Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

Tudo acontece em Nova York

Tudo acontece em Nova York: homenagem ou crítica aos artistas de classe média que são sustentados pela família?


filme.jpg

Tudo acontece em Nova York é o tipo de filme que nunca sabemos se é drama ou comédia. Apesar de apresentar sequências engraçadinhas e sarcásticas, é carregado de angústia.

Angústia da artista plástica Lilas (Lola Bessis – co-diretora) que tenta se livrar do peso e da sombra de uma mãe ausente - também artista plástica, porém renomada; de Leward (Dustin Guy Defa), um músico/compositor tímido, gaguejante e idealista que não consegue sustentar a família; e Mary (Brooke Bloom), a esposa de Leward que trabalha duro como enfermeira num hospital e sonha comprar uma casa e dar uma vida melhor para a filha.

Um roteirinho bem clichê, mas bem filmado, com uma ótima fotografia (aposta na luz natural), um figurino bonito e uma direção de arte coesa. Uma boa surpresa para um filme americano independente.

É clichê porque o argumento gira em torno de velhos paradigmas: o pai desempregado, mas super carinhoso e brincalhão com a filha, a esposa frustrada porque o marido não colabora com as finanças do lar , a pós-adolescente que foge de a casa (Paris) para tentar a vida em outro lugar (NY).

Para quem gosta de folk music, mais precisamente o new-folk, no estilo da banda The Lumineers, a trilha sonora é um prato cheio.

Chamou-me a atenção na sala do cinema alguns comentários sobre Mary, a esposa de Leward: “Que mulher chata” - sim, caro leitor, ir ao cinema no Rio de Janeiro pode ser um programa mais barulhento do que um safari num domingo de sol. Duvida? Assista a esse vídeo do canal de humor Pingo na Pia e entenderá...

Apesar de fazer parte da tribo de Leward, o artista, me solidarizei com Mary, a esposa. Conviver com artistas, ao contrário do que todos podem achar, é um saco. Em geral somos egoístas, idealistas e delirantes. Nossas necessidades (especialmente as artísticas) estão sempre em primeiro lugar - e se não for assim, não criamos. Quando estamos absorvidos por nossos trabalhos nada mais importa. É preciso um bocado de coragem para dividir a vida com um artista sem ser artista também.

Numa das sequências do filme, Mary espera o marido para visitar uma casa que está à venda. Ele havia combinado que iria. O que ele faz no dia? Entra num estúdio para gravar um CD, plano que estava adiando há anos. A chata era ela?

Questões profissionais à parte, Tudo acontece em Nova York mostra que sem atenção para com as necessidades do parceiro não há relacionamento possível. Que é preciso não carregar nas tintas da expectativa em relação ao outro e não ser egoísta ao ponto de não percebê-lo para a coisa funcionar.

Não fica claro se o diretor Ruben Amar está questionando os artistas de classe média que são sustentados por “mecenas” ( no caso de Lilas, a mãe, e de Leward, a esposa) ou prestando uma homenagem carinhosa.

O título é que não dá para entender, pois de reviravoltas, experiências excitantes e surreais o filme não tem nada.

MEU CANAL

Venha tomar um café comigo no canal do YouTube Dois Cafés e uma água com gás, onde falo sobre livros, comportamento, arte, cultura, moda e beleza.

tudo acontece em nova york cartaz.jpg


Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Mônica Montone