momentos suspensos

Sobre aqueles momentos que marcam e dilatam o tempo

Isabela Kayo

.

Até quando um livro é adaptável ao cinema?

On the road esteve muito tempo "em espera" para ser lançado nas telonas. Quando descobrimos que seu diretor finalmente seria Walter Salles, esperamos impacientemente para ver o resultado. Salles o fez com calma. Antes de começar o filme fez um documentário, conheceu todos que conheceram Kerouac (e seguem vivos), se dedicou a fazer um bom filme. E qual foi o resultado?


On the road é um livro de Jack Kerouac lançado em 1957, conhecido por lançar o movimento de colocar a mochila nas costas e sair sem rumo pedindo carona pelas estradas dos EUA. Kerouac escreveu o livro de uma vez só, o que alguns chamam de “fluxo de consciência”, misturando um pouco de suas experiências com ficção.

Francis Ford Coppola comprou os direitos autorais de On the road em 1979. Desde antes disso, o próprio Jack Kerouac já queria que o livro virasse filme. Enviou uma carta a Marlon Brando pedindo para ele fazer o papel de Dean Moriarty, enquanto ele faria o papel de Sal Paradise. Marlon Brando nunca respondeu Kerouac.

Depois que Coppola comprou os direitos do livro, iniciou e largou o projeto várias vezes. Vários roteiristas, diretores e atores foram ameaçados de fazer parte do projeto, e por algum motivo de força maior (como por exemplo o reconhecimento de que era um livro de difícil adaptação), foram deixados de lado.

E eis que o projeto terminou nas mãos do brasileiro Walter Salles, diretor de Central do Brasil, Diários de Motocicleta e Abril Despedaçado.

Logo da estreia do filme, os rumores são os mesmos de sempre, quando se adapta um livro: “não chega nem aos pés do livro!” ou “o livro é bem melhor!” e todos esses comentários rancorosos de decepção dos espectadores. E quem nunca teve esse sentimento?

on-the-road06.jpg

Ao mesmo tempo que é compreensível, é bem injusto também. São mídias distintas. Maneiras totalmente diferentes de contar a mesma história. De um lado, temos o poder de diálogos e descrições que podem durar dez, cem páginas. De outro, temos uma grande pressão para contar uma história através de imagens em duas horinhas e olha lá.

O filme beira a superfície da história. Fica pairando sobre as questões onde o livro entra de cabeça, e te leva junto. Me faz pensar que On the road nasceu para ser livro. Para ser de Jack Kerouac e de ninguém mais. Talvez se ele tivesse mesmo feito Sal Paradise e Marlon Brando, Dean Moriarty alguma coisa tivesse resultado. Mas não aparenta um livro feito para uma adaptação cinematográfica.

Talvez por isso Coppola hesitou tanto antes de finalmente realizá-lo. O resultado foi que os fãs de Kerouac se decepcionaram e os não leitores ficaram perdidos ou entediados. Tenho lido por todas as partes que o filme foi uma decepção, e talvez tenha sido, mas há de considerar-se que On the road não é um livro qualquer, que se pode adaptar facilmente. Carrega por dentro mais essência que as próprias palavras tentam descrever. É um livro com alma, e almas não são adaptáveis ou transferíveis.


version 1/s/// @destaque, @obvious //Isabela Kayo