Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

Prefiro ser fêmea a feminista de Internet

Depilar ou não depilar? Receber cantada na rua ou não? Usar roupa curta ou não? Usar salto alto ou não? Fazer plástica ou não? Essas são as questões das neo-feministas?


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Cala a boca, Bárbara! Assim falou Chico Buarque. Acrescentaria: cala a boca e vai ler um bom livro.

Se algumas meninas passassem menos tempo na academia e/ou na Internet e lessem mais, certamente falariam menos sandices em programas de TV e nas redes.

Porque somente a leitura (poesia, filosofia, história da arte, romances, clássicos) pode nos fazer compreender o todo e suas partes.

Nas últimas semanas dois assuntos colocaram as feministas de Facebook em polvorosa: o embate entre Pitty e Anitta no programa Altas Horas da Rede Globo e a internação (com risco de vida) da miss bumbum Andressa devido a um procedimento estético que deu errado.

Anitta está errada ao dizer que as mulheres estão fáceis demais e que isso passa mensagens erradas aos homens e as desvaloriza? Pitty está errada ao dizer que os homens “não devem pensar nada”?

Não. Ambas estão corretas. Os homens não deveriam pensar, querida Pitty, você acertou, mas pensam. Sim, querida Anitta, as meninas andam beijando rapazotes em camarotes somente pelo champanhe e isso contribui, infelizmente, para reforçar a ideia de que não valemos nada além de uma mera taça de champanhe.

Toda ação tem uma reação, já dizia Isaac Newton. Construímos e somos construídos pelo meio, pela cultura, num processo dialético. Mas será que as feministas de Facebook sabem o que é dialética? Não, não é o nome de uma dieta nova! Saiba

No entanto, o que mais me enfastiou nessa discussão cheia de equívocos foi o texto de Marcella Franco. Ela responsabiliza os homens pela busca feminina da imagem perfeita. Diz em seu texto:

“Por enxergarem cada vez mais as mulheres como itens descartáveis, os homens acabam levando as mulheres à insanidade absoluta. Por sermos tratadas, em nossa grande maioria, como mercadorias que devem estar sempre em sua mais absoluta e reluzente forma, nos concentramos em estar eternamente firmes, apetitosas, lisas, jovens. É porque os homens nos trocam com tamanha facilidade pela menina mais bonita e mais nova que nos desesperamos. A culpa é de vocês se passamos a nos enxergar como inadequadas, imperfeitas, incompletas”.

Sorry, querida Marcella, mas sou partidária de Sartre e por isso me recuso a achar que “o inferno são os outros”. O inferno não são os outros, nem os homens. O inferno somos nós, nossa mente, nossos fantasmas, nossas neuroses ( e quando digo nós estou me referindo a homens e mulheres, ao que há de humano, demasiadamente humano, em todos nós).

Ninguém tem o poder de nos tornar insanos. Ou somos insanos por natureza ou não somos. Homens ou mulheres. Algumas pessoas, por puro descuido, esbarram em nossos botões e ativam a nossa loucura. Pode ser um chefe, um namorado, a mãe, o irmão, uma situação. Mas o botão sempre esteve ali.

Ademais, a busca pela perfeição estética feminina existe desde que o mundo é mundo. Você de fato acredita que Cleópatra tomava banho de leite de cabra com mel e fazia máscara de argila somente porque tinha medo que Marco Antônio a trocasse por uma menina mais jovem?

O texto de Marcella é tão machista quanto o troglodita que bate na namorada ou o chefe que sugere favores sexuais em troca de uma promoção. É machista por um motivo muito simples: dá aos homens um poder que eles não têm.

Depilar ou não depilar? Receber cantada na rua ou não? Usar roupa curta ou não? Usar salto alto ou não? Fazer plástica ou não? Essas são as questões das neo-feministas?

Indico a leitura de O segundo sexo, de Simone de Beauvoir, para uma maior compressão sobre o sexo feminino.

De tudo que andei lendo e ouvindo por aí nas últimas semanas, somente Mariliz Pereira Jorge, em seu texto “Feministas malas-sem-alça”, me apeteceu:

“Demonizar os homens como se fossem culpados de tudo não dá. Homogenizar a categoria é outro tiro no pé das feministas malas-sem-alça”.

Eu, particularmente, prefiro ser fêmea a ser feminista. Por fêmea, entendam: bancar minhas escolhas, fazer o que tenho vontade, não ter medo do ridículo, amar e dar vexame, exercer meu desejo e minha sexualidade plenamente, contemplar minha feminilidade, ser quem quero (posso e consigo) ser sem que me digam o que é certo ou errado, não culpar ninguém por meus fracassos e escolhas, amar a liberdade, os homens, as mulheres, a vida.

Eita!? Mas não era justamente isso tudo, entre outras coisas, que as simones e leilas de antigamente queriam? Era. Mas hoje, aparentemente, elas querem culpar os homens por suas mazelas pessoais, apontar o dedo para as meninas que usam roupas curtas e não receber cantadas na rua. Vai entender...

Nota: para quem não me conhece, não conhece meu trabalho, sugiro um breve passeio pelo meu site para ver que de pudica, careta, conservadora e blábláblá não tenho nada.

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(imagem: Leila Diniz, uma super fêmea/ google)


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Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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