Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

Cachorras: o poder das mulheres de enlouquecer um homem

Em seu segundo romance, o poeta e jornalista Claufe Rodrigues nos brinda com uma tragicomédia que fala sobre idealização amorosa, arte, cultura, rock, literatura, rejeição, narcisismo e síndrome de Peter Pan


ressaaca_3.jpg

O que dois homens fazem quando se encontram sem as respectivas namoradas? Bebem cerveja, falam sobre futebol, sexo e outras mulheres?

Não Billy Dog e Demétrio, personagens do livro Cachorras (Editora Maquinária), segundo romance do poeta e jornalista Claufe Rodrigues.

Billy Dog. Quarentão. Narciso. Megalomaníaco. Ex-integrante de uma banda de rock. Colecionador de discos. Deprimido crônico que não consegue superar o pé na bunda que levou de Brenda, a namorada de vinte e poucos anos.

Demétrio. Quarentão. Ex-integrante de uma banda de rock. Artista pressionado pelos poderosos da indústria fonográfica para compor músicas ruins que alcancem o topo das paradas. Namorado de Saphira, uma celebridade produzida pela mídia. Único amigo de Billy Dog que o visita na cidade fictícia de Curuti para tentar impedi-lo de se suicidar.

Com um perfume john fanteano, isto é, linguagem casual, narrativa quase cinematográfica e uma história que brinca com os fracassos nossos de cada dia, Rodrigues nos apresenta uma tragicomédia divertidíssima na qual o personagem principal, Billy Dog, ao longo das 141 páginas, é atormentado por diversas fêmeas: a ex-namorada que deu no pé, a mãe internada num asilo, a cadela doente, a filha adolescente que o rejeita, a ex-mulher que deseja tomar seu dinheiro, a irmã casca-grossa que briga pela herança da família, além das ciganas e pombas-giras que ele cruza nos terreiros.

Cachorras, entre outras coisas, fala sobre idealização amorosa; sobre a inexplicável necessidade que temos de engrandecer o outro para que nos sintamos imensos em contrapartida - se uma pessoa imensamente perfeita nos ama é porque somos dignos de ser amados e somos igualmente perfeitos, não? Estaria a psicanálise certa ao afirmar que a paixão é pura projeção?

Narciso crônico, Billy Dog ama o que inventa.

“_ A gente chegava a ver três filmes do Bergman em sequência. Se isso não é prova de amor... Brenda, a melhor mulher do mundo! Como posso ter perdido minha alma gêmea? Como? (...) Brenda fala seis línguas: francês, italiano, inglês (contemporâneo e arcaico, of course), grego... – dá uma tragada e conta nos dedos: - Grego, catalão, castelhano, alemão... Russo ela aprendeu de ouvido, na cama, com um agente da KGB. A essa altura já deve estar dominando mandarim (...) Aos onze anos, ela já lia Sartre, Goethe e Freud no original. Aos doze, recitava Shakespeare de cima abaixo e de trás para frente (...) – Oh, que mulher, bicho! Aos 16 anos, tirou primeiro lugar na USP e em mais três universidades. E sem fazer cursinho pré-vestibular. Um gênio. Cento e oitenta de QI. No mundo inteiro, existem apenas três pessoas com o mesmo nível de inteligência; aqui na América do Sul é só ela, ninguém mais”...

ressaca-620x400.jpg

Por conta de sua linguagem fluida - e que privilegia os diálogos - Cachorras é o tipo de livro que, como se diz, lemos numa sentada só.

Enquanto Billy Dog fala obsessivamente sobre seu amor perdido e cai em armadilhas de mães-de-santo picaretas que prometem a volta do amor em três dias - o que rende boas gargalhadas ao leitor - Demétrio nos brinda com reflexões mais suculentas e existenciais:

“Por que estamos no mundo? Esta é a pergunta número um. Na impossibilidade de obter respostas confiáveis, as pessoas tentam desesperadamente sobreviver à própria morte. E de que modo? A fama é para os deslumbrados; dinheiro vira pó como a gente; o poder só ilude os fracos. E o brilho barato dos prêmios? Ouro de tolo, consolo efêmero. Fernando Pessoa tirou o segundo lugar num concurso e ganhou como prêmio de consolação a publicação de Mensagem; alguém lembra o nome do cara que ficou em primeiro lugar? O fato de um poeta como Jorge de Lima não estar no degrau mais alto do Olimpo Literário depõe contra toda a Humanidade (...) Guimarães Rosa dizia que suas obras deviam ser lidas daqui a 700 anos, mas, por via das dúvidas, se garantiu escrevendo nas orelhas dos próprios livros textos de pura autoglorificação. Porque ele sabia que para ser lido daqui sete séculos, teria que se tornar uma lenda. Construir, edificar, transformar, deixar suas marcas na pele dos dias – é isso o que fica. Porém não basta (...) O que determina a glória é um conjunto de fatores imponderáveis e imprevisíveis. Moby Dick era um fracasso como livro; só se tornou clássico quando virou filme, décadas depois de ser publicado. Herman Melville morreu amargurado e na pindaíba, assim como Oswald de Andrade, que hoje é endeusado pelos moderninhos “antropofágicos”. Então, o que nos resta? Viver intensamente e produzir bastante para, pelo menos, ter a ilusão de quem um dia superaremos essa sensação de transitoriedade”.

Entre uma reviravolta e outra, sempre provocadas por alguma fêmea, os amigos Billy Dog e Demétrio falam sobre vaidade, arte, rock and roll, mercado editorial, mercado fonográfico, literatura, fama, sucesso, decadência, obsessão,síndrome de Peter Pan, política e tecem críticas ácidas ao mundo das aparências a que estamos submetidos.

Sem perder sua veia poética, presente em diversos momentos do livro, como no trecho em que Demétrio fala sobre o quarto da filha de Billy Dog: “Os brinquedos, espalhados no chão, são de uma criança que nunca viveu ali”; ou logo na abertura “A juventude é uma doença que só o tempo cura; a loucura, nem reza”, Claufe Rodrigues, que é autor de mais de onze livros, sendo a maioria deles de poesia, prova que, como diz o verso de um de seus poemas, “a vida não vale nada se você não tem uma boa história para contar”. Seu Cachorras é uma história para lá de bem contada (e com um desfecho surpreendente!).

Assista aqui a uma entrevista de Claufe Rodrigues para o Globo News Literatura.

MEU CANAL

Venha tomar um café comigo no canal do YouTube Dois Cafés e uma água com gás, onde falo sobre livros, comportamento, arte, cultura, moda e beleza.

(fotos: google)

Capa-Cachorras.jpg


Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
Saiba como escrever na obvious.
version 20/s/literatura// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Mônica Montone