Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

Pelo direito do homem de broxar e da mulher de ter celulite

Em pleno século XXI artistas se mobilizam pelo direito dos homens de chorar e para ensinar às mulheres que elas são donas dos seus corpos. Naftalina pura.


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“Que lástima”! Essa foi a minha primeira reação quando vi os trabalhos de Carol Rossetti circulando pelas redes sociais.

Não pela questão estética - as Letícias, Luanas e Tatianas da ilustradora mineira são cools. Seu traçado é bastante contemporâneo e particular: acompanha a linguagem da Internet e apresenta uma mistura (que quase sempre funciona) do antigo com o novo - pegada vintage com ares de street art.

Lamentei pelo conteúdo: uma espécie de cartilha com verbetes que “ensinam” as mulheres que elas podem ter opinião e que são donas de seus narizes, corpos e escolhas.

Diante de suas ilustrações, pensei:“ Isso saiu da revista O Cruzeiro ou foi produzido em 2014”?

Nego-me a acreditar que em 2014 as mulheres ainda precisem de incentivos (ou ensinamentos) do tipo: ei, é natural ter celulite; ei, é natural não querer ter filhos; ei, é natural fazer tatuagem; ei, é natural gostar de outra mulher; ei, é natural namorar uma pessoa negra.

Mas depois, com um pouco de boa vontade, acabei chegando à conclusão que os verbetes ilustrados da artista podem servir para adolescentes em formação. Será?

Enquanto Carol Rossetti tenta incentivar (ou ensinar) as mulheres a serem donas dos seus narizes, corpos e escolhas, um grupo de rapazes se reuniu para um manifesto pelos direitos dos homens de não serem machões, intitulado “Homens, libertem-se”.

Artistas como Paulinho Moska, Laerte, Miguel Paiva, Lucio Mauro Filho, Marcos Breda e Nelson Motta já aderiram ao movimento que, entre outras coisas, pede o fim da obrigatoriedade do serviço militar, o direito de poder broxar, chorar e sentir medo, etc. Leia ao manifesto completo, aqui.

Lamentei pelo manifesto da mesma forma que lamentei pelos verbetes de Rossetti. Quer dizer que um homem, em 2014, precisa fazer um manifesto pelo direito de chorar?

Sei, não, mas ando com a estranha sensação de que o tempo passa mas não avança e que, no fundo, “ ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais” como cantava a saudosa Elis.

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(imagens: google)


Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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