Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

Penso, logo complico

Palomar pensa em demasia. Nós pensamos em demasia. Logo, somos todos Palomares. Eis a brincadeira que Ítalo Calvino nos convida a jogar em seu último livro publicado em vida, Palomar. Leitura inteligente, bem humorada e indispensável para os amantes de filosofia.


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Palomar pensa que não está pensando quando pensa. Ou, pensa que pensa em demasia para deixar de pensar. Nem sempre busca a lógica, mas o ilógico dentro da lógica, o que parece escapar.

Palomar pensa em demasia. Nós pensamos em demasia. Logo, somos todos Palomares.

Eis a brincadeira que Ítalo Calvino nos convida a jogar em seu último livro publicado em vida, Palomar (Companhia das Letras, tradução de Ivo barroso).

Enquanto avançava nas 112 páginas do livro, imaginava a figura de senhor Palomar como uma mistura de Mr. Bean e Monk.

“Numa viagem a um país do Oriente, o senhor Palomar comprou um par de pantufas num bazar. De volta a casa, tenta calçá-las: dá-se conta de que uma delas é maior que a outra e lhe escorrega do pé (...) ‘Talvez agora’, pense o senhor Palomar, ‘um outro homem esteja caminhando em algum país com duas pantufas desparelhadas.’ E vê uma débil sombra claudicante percorrendo o deserto, com um calçado que lhe escapole do pé a cada passo, ou talvez mais apertado, que lhe aprisiona o pé torcido. ‘Talvez também ele neste momento pense em mim, espere encontrar-me para fazer a troca. O vínculo que nos une é mais concreto e claro do que a maior parte das relações que se estabelecem entre os seres humanos. Contudo, jamais nos encontraremos.’ Decide continuar a usar essas pantufas desparelhadas em solidariedade com seu companheiro de desventura ignoto, para manter viva essa complementaridade tão rara, esse espelhamento de passos claudicantes de um continente a outro.”

Filosofia em prosa, assim classificaria, como uma boa senhora Palomar que também sou, o livro de Calvino.

Uma grande sátira às bíblias sagradas de Aristóteles, Descartes, Heidegger, Lacan, Sartre, Foucault.

Enquanto o personagem pensa sobre o que está pensando, enquanto tenta observar o mundo com distanciamento e neutralidade - não por acaso Palomar é o nome de um famoso observatório astronômico que durante muito tempo ostentou o maior telescópio do mundo – o autor nos conduz a questões largamente discutidas pelos filósofos:

“Mas como é possível observar alguma coisa deixando à parte o eu? De quem são os olhos que olham? Em geral se pensa que o eu é algo que nos está saliente dos olhos como um balcão de uma janela e contempla o mundo que se estende em toda a sua vastidão diante dele. Logo: há uma janela que se debruça sobre o mundo. Do lado de lá está o mundo; mas e do lado de cá? Também o mundo: que outra coisa queríamos que fosse? Com um pequeno esforço de concentração, Palomar consegue deslocar o mundo dali de frente e colocá-lo debruçado no balcão. Então, fora da janela, que resta? Também lá está o mundo, que para tanto se duplicou em mundo que observa e mundo que é observado. E ele, também chamado ‘eu’, ou seja, o senhor Palomar? Não será também ele uma parte do mundo que está olhando a outra parte do mundo? Ou antes, dado que há um mundo do lado de cá e um mundo do lado de lá da janela, talvez o eu não seja mais que a própria janela através da qual o mundo contempla o mundo. Para contemplar-se a si mesmo o mundo tem necessidade dos olhos (e dos óculos) do senhor Palomar”.

Como um homem refinado, o protagonista de Calvino nos mostra que pensar (e/ou observar) a vida não é experimentá-la. E que em menor ou maior grau somos todos viciados e obsessivos por explicações, mas que elas, vejam só, servem apenas para aplacar (momentaneamente) nossas ansiedades frente ao desconhecido: nós mesmos.

Leitura inteligente. Leitura indispensável para os que dispensam a vida sem perceber tentando argumentá-la.

“Pensar de maneira correta não é um mérito: estatisticamente é quase inevitável que entre as muitas ideias estouvadas, confusas ou banais que nos vêm à mente alguma possa ser clara ou de fato genial; e assim como ocorreu a ele, pode ocorrer também a alguma outra pessoa.”

E, claro, leitura indispensável para os amantes de filosofia.

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(imagens: google)


Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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