza inerente e quase não aparente que se esvai na tensão diária da rotina moderna.

A pintura de Bo Bartlett celebra de uma maneira insípida (paleta de cores escolhida pelo pintor) e ultra real a natureza épica dos lugares comuns, das cenas da rotina ordinária de seus personagens que vivem na sociedade de algum lugar que é estranho ao primeiro olhar mas recorrente depois de um olhar mais imersivo. Seus motivos, suas ideias, suas cenas remetem também ao extraordinário mundo do comum, do cotidiano e rotineiro, daquilo que sempre esteve e está a nossa frente mas não conseguimos realmente observar, ver, perceber porque estamos muito mais preocupados e imersos em um mundo reproduzido pelas telas de vários tamanhos, de natureza tecnológica e midiática.

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Em uma de suas criações, o artista retrata crianças brincando no dia das bruxas numa rua deserta a luz do dia. Esse motivo, essa representação da realidade e de seus personagens em lugares como o deserto ou no meio do oceano, ilhados em um lugar distante mas ao mesmo tempo tão perto que não conseguimos perceber onde estão é um tema recorrente e uma assinatura em seus trabalhos. Muitas vezes o artista recorre a cinematográfica em oposição ao surreal. Uma casa queima enquanto os personagens se preparam para uma tomada fotográfica ou cinematográfica. Por esta razão que seu trabalho é rico em metáforas e desperta a curiosidade do espectador num olhar mais profundo e perceptivo que o leva a indagar inúmeras questões inclusive sua própria realidade.

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Modelos de beleza midiático num barco rústico rumo ao infinito oceano desconhecido. Estão indo para onde e vindo de onde? Estão fugindo ou simplesmente viajando? Por que estão sob uma onda gigante e porque estão em alto mar desprovidos de qualquer segurança? Por que o artista resolveu usar modelos padronizados de beleza para retratar a cena e não simplesmente pessoas retiradas do cotidiano ordinário? Qual sua intenção em colocar seus personagens muitas vezes no deserto, em alto mar ou em lugares isolados, desconectando o ambiente de seus personagens, do lugar onde deveriam estar inseridos? Perguntas ficam sem resposta ou elas se respondem por si só. Referências aos trabalhos dos realistas acadêmicos tradicionais como Edward Hopper são visíveis e à natureza pintada por Salvador Dalí são recorrentes e explicitas, intencionais.

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Bo Bartlett cria um mundo desconexo, onde elementos são desconectados de sua realidade ampla pelo simples jogo de frente e fundo. O ser humano sempre é ou parece ímpar e está quase sempre a procura ou fugindo de algo sem parecer que esteja, destituído de um ambiente familiar ao que está fazendo. Essa aparente destituição de significado, desfiguração da cena em geral eleva e atrai o espectador a um olhar mais profundo para seus trabalhos que hipnotiza e subverte a realidade mesmo se apropriando da mesma para representar aquilo que o artista deseja. A natureza e o humano passam a ser estranhos, desconexos, em um mesmo mundo, agora outro, recriado, distorcido, criando um realismo surreal.


João Ricardo

Criador criativo de criações aleatórias.
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