Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

Carta aberta ao querido homem-junkfood

Além dos nossos corpos, nossas roupas, nossas escolhas profissionais, sexuais, os meninos acham mesmo que tem o direito de questionar até o que comemos?


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Querido homem-junkfood,

Aqui quem vos escreve é uma pseudo-mulher-quinoa. Pseudo porque apesar de amar quinoa, arroz integral, saladas, legumes, sucos verdes, chás e sementes (e de ser vegetariana), também amo chocolate, coca-zero, champanhe, pipoca e batata frita.

Nunca deixei de beber cerveja no boteco com meu namorado (embora prefira champanhe) e jamais recusei um convite para jantar numa super cantina italiana (sou louca por nhoque). Também nunca carreguei marmita por aí.

Geralmente vou dormir com o nascer do sol e jamais, never, em tempo algum, acordaria às seis horas da manhã para dar uma corridinha na praia. Prefiro fazer yôga, dança e pilates durante a noite.

Sou fumante, infelizmente. Vício que adquiri na adolescência quando queria me juntar à patota do colegial e era ignorada por estar na oitava série. Parei, voltei, parei, voltei. Um dia paro de vez.

Dadas as devidas apresentações, quero dizer que seu texto “A mulher-quinoa que me perdoe, mas...” não é preconceituoso. É apenas equivocado e hipócrita.

Equivocado porque nem toda mulher (ou homem) que escolhe alimentos saudáveis o faz somente para manter a boa forma. Existe uma questão chamada paladar. Algumas pessoas simplesmente gostam (e muito!) de alimentos ditos saudáveis (meu caso!).

Foi-se o tempo em que comer de maneira saudável era comer apenas salada, chuchu, abobrinha e sopa. Talvez você precise rever seus conceitos e conhecer novos restaurantes. A culinária evoluiu muito e a globalização permitiu que uma explosão de temperos e especiarias estivesse ao alcance de todos. São Paulo, o grande centro gastronômico do Brasil, por exemplo, há anos deixou de ser “a terra da pizza” para se tornar “a terra da boa comida”. Sugiro um breve passeio pelo AK, em Vila Madalena, um restaurante judeu. A coalhada de lá é divina e a batata doce defumada com especiarias é de comer rezando, ainda mais se acompanhada de um belo espumante ou vinho branco.

Ops, esqueci que você gosta de boteco, cerveja e Ovitos - desculpe-me a insensibilidade de sugerir algo tão fora dos seus gostos.

Seu texto é hipócrita porque se uma mulher se alimentar todos os dias segundo a dieta que você propõe (e não somente no tal “dia do lixo”), em um ano ela estará com pelo menos dez quilos a mais, além de outros efeitos colaterais, como cansaço, falta de libido, irritabilidade, TPM monstro, espinhas, cabelos sem viço, mau humor, e aí, querido, fatalmente você começaria a reclamar.

Quer a gente queira, quer não, a alimentação influencia a nossa saúde e o nosso emocional. Não sou eu quem afirma isso, mas a ciência.

Acho no mínimo cafona, diante de tanta informação (e opção) como temos hoje, escolher comer UNICAMENTE frituras, embutidos, conservantes, comida enlatada.

Sim, neurose também é cafona. Na verdade, os excessos, todos eles, costumam ser cafonas - eu às vezes sou cafonérrima por conta dos meus (quem nunca?) . Realmente deve ser complicado conviver com “a tal mulher-quinoa” que você descreve, simplesmente porque ela não vive - aliás, não sei se você sabe, mas existe um distúrbio alimentar chamado Ortorexia, que leva as pessoas a se preocuparem obsessivamente com o que comem; talvez seja o caso dessas moças que você cita e se for, meu caro, elas precisam de tratamento e não de críticas que as ridicularizem.

Exaltar a alimentação junk em tempos onde podemos fazer escolhas mais equilibradas e inteligentes é de lascar. Sorry. Ah, só mais uma coisinha: além de nossos corpos, nossas roupas, nossas escolhas profissionais e sexuais, vocês, meninos, acham mesmo que tem o direito de questionar até o que comemos? Ah, tá, você estava “apenas” falando de suas preferências, desculpe-me...

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(imagem: google)


Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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