Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

O que te cura de ti mesmo?

Você tem sede de quê? Você tem fome de quê? O que mantém sua sanidade quando o tempo fecha, as janelas emperram e as pálpebras pesam?


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Não tem jeito! Só valorizamos certas coisas quando as perdemos. Diante do coreto abandonado, observando os transeuntes na praça da cidade em que nasci, me pergunto onde foi parar a arte daqui? Museu? Não tem. Sala de cinema com exibição de filmes europeus? Não tem. Teatros alternativos? Não tem. Salas de concertos? Não tem. Programação gratuita de shows e eventos literários? Não tem. Livrarias (fora dos shoppings) com cafés acolhedores? Não tem. E estamos falando de Campinas, terra do maestro Carlos Gomes, uma cidade com mais de 1 milhão de habitantes, que abriga duas das maiores universidades do Brasil, a UNICAMP e a PUCCAMP, além de ser uma das maiores economias do país.

Nos arredores dos campus universitários vez ou outra acontecem saraus, pequenos shows e apresentações de peças. Porém é preciso conhecer quem conhece “o esquema” para participar. No caderno de cultura do maior jornal da cidade, o Correio Popular, consta apenas: notícias sobre TV, coluna social, horóscopo, crônicas, roteiro de filmes blockbusters em cartaz e programação de bares. Após duas semanas na minha terra, me dou conta de que não sou apenas amante da arte e da cultura: sou adicta. Irritação. Ansiedade. Sono conturbado. Ideias obsessivas e negativas. Impaciência. Angústia. Dor de cabeça. A ausência completa e absoluta da arte, do acesso à cultura, quase me leva a nocaute. Um desconforto no peito, um tédio imenso, uma desidratação constante, uma falta de rumo ou sentido; uma insatisfação desmedida e sem foco. Uma quase depressão. No batidão do dia a dia no Rio de Janeiro, entrando e saindo do CCBB, do Theatro Municipal, do Circo Voador, do Cine Jóia como quem vai à padaria, nunca tinha parado para pensar no que essas escolhas significavam de fato para mim. A rotina me roubou a importância das coisas. Mas aqui, olhando o coreto vazio, repleto de folhas mortas, coreto que outrora deve ter recebido muitas bandinhas e embalado domingos e beijos de muitos casais, compreendo o que a arte faz por mim: ela me hidrata. A arte me hidrata e mantém minimamente minha sanidade. Quando o mundo vira ao avesso ou fica cinza demais; quando o tempo fecha e as janelas da alma emperram; quando me tranco em pensamentos egoístas e me aprisiono em verdades insanamente absolutas, é para lá, para a arte, que eu corro para me curar. Porque, entre outras coisas, a arte me faz duvidar - de mim, da vida, do que vejo e do que ainda nem conheço. E somente quando duvido exerço plenamente minha existência. Diante da realidade cultural dessa pequena grande cidade eu pergunto: para onde deve marchar, José, quem vive em Campinas e tem sede, porém não tem fonte para bebericar? Para onde?

E você, que lê esse texto, sabe como (e onde) se curar de si mesmo e das verdades inúteis que carrega na cachola?

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(imagem: google)


Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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