Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

Ensaios de amor

Ensaios de Amor, do escritor suíço Alain de Botton, não é apenas um livro sobre uma história de amor: é sobre o amor. Uma análise que mescla de maneira inusitada, espirituosa (e por vezes divertida) filosofia, história, antropologia, ciência política, linguística, mitologia, psicanálise e literatura.


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Costumo dizer que não somos nós que escolhemos nossas leituras, mas os livros que nos escolhem.

Que outra explicação poderia existir para o fato de um livro adormecer na cabeceira de nossa cama durante anos, sem chamar a nossa atenção e, de repente, um belo dia, começarmos a lê-lo? A psicanálise diria que foi uma escolha do inconsciente, mas eu prefiro acreditar no que chamo de “magia dos livros”.

Como escolher o próximo livro da lista com tantas opções ao nosso alcance, tantas resenhas, tantas indicações de amigos e tantos clássicos atrasados para serem lidos? Deixando que eles nos escolham! Pelo título, pela capa, pela quarta-capa, pela resenha, pela orelha, pela lembrança de uma entrevista com o autor... Por intuição.

Há alguns anos assisti a uma entrevista do escritor e filósofo suíço Alain de Botton num programa de TV, o Globo News Literatura. A entrevista era sobre a criação de uma School Life no Brasil, um espaço cultural, criado originalmente em Londres, com palestras e dinâmicas de grupo sobre temas como amor, morte, dinheiro, separação, felicidade, beleza, tempo, etc. Um espaço onde, supostamente, a filosofia está a serviço dos dramas do nosso cotidiano. Algo parecido com o que a Casa do Saber e os Cafés Filosóficos da CPFL Cultural promovem, só que num único espaço. Saiba mais

Apesar de ter achado o autor simpático, inteligente, lúcido – e ousado em sua iniciativa – não fui atrás dos seus livros. Todavia, os livros que devemos ler chegam a nós. Não há como fugir. E chegou às minhas mãos o seu primeiro romance, Ensaios de Amor (Editora Rocco), escrito aos 23 anos.

Botton não podia ter escolhido título melhor, pois, trata-se, mesmo, de um livro de ensaios, só que disfarçado de romance, e com uma linguagem acessível a todos.

O ensaio em sua acepção original, não se confunde com um artigo de jornal ou um paper científico. Corresponde, antes, àquela hesitação permanente que leva o comentário sobre algum assunto – uma questão social, política, psicológica; uma vida, um livro, enfim, uma paixão que convoca a escrita – a descobrir as falências da objetividade, condenado à deriva, à reflexão como uma finalidade em si mesma – ou como uma finalidade sem fim”. (Manuel da Costa Pinto, no livro Paisagens Interiores).

A partir de uma compilação de fragmentos de grandes autores e filósofos como Montaigne, Roland Barthes, Pascal, Albert Camus, Stendhal, Baudelaire, Freud, Shakespeare, Marsílio Ficino, Platão, Kant, Proust, Wittgenstein, Santa Teresa D’Ávila, Nietzsche e tantos outros, Alain de Botton nos apresenta (e reflete sobre) o amor – e suas fases – através de uma relação amorosa com a personagem Chloe.

Apesar de classificado como romance, a leitura de Ensaios de Amor não precisa ser feita necessariamente de maneira linear, uma vez que cada capítulo apresenta um (quase) ensaio sobre um tema diferente acerca do amor: Fatalismo romântico, Idealização, O subtexto da sedução, Autenticidade, Mente e corpo, Marxismo, Notas falsas, Amor ou liberalismo, Beleza, Falando de amor, O que você vê nela?, Ceticismo e fé, Intimidade, Confirmação do eu, Intermitências do coração, O medo da felicidade, Contrações, Terrorismo romântico, Acima do bem e do mal, Psicofatalismo, Suicídio, O complexo de Jesus, Elipse e Lições de amor.

Engana-se quem acha que vai encontrar alguma resposta sobre as dores e as delícias do amor durante a leitura das 224 páginas. Nem mesmo o capítulo final, Lições de amor, encerra o interminável tema do amor:

Percebi que uma lição mais complexa precisava ser aprendida, a de que se podia brincar com as incompatibilidades do amor, confrontando a necessidade da sabedoria com sua provável impotência, misturando a idiotice da paixão com sua inevitabilidade. O amor tinha de ser apreciado sem se fugir para um otimismo ou pessimismo dogmáticos, sem se construir uma filosofia de medos, ou uma moralidade dos desapontamentos. O amor ensinava à mente analítica uma certa humildade, a lição de que por mais duro que ela lutasse para atingir certezas imóveis (enumerando suas conclusões e colocando-as em séries arrumadinhas), a análise nunca poderia deixar de ser falha – e, portanto, nunca se afastaria do irônico”.

Ensaios de Amor não é apenas um livro sobre uma história de amor: é sobre o amor. Uma análise que mescla de maneira inusitada, espirituosa (e por vezes divertida) filosofia, história, antropologia, ciência política, linguística, mitologia, psicanálise e literatura. E, como pude perceber, Alain de Botton não é apenas um escritor (com mais de vinte livros publicados) de autoajuda mais letrado, como imaginava.

“Que bom que esse livro me encontrou”, foi o que pensei quando terminei de ler. E que bom que ele vai encontrar pessoas que, como eu, amam o amor apesar e além de...

Abaixo, alguns trechos do livro.

(imagem: google)

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TRECHOS:

“Toda paixão envolve (adaptando Oscar Wilde) o triunfo da esperança sobre o autoconhecimento. Nós nos apaixonamos esperando não encontrar no outro o que sabemos estar em nós”.

“Se a paixão acontece de forma tão rápida, é talvez porque o desejo de amar precedeu o amado – a necessidade inventou sua solução. O aparecimento do amado é apenas o segundo estágio de uma necessidade anterior (mas em grande parte inconsciente)”.

“O telefone se torna um instrumento de tortura nas mãos demoníacas do amado que não liga”.

“O desejo havia me transformado num decodificador de símbolos, um interprete da paisagem (e, portanto, uma vítima potencial da falácia patética)”.

“A atração provoca uma sensação de inferioridade comparada com a perfeição que atribuímos ao amado. Meu amor por Chloe significava que eu havia perdido toda crença em minha própria dignidade. Quem, comparado a ela, poderia ser eu? Não era a maior honra ela ter concordado com aquele jantar”?

“Dessa percepção de inferioridade surgiu a necessidade de assumir uma personalidade que não era bem a minha, um eu sedutor que localizaria e responderia às exigências daquele ser superior. O amor me condenou a não ser eu mesmo”?

“Quando naquele outro Liaisons, a Marquesa de Merteuil escreve ao Visconde de Valmont, ela o repreende pelo fato de que suas cartas de amor são perfeitas demais, lógicas demais para serem as cartas de um verdadeiro amante, cujos pensamentos estarão desconjuntados e para quem escapará a frase perfeita. A linguagem tropeça no amor, ao desejo falta articulação”.

“Sedução é uma forma de ação, uma mudança de comportamento espontâneo para um comportamento formado para uma audiência”.

“Mentir para ser amado traz consigo a mais perversa suposição de que se eu não mentir, não posso ser amado”.

“Em algum ponto da sedução, o ator precisa arriscar perder sua plateia”.

“Nos apaixonamos porque desejamos escapar de nós mesmos com alguém que é tão bonito, inteligente e interessante quanto somos feios, estúpidos e chatos".

“O amor não correspondido pode ser doloroso, mas é doloroso com segurança, porque não envolve infligir danos a ninguém senão a si mesmo, uma dor particular que é tão agridoce quanto é auto-induzida. Mas, assim que o amor é retribuído, você deve estar preparado para desistir da passividade de apenas ser ferido e assumir a responsabilidade de perpetrar o ferimento por conta própria”.

“Não amaríamos se não houvesse carência dentro de nós, mas por paradoxo, somos ofendidos por uma carência semelhante no outro. Esperando encontrar a resposta, descobrimos apenas a duplicata de nosso próprio problema”.

“Talvez seja verdade que as pessoas mais fáceis de se apaixonar são aquelas que nos falam muito pouco de si mesmas além do que podemos ler em seus rostos ou vozes. Na fantasia, uma pessoa é infinitamente, amavelmente maleável”.

“É nessa brecha entre o ideal que imaginamos e a realidade que o tempo revela que a impaciência, o perfeccionismo e, finalmente, a intolerância, brotarão”.

“É sempre mais fácil citar outros do que falar por si mesmo, mais fácil usar Shakespeare ou Sinatra do que arriscar a sua própria garganta dolorida. Nascidos dentro da linguagem, adotamos necessariamente o uso que outros fizeram dela, envolvendo-nos numa história que não é nossa”.

“O amor revela sua insanidade por sua recusa de reconhecer a normalidade inerente do amado”.

“Pascal argumentava que nossa fé ainda podia ser justificada porque as alegrias da probabilidade mais remota tinham de longe mais peso do que os horrores da mais provável. E assim, talvez, devesse ser com o amor. Os amantes não podem permanecer filósofos por muito tempo, devem ceder espaço ao impulso religioso, que é o de acreditar e ter fé, em oposição ao impulso filosófico, que é o de duvidar e inquerir. Eles deveriam preferir o risco de estar errados e apaixonados a estar em dúvida e sem amor”.

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Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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