Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

Adeus também foi feito para se dizer

Descubra o que Carrie Bradshaw, protagonista do seriado Sex and the City, e Eugênio de Andrade, poeta português, têm em comum?


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Eugênio de Andrade e Carrie Bradshaw. Parafraseando a loira: uma mistura mais improvável que chocolate com pasta de amendoim, mas que pode funcionar.

Revisitando o seriado Sex and the City dia desses, me dei conta de que se houvesse um poema para cada personagem do cinema, “Adeus”, de Eugênio de Andrade, poderia ser o de Carrie Bradshaw.

Foram tantas as despedidas com Mr. Big, tantas mortes, que Bradshaw - se tivesse o talento do poeta português – poderia perfeitamente ter escrito o poema:

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,

e o que nos ficou não chega

para afastar o frio de quatro paredes.

Gastámos tudo menos o silêncio.

Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,

gastámos as mãos à força de as apertarmos,

gastámos o relógio e as pedras das esquinas

em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.

Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;

era como se todas as coisas fossem minhas:

quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.

E eu acreditava.

Acreditava,

porque ao teu lado

todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,

era no tempo em que o teu corpo era um aquário,

era no tempo em que os meus olhos

eram realmente peixes verdes.

Hoje são apenas os meus olhos.

É pouco, mas é verdade,

uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.

Quando agora digo: meu amor,

já se não passa absolutamente nada.

E no entanto, antes das palavras gastas,

tenho a certeza

que todas as coisas estremeciam

só de murmurar o teu nome

no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.

Dentro de ti

não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade, in “Poesia e Prosa”

Sei não, mas desconfio que se os roteiristas do seriado conhecessem esse poema teriam colocado alguns de seus versos na boca da moça numa de suas caminhadas pela agitada New York após um rompimento. Seria um charme, não?

Eis aqui minhas três cenas prediletas de despedida de Carrie Bradshaw e Mr. Big (as que mais me comovem): a dor maravilhosa, questão de fé, você nunca entendeu...

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Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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