Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

Relatos Selvagens: para quê serve o autocontrole, afinal?

Com um humor que nos pega pelo improvável e personagens aparentemente normais, comuns, mas que no fundo estão à beira de cometer uma loucura qualquer (e cometem!), o filme Relatos Selvagens é cheio de reviravoltas e conta com um roteiro deliciosamente inusitado.


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Onde foi parar a minha Romina? Nasci com uma dessas, disso tenho certeza, e até bem pouco tempo atrás ela ainda balançava nas tranças da minha alma...

Foi ela, minha Romina, quem me fez bater numa menina quando adolescente. Foi ela quem me fez puxar a toalha de uma mesa repleta de copos e talheres no meio de uma briga a dois e chutar um poste de ferro num dia de fúria - o que me rendeu um mês de gesso no pé.

Foi Romina quem me fez jogar um drink na cara de um idiota e, no alto dos meus quinze anos, pichar no muro do trabalho de um cara que me deu um fora: “Jeff é brocha”.

Nunca imaginei que instinto pudesse ter nome próprio. Mas depois de assistir à comédia argentina Relatos Selvagens entendi que pode: Romina. E que quando enfrentamos situações-limite somos capazes do inimaginável.

Relatos Selvagens, de Damián Szifrón, apresenta seis histórias curtas e independentes entre si. Dentre elas, o casamento de Romina; sem dúvida uma das melhores partes do filme.

Em plena cerimônia de casamento, Romina (destaque para a atuação brilhante de Erica Rivas) descobre a traição do marido e, a partir daí, uma mulher almodovariana brota de suas entranhas e a leva a fazer o que qualquer mulher de bom senso faria, se tivesse coragem.

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Como os desfechos das crônicas filmadas por Szifrón são surpreendentes, e seria falta de sensibilidade com o leitor adiantá-los, não há como dar muitas pistas ou construir uma sinopse e/ou resenha adequada desse roteiro.

Se fosse um filme brasileiro - jamais seria, ainda não alcançamos a capacidade dos nossos hermanos de filmar críticas sociais de maneira ácida e poética sem cair no clichê da miséria e da exploração da pobreza- diria que o autor bebeu na fonte de Nelson Rodrigues (e vai saber se não bebeu, mesmo?), pois Relatos Selvagens nada mais é do que um A vida como ela é, só que dos chicos.

Com um humor que nos pega pelo improvável e personagens aparentemente normais, comuns, mas que no fundo estão à beira de cometer uma loucura qualquer (e cometem!), o filme de Szifrón é cheio de reviravoltas e conta com um roteiro deliciosamente inusitado.

Quem nunca sonhou reunir todas as pessoas que partiram o seu coração num mesmo local para poder matá-los de uma só vez? Quem nunca quis trucidar alguns atendentes de repartições públicas repletas de burocracias?

Com temas que passeiam por vingança, corrupção, traição, rejeição, amor e diferenças de classes sociais, Relatos Selvagens nos convida a relembrar que o fio que separa a tragédia da comédia é muito tênue (e saudável para a arte, quando trabalhado de maneira brilhante).

Trata-se de um filme em que rimos de nervosismo quase o tempo todo e em que arregalamos os olhos, num espasmo de “não acredito”, para depois pensar: eu teria sido capaz do mesmo?

A maturidade é um troço engraçado. Ganha-se muito com ela. Polidez, por exemplo. Porém, em alguns casos, para quê serve a polidez? Quem de fato sai ganhando com o autocontrole? Quem se controlou ou quem não foi vítima do descontrole alheio?

Sei da história de uma garota que, de tanto ciúme do namorado, rasgou um dos meus livros com os dentes e socou a cara de uma menina em plena festa de lançamento do livro do namorado em outra ocasião. Depois disso tudo, tomou uns bons drinks, foi dormir feliz da vida e no dia seguinte gargalhou de si mesma. Sem dúvida, um tipo clássico de Romina. A rima é ruim, eu sei, mas lá vai: Romina, aquela que não rumina e simplesmente age de acordo com suas vontades.

Juro que saí do cinema com uma lanterna imaginária em punho procurando os rastros da minha Romina dentro de mim mesma. Ela não pode ter desaparecido no meu castelo. Minha loucura não pode ter se tornado tão branca assim... Ou será, apenas, que eu cresci?

Filme bom é assim: induz a busca por nós mesmos. Deixa-nos a repensar as mentiras que nos contamos, nos faz repensar nossos próprios limites.

Mais um golaço do cinema argentino (em parceria com o cinema espanhol) que conta com os irmãos Augustín e Pedro Almodóvar na produção, bem como Ricardo Darín (este último no elenco, também). Imperdível.

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(imagens: google)


Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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