Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

A mendiga que escrevia poesia

Uma mendiga escreve e fuma sob a marquise de uma loja. Eu escrevo e fumo em frente, confortavelmente sentada na cadeira de um Café. O que nos diferencia?


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Nunca tive medo de mendigos. Quando criança mamãe dizia que se eu fosse desobediente me levaria para “o homem do saco” - um velho barbudo, descalço e imundo que revirava as lixeiras das calçadas da minha infância.

Tinha medo da “Maria Louca”, um travesti de rua que quando bebia muito gritava e batia os tamancos no chão. Mas dos mendigos, não.

Desde pequena sentia curiosidade acerca da vida dessas pessoas. Quem eram? Loucos? Sábios? Fadas madrinhas que se disfarçavam de bruxas para vigiar o bom comportamento das crianças? O que carregavam em suas sacolas? Para quê precisavam daquelas sacolas encardidas? Por que tinham acabado daquele jeito?

Vovô sempre me dizia: “Um mendigo com sacola não é um homem livre, porque se preocupa em perder suas tralhas. É só um homem perdido como nós, agarrado a pequenas ninharias, como nós”. Mas naquela época eu não entendia bem o que ele queria dizer.

Há anos eu vejo a Dalit (nome que dei a uma mendiga cigana) pelas ruas de Copacabana. Fala sozinha. Faz muito barulho. Às vezes grita, pede cigarro.

Sabe-se lá porquê, encafifei com a ideia de que, quando ela aparece, trata-se de um sinal de má sorte. Como nunca tive TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), não me preocupei com o hábito de me benzer, que adquiri toda vez que a vejo. Afinal, prudência, canja de galinha e um sinal da cruz não fazem mal a ninguém.

Hoje, porém, não consegui benzer-me ao encontrá-la. Fiquei completamente paralisada com a cena que vi.

Sentada sob a marquise de uma loja, ao lado do Café Bistrô, onde costumo ler e escrever, ela estava... Escrevendo. Escrevendo e fumando. Escrevendo e fumando ao lado da mesa onde também eu escrevo e fumo.

O que escrevia? Será ela uma poeta extraordinária que o mundo infelizmente jamais conhecerá?

Senti vontade de pedir para ler o que ela escrevia.

Será que, como muitos escritores, não teve como pagar o aluguel e acabou indo morar na rua?

Será que enlouqueceu de amor e abandonou tudo o que tinha como Adele H, filha do poeta Victor Hugo?

E pior: eu, na condição de escritora, poderia um dia acabar como ela?

Quando a Dalit percebeu que estava sendo fotografada por mim, demonstrou incomodo - como todo artista -, juntou suas coisas e foi escrever em outro lugar.

Depois que ela partiu e me pus a rabiscar essas linhas, senti nas escápulas o peso da palavra “ironia”. O que me diferia da Dalit? O fato de eu escrever e fumar na cadeira confortável do Café Bistrô, bebendo um expresso, enquanto ela escreve e fuma sentada no chão?

Sei, não, mas desconfio (ou seria temo?) que o caderno dela pode conter mais literatura do que todos os livros russos que ainda não li; do que todos os versos anêmicos de amor e desamor que vez ou outra me ponho a escrever.

Ou que ela possa ser a versão feminina de Astrogildo, personagem de A lua de vem da Ásia, de Campos de Carvalho: alguém que mergulhou no absurdo de ser e por isso já não sabe como conviver (ou não vê motivos para isso).

Seja como for, a decisão está tomada: não vou mais me benzer quando encontrar a Dalit. Vou oferecer um cigarro a ela, tentar descobrir seu nome e, claro, o que escreve. Se eu descobrir, depois eu conto.

E por não ter acesso (ainda!) aos cadernos dela, finalizo com um trecho de A lua vem da Ásia:

“Há momentos em que me sinto mais lúcido, e há outros em que pelo contrário sinto uma presença estranha dentro de mim, como se devêssemos ser gêmeos e houvéssemos nascido dois num corpo só. Esse meu irmão sepulto em mim leva-me a cenas de verdadeiro ridículo, quando não de desespero, como aconteceu ainda há pouco, quando eu queria dormir e ele teimava em ensaiar um novo passo de balé, rodopiando pelo quarto inteiramente nu. Se há os que acreditam em metempsicose, eu tenho o direito de acreditar nessa dualidade do meu ser, ou antes, nessa existência oculta de meu irmão gêmeo dentro de mim e que um dia brotará de meu corpo como um dente de siso retardado. Muitos me julgarão excêntrico por isso, e eu sei que julgam, mas o fato é que sou apenas sincero e não costumo ocultar as perplexidades a que me submete minha natureza, como fazem as outras pessoas”.

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Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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