Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

A arte de cagar regra

Observar cronistas, colunistas, leitores e militantes, durante as eleições brasileiras, se degladiando na arena do Facebook para reafirmarem suas convicções ideológicas (e na maioria das vezes preconceituosa) me deixou intoxicada. Nenhum deles parecia preocupado em refletir ou propor reflexão, mas impor suas crenças com a foice da palavra.


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Depois dessas eleições no Brasil passei a sentir uma vergonha danada por escrever crônicas.

A cada nova crônica que lia de algum coleguinha de profissão – fosse em grandes veículos, como a Folha de São Paulo, O Globo, ou blogs e Facebook – pensava: “eis a arte de cagar regra”.

Foi tanta cagação de regra durante a campanha eleitoral que preferi me abster de escrever. Sobre esse tema ou sobre qualquer outro. Porque uma regrinha de ouro da psicanálise ficou muito clara para mim: as pessoas só ouvem o que elas querem ouvir – em geral, o que lhes é conveniente.

Então, para quê escrever? Sobre esse ou aquele tema?

Coloquei-me confortavelmente na condição de espectadora do que foi o show de horrores dos “cronistas/colunistas sabem tudo” nos últimos meses e me senti profundamente envergonhada de minha profissão (ou seria condição?) de escritora.

Só uma pessoa muito vaidosa e que acha que sabe muito das coisas se dá ao trabalho de escrever sobre um tema como se seus pensamentos e avaliações pudessem acrescentar alguma coisa a alguém.

Não acrescentam. Buscamos apenas as leituras que fazem eco ao que já pensamos e acreditamos. Leituras que confirmem nossas convicções. Leituras que provoquem identificação imediata.

Se um autor destoa das nossas crenças, o deixamos de lado.

O que alguns colunistas/cronistas atuais talvez não tenham percebido, ainda, é que não existe formador de opinião e sim confirmador de opinião.

Ou seja, o Zé que compartilha nas redes sociais o texto do João não teve sua opinião formada por João. Zé apenas ratificou sua opinião pessoal ao compartilhar. Se identificou. Simples assim.

Mas João, vaidoso (e narciso), ficou imensamente feliz ao saber que existe um lago repleto de pessoas que pensam como ele, um lago onde ele pode se ver refletido com segurança.

Observar cronistas, colunistas, leitores e militantes se degladiando na arena do Facebook para reafirmarem suas convicções ideológicas (na maioria das vezes preconceituosa) me deixou intoxicada. Nenhum deles parecia preocupado em propor uma reflexão, mas impor suas crenças com a foice da palavra.

Me intoxicou e me fez lembrar do livro do psicanalista francês J. D. Nasio, Por que repetimos os mesmos erros, onde ele diz que a repetição de um padrão de comportamento é fruto de uma necessidade inconsciente de preservação do eu. Sobre o livro, escrevi aqui.

Passei a achar alguns coleguinhas de profissão – especialmente os da minha geração – tão vulgares (em suas necessidades de serem aceitos e aplaudidos; em suas cagações de regra) que por puro instinto de preservação parei de escrever. Eu não queria fazer parte daquela trupe. Não queria me ver refletida naquele espelho de verdades absolutas que eles se tornaram.

Quando assunto é crônica ou colunas para jornais, prefiro estudar na escola de Paulo Mendes Campos. É por conta de escritores como ele que não perco por completo a fé em meu ofício.

Prefiro acreditar que um cronista é apenas um poeta de ressaca. Um poeta do dia. Um poeta que pula da cama, vai comprar os jornais sem escovar os dentes e quase não acredita – ou não entende – no que lê ou vê à luz do sol.

Eu, às vezes, não sou nem poeta nem cronista. Sou apenas uma alma de ressaca que acha graça na multidão ou numa garça bukowiskiana cheia de estilo num lago.

Quem sabe agora eu volte a escrever com a mesma alegria de antes, passada a intoxicação, a vergonha alheia e o medo de me ver refletida num espelho que não me agrada ou me representa.

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(imagem: google)


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Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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