João Ricardo

Criador criativo de criações aleatórias

a orelha de stelarc

Stelarc transcende a ideia da arte exposta em algum local, fechado ou aberto e se transforma na própria arte.


Depois das Grandes Guerras, o homem passou a enxergar a morte e o corpo de outras formas, corpos mutilados e desfragmentados passaram a ser retratados em gravuras, pinturas e fotografias. O conceito de ‘belo’ passou a ser questionado e os artistas passaram a se concentrar no contexto social em que viviam. Parques floridos com famílias passeando com seus animais de estimação, crianças brincando nas ruas sem preocupação, este tipo de paisagem que recorria nas obras da maioria dos artistas foi substituída pelo caos, pelas doenças, pela destruição que as grandes guerras deixaram para trás. O mundo agora era outro, aliem.

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Nesse contexto mundial deturpado pela obsessão caótica, psicótica de algumas pessoas a quem foi dado algum tipo de poder para decidir quem morre e quem vive, o que serve e o que não serve, alguns artistas foram influenciados por essa baderna social causada pelas intensas lutas infundadas que transformaram a humanidade e dividiu a história.

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A medicina teve um importante papel nesse contexto, principalmente na área de transplante de órgãos. Um corpo passa a ser parte de outro corpo o qual não pode ser referido como original, de alguma forma este perde sua natureza e passa a ser um híbrido. O trabalho de Stelarc parte do princípio do corpo como tela ou como matéria prima onde não há separação entre ideia e o corpo que a concebeu. A ideia de colocar uma orelha dentro do ante braço não é pintada ou desenhada, ela é realizada ou seja o corpo serve de recipiente para a ideia tomar forma, neste caso o corpo do próprio artista. Seu trabalho vai além da estética ou da pura técnica em algum campo. Suas ‘obras’ propõe a mutação genética e tem como base a possibilidade de superação do próprio corpo através da conversa entre homem, medicina e tecnologia.

“Um artista de verdade nunca dorme quando deparado com novas tecno-logias mas ele as deforma e as transforma de alguma maneira.” Paul Virilio

Neste trabalho em particular, o implante passa a ser um órgão estranho a natureza do corpo. Esse perde sua essência natural humana mas não deixa de ser o que é, um corpo. Fazendo isso Stelarc cria um novo corpo, outro, não natural, transfigurado, revisto, biologicamente desforme mas ao mesmo tempo funcional, trans-humano. As funções dos órgãos são revistas e questionadas ao ponto de serem readaptadas em detrimento da ideia que não pode mais ser separada do corpo como acontece com uma pintura por exemplo. Seu trabalho não aconteceria sem a relação intrínseca com a tecnologia e do avanço da medicina.

ear stelarc.jpg Stelarc se baseia em conceitos do trans-humanismo que tem como característica principal aumentar, intensificar as habilidades físicas do corpo assim como a capacidade intelectual do ser humano através da junção, da adaptação de órgãos do próprio corpo no mesmo corpo com o auxílio da tecnologia e da medicina avançada. Nesse sentido Stelarc transcende a ideia da arte exposta em algum local, fechado ou aberto e se transforma na própria arte. O artista é seu próprio trabalho e sua arte vai onde ele estiver. Seu discurso se baseia no conceito de que o homem é capaz de expandir suas limitadas capacidades físicas e psicológicas através da transgressão caracterizada pela íntima conexão do corpo com as tecnologia e com as facilidades que a medicina tem a oferecer. Os primeiros pensadores trans-humanistas estudaram a fundo a possibilidade dos potenciais benefícios e eventuais perigos que poderiam ajudar a humanidade a superar muitas dificuldades e as limitações do corpo e assim superá-las através da genética, dos bebês projetados, das ovelhas clonadas e assim por diante. “Tudo evolui; não há realidades eternas tal como não há verdades absolutas.” Nietzsche

Atualmente muitos seres humanos necessitam desta transhumanidade para sobreviver. Talvez não com uma orelha no antebraço mas com uma máquina que ajuda o coração a bombear sangue para o resto do corpo. Membros amputados de cadáveres são reimplantados em pessoas que necessitam do mesmo por alguma razão, implantes dentários, cirurgias plásticas que transformam o corpo radicalmente, órgãos num refrigerador há espera de corpos para serem implantados, para se tornarem úteis, braços mecânicos, o humano se tornou híbrido e, com o avanço da tecnologia e a mente aberta das pessoas, poderemos um dia quem sabe sermos implantados com genes que nos deem asas e nos permitam voar, para bem longe.


João Ricardo

Criador criativo de criações aleatórias.
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