Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

O que os homens falam

Somos todos parecidos quando sentimos dor. Quando temos nossos ossos moídos pelos dentes afiados dos desencontros amorosos. Homens e mulheres. Todos parecidos. A diferença está na maneira como reagimos. É o que mostra a inteligente e divertida comédia espanhola O que os homens falam.


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Homens são de Marte e mulheres são de Vênus, certo? Errado. Somos todos do planeta Terra. E somos todos irremediavelmente parecidos, quando sentimos dor. O que dói lá dói cá. A maneira de reagir à dor é que nos diferencia.

O filme espanhol O que os homens falam tinha tudo para cair na vala do senso comum, apresentando “novos machos” às voltas com a tal emancipação feminina, mas, ao contrário disso, o diretor Cesc Gay privilegia a descomplicação (genuinamente) masculina num roteiro inteligente e ausente de clichês.

Sem fazer drama, com frases diretas e extrema franqueza, os oito personagens contam aos seus interlocutores como se tornaram o que são. E por mais que estejam na mais profunda merda, eles conseguem rir de si e ostentam uma dignidade que só os homens parecem conseguir manter num momento de dor.

Los chicos, ao que tudo indica, não sentem vergonha (ou se culpam) por seus fracassos emocionais. Não os do filme. Eles aceitam o problema e... esperam a maré mudar.

Não se descabelam, não buscam respostas, não escrevem cartas que não enviam, não recorrem a cartomantes, e, principalmente, não acreditam que suas vidas estão arruinadas somente porque o trem do amor saiu dos trilhos.

Na maioria das vezes silenciam. Noutras enchem a cara no bar mais próximo e... esperam passar...

No filme do catalão Cesc Gay, homens entre 40 e 50 anos se encontram – muitas vezes por acaso e em situações inusitadas – e, meio sem jeito, meio como quem não quer ou não sabe como o fazer, falam sobre suas mazelas sentimentais.

Trata-se de histórias isoladas, que não se cruzam no decorrer da trama, mas convergem para uma mesma cena final. Como se fosse uma sequência de contos com o mesmo fio condutor: histórias de amor mal sucedidas entre quarentões.

O recém-casado e pai de primeira viagem em busca de aventuras sexuais no escritório; o divorciado que deseja voltar para a ex-mulher; o desempregado que é abandonado pela esposa; o marido que descobre o caso da esposa (melhor, mais inusitada e divertida sequência do filme); o impotente; o ciumento; além, claro, de algumas fêmeas tripudiando sobre eles.

O que os homens falam – no título original, Una pistola en cada mano – confirma os versos atribuídos a Carlos Drummond de Andrade: “a dor é inevitável, o sofrimento, opcional”.

O desconforto é visível nos olhos de cada personagem – destaque para a sensível atuação dos atores. Eles tiveram os ossos moídos pelo desencontro amoroso, mas nem por isso se jogam ao abismo do sofrimento sem fim.

Com boas pitadas de ironia, texto refinado, bom ritmo, pouquíssimas ações e foco nos diálogos (sempre afiados), a comédia espanhola garante boas risadas e mostra que os homens, aparentemente, continuam sendo (e sentindo) as coisas como sempre, como antes de surgirem os “novos machos”. A diferença, agora – talvez – é que eles verbalizam mais.

Confesso que saí do cinema com uma pitada de inveja dos homens. Como deve ser bom entrar num bar, pedir uma cerveja e... esperar passar... Sem pensar, sem penar, sem pesar... Só esperar, esperar passar...

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Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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