Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

Depilação íntima completa ou parcial? O escritor Henry Miller responde

Depilação íntima completa ou parcial? Em Trópico de Câncer, o escritor Henry Miller dá sua opinião. O livro lançado em 1934 eletrizou a vanguarda europeia e foi proibido em todos os países de língua inglesa.


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Quando a atriz Nanda Costa posou para a revista Playboy um burburinho muito grande surgiu por conta da, digamos, exuberância dos seus pelos pubianos.

Durante semanas as pessoas debateram nas redes sociais a quantidade de pentelhos da moça como se esse assunto fosse o mais importante do universo. Fizeram enquetes para descobrir do que realmente os homens gostavam: uns saíram em defesa da “mata Atlântica”, outros se disseram adeptos da pequena moitinha. E a atriz Claudia Ohana, percussora do movimento “depilação zero”, foi relembrada por muitos.

Pois bem, não pude deixar de lembrar do debate “de suma importância” travado na Internet ao ler as linhas de Henry Miller em Trópico de câncer:

“Numa noite dessas, fiquei com ela por pena e o que a doida da puta tinha feito? Tinha raspado a buceta toda...não deixou um pentelho. Já viu mulher que faz isso? Dá nojo, não? E é engraçado também. Meio maluco. Não parece mais buceta, parece uma lesma morta ou algo assim. - depois contou que ficou curioso e saiu para pegar uma lanterna. - Mandei ela abrir a perna e iluminei bem. Você tinha de ver... foi cômico. Fiquei tão interessado naquilo que esqueci dela. Nunca olhei tanto uma buceta. Parecia que eu nunca tinha visto uma. E quanto mais olhava, menos interessante ficava. Isso só mostra que buceta não é nada, principalmente raspada. Os pentelhos é que fazem a buceta misteriosa. Por isso uma estátua deixa a gente frio. Só uma vez vi uma buceta de verdade numa estátua, era de Rodin. Um dia você precisa ver essa estátua de pernas abertas e acho que sem cabeça. Só uma buceta, pode-se dizer. Porra, impressionante. O fato é o seguinte: são todas iguais. Quando olhamos para elas de roupa, pensamos todo tipo de coisa: damos uma individualidade que elas não tem, claro. São só uma rachadura no meio das pernas e você fica todo excitado; em geral, nem chega a olhar para ela. Sabe que está lá e você só pensa em meter sua vara lá dentro; é como se o pênis pensasse por você. Ilusão! Você fica todo animado por nada... por causa de uma rachadura com ou sem pentelhos. É tão sem graça que fiquei fascinado de olhar. Devo ter estudado uns dez minutos ou mais. Quando se olha assim, meio imparcial, vêm umas ideias estranhas na cabeça. Todo aquele mistério sobre o sexo e aí você descobre que o sexo não é nada, só um vazio. Não seria engraçado se a gente achasse uma gaita lá dentro, ou um calendário"?

Cheguei ao Henry Miller pelas mãos de uma de suas amantes, a escritora Anaïs Nin. Mas se minha paixão pelo erotismo e prosa poética de Nin foi imediata, pelo erotismo e narrativa de Miller o mesmo não aconteceu - devo dizer que senti uma imensa preguiça.

Quem leu Paris é uma festa, de Ernest Hemingway, não há de se impressionar muito com as peripécias dos escritores americanos na cidade luz entre as décadas de 20 e 30. Paris é uma festa é muito mais rico em detalhes, poesia, ironia e personagens. E embora Miller seja consagrado como autor erótico, sua linguagem direta-e-reta não é capaz de me arrancar um suspiro sequer. O motivo? Talvez porque tenha para mim que o erotismo está na imaginação e não no explicito.

No entanto o livro não é de todo mal. Não podemos esquecer que trata-se de um livro importante dentro desse gênero literário; a primeira obra publicada de Henry Miller em 1934 ( imediatamente proibida em todos os países de língua inglesa), amplamente elogiada por escritores como T. S. Eliot, Ezra Pound e Lawrence Durrell.

Trópico de câncer, mistura de autobiografia e ficção, tem passagens interessantes, eloquência, diversão, muito sexo, boemia e uma certa dose de poesia, como no trecho:

“Nunca estive num concerto de barriga vazia. Nada me escapa, nem mesmo o menor alfinete caindo no chão. É como se eu não estivesse vestido, cada poro do meu corpo fosse uma janela, todas as janelas estivessem abertas e a luz inundasse minhas entranhas”.

Confesso que a leitura do livro me deixou um gosto entranho na boca. Me peguei matutanto se os homens ainda (ou sempre) encaram o sexo como os personagens de Henry Miller: como algo tão vazio. Ou será que se trata de uma minoria?

Sobre a quantidade de pentelhos mais atraente - assunto que originou esse texto - não opino. Sobre literatura erótica, digo que fico com Anaïs Nin. Falei dela, aqui

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(imagem: google)


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Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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