Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

Inveja do sucesso alheio: isso é feio

O sucesso corrompe o ser humano, mas o fracasso também. Se o sucesso desperta a arrogância, o fracasso desperta a inveja e a amargura. Em tempos onde a farinha é pouca e o nosso pirão nem sempre vem primeiro, o que resta é destilar veneno?


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Não sei o que corrompe mais o ser humano: o sucesso ou o fracasso.

Claro que tanto um quanto o outro são relativos e possuem significados particulares que variam de pessoa para pessoa. Para uns, ter sucesso é ter tempo; para outros, constituir família e/ou engordar a conta bancária. Há quem diga que o fracasso é apenas a sombra do medo de errar, que fracassado é aquele que não tenta.

No entanto, quando o assunto é o mercado de trabalho, essas palavrinhas não possuem tanta flexibilidade de significados assim. Tem sucesso quem conseguiu projeção (e respeito) dentro da área escolhida e ganha muito bem por isso. O contrário disso é fracasso.

Se o sucesso profissional torna algumas pessoas arrogantes e prepotentes, o fracasso tem o dom de torná-las invejosas, ressentidas e amargas.

Geralmente quem não está posicionado profissionalmente onde acredita que merece estar, tende a ridicularizar quem está onde gostaria de ter chegado. Sente uma ponta de raiva do colega que conseguiu algo que não conquistou.

A FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) se aproxima e tenho visto muitos colegas de escrita esbravejando nas redes sociais sobre a escolha dos escritores convidados, dizendo que são medíocres, que a festa literária está mais para Fashion Week do que qualquer outra coisa. Pergunta que não quer calar: se eles tivessem sido convidados será que recusariam? Será que diriam publicamente o que têm dito sobre a FLIP? Certamente, não.

Que há uma inversão de valores culturais em nossa sociedade, estamos carecas de saber. Lamentavelmente o entretenimento venceu a arte faz tempo: as peças de Maria Clara Machado, por exemplo, não lotam mais que as apresentações da Galinha Pintadinha.

Confesso que sinto um tremendo calafrio quando vejo profissionais da palavra - na lida há pelo menos vinte anos antes de mim - se prestando ao papel de destilar suas amarguras (para não dizer recalque) publicamente por não terem alcançado o tal sucesso profissional (leia-se: projeção e dinheiro).

Porque no mundo das artes - e, por consequência, da literatura – não existe recompensa ou promoção que possam ser alcançadas apenas com suor.

Um administrador pode fazer MBA, estudar fora do país, prestar concurso. Se transpirar 100%, as chances de chegar onde deseja são grandes. Basta ter foco, disciplina, concentração e, claro, sorte (que, como canja de galinha, não faz a mal a ninguém).

E um escritor? São muitos os que transpiraram para escrever livros incríveis que sequer chegam às prateleiras das livrarias, ou têm obras conhecidas apenas por meia dúzia de pessoas.

Se um escritor não atende à demanda comercial das editoras vigentes, lhe resta apenas uma saída: cair no gosto dos críticos - e nem isso é garantia.

O poeta paraibano (radicado no Maranhão) José Chagas, que morreu aos 89 anos no mês passado, deixou uma obra poética expressiva, porém desconhecida pelo que costumamos chamar de “grande público”. Apesar de ocupar uma cadeira na Academia Maranhense de Letras, nunca foi convidado à FLIP. No entanto, não tive notícias dele disparando maledicências ao seu contemporâneo maranhense Ferreira Gullar, por ter alcançado o tal "sucesso”.

Uma vez perguntei ao Lêdo Ivo - poeta alagoano da mesma geração que Chagas e Gullar, já falecido - o que ele fazia para se manter tão ativo e bem disposto aos oitenta e poucos anos. Ele me respondeu de pronto: “ não sinto inveja de ninguém”.

Pois bem, ontem um jovem de 19 anos me escreveu pedindo dicas para “entrar nesse meio literário”. Pensei, pensei, pensei e acabei respondendo o trivial: leia muito, frequente palestras e oficinas, aproxime-se de outros escritores, busque editoras pequenas que tenham o perfil do que você escreve e blábláblá. Mas acabei esquecendo o principal: não sinta inveja.

Oxalá meu Pai me ajude a não ser uma pessoa amarga e invejosa se, por alguma desventura, daqui a 20 anos eu não tiver chegado a esse misterioso lugar chamado “lá”, porque essa amargura pode até ser natural, mas é feia pra chuchu.

No mais, deixo dois poemas de José Chagas para apreciação.

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DUALISMO

Eu, que nunca termino o que começo,

vou, sem ter começado, ver meu fim,

e já me preparei para o regresso

de uma viagem que não fiz em mim.

Vivo um contraste humanamente expresso,

pois me fiz dois: um bom e outro ruim.

Sendo irmão de mim mesmo, a mim confesso

que, se nasci Abel, cresci Caim.

De antigas eras trago esse conflito,

e ora amaldiçoado, ora bendito,

não encontro equilíbrio em meu redor.

Mas, se não tendo início é que me acabo,

lanço tudo o que sou a Deus e ao Diabo,

e eles que façam como achar melhor.

DO LIVRO ÁGUAS DO SILÊNCIO

XIV

Falar de amor talvez não adiante,

que mais faz pelo amor quem silencia,

quem sabe o que no amor a todo instante

se esconde numa dor, numa alegria,

mas guarda esse segredo, confiante

de que o sonhar do amor no amor se cria

e assim quem cala o seu amor garante

no silêncio do amor a fantasia

que dá sustento às ilusões, durante

o tempo todo em que no amor confia,

e confiando goza a delirante

força de amar no amor sua agonia,

feito um magoado e solitário amante

que se assim não amasse morreria.

Outros poemas, aqui

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(imagens: google)


Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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