Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

Existe algo pior que o preconceito: a generalização

A generalização pode ser mais perigosa e danosa do que o preconceito. Porque o preconceito pode ser mudado com conhecimento; a generalização, não. A generalização leva a crenças absolutas.


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A loucura não escolhe cor, sexo, conta bancária, aparência física. Foi o que aprendi quando estagiei no hospital psiquiátrico Philippe Pinel, na zona sul do Rio de Janeiro. A loucura simplesmente se instala. Chega como a febre. E não tem graça nenhuma como querem os poetas.

Lembro-me como se fosse hoje do meu espanto quando, do alto dos meus 22 aninhos, me deparei com um rapaz lindíssimo (tipo editorial da Hugo Boss) com um livro do Aristóteles nas mãos. Ele estava todo urinado e às vezes gritava depois de ler uma página do livro.

- Ele não está lendo, né? - perguntei à minha orientadora.

Ela apenas me deu uma chave e ordenou que eu fosse até o armário buscar sua anamnese. F., de 24 anos, formado em filosofia pela UFRJ, falava três línguas fluentemente. Estudou nas melhores escolas do Rio de Janeiro, viajou para o exterior diversas vezes. Esquizofrênico. Inteligentíssimo.

Fui pré-conceituosa. Preconceito, entre outras coisas, é isso: tirar conclusões antes de, a priori.

No dicionário: sm. 1. Ideia preconcebida. 2. Suspeita, intolerância, aversão a outras raças, credos, religiões, etc.

Somente a aproximação, o contato, o conhecimento pode minimizar nosso grau de preconceito para com todas as coisas. Por mais que me dissessem na faculdade de Psicologia que esquizofrênicos podem, sim, ser inteligentes e podem, sim, ler Aristóteles, eu jamais teria tanta certeza disso se não tivesse convivido com um deles.

Após a polêmica levantada pela jornalista Hildegard Angel, que propôs ideias absurdas e totalmente insanas para controlar os arrastões que têm acontecido no Rio de Janeiro neste verão – como tirar ônibus de circulação das regiões menos favorecidas e/ou cobrar a entrada nas praias – a palavra “preconceito” se tornou a grande vedete das hashtags e diversas pessoas opinaram sobre o assunto.

No texto Quem tem medo e/ou nojo de pobres?, que critica (com razão!) as sugestões de Hildegard Angel, a colunista Maíra Streit diz que os ricos estão incomodados com a perda de privilégios e relembra a crônica de Danuza Leão dizendo que viajar para o exterior com tantos pobres por lá não tem mais graça.

“Em um mundo onde ser ‘VIP’ e obter exclusividades são o ápice do prazer aristocrático, a popularização do acesso a educação, saúde, viagens e bens de consumo deve ser mesmo um horror. Imagine que absurdo o filho do motorista estudar na mesma faculdade que o seu, ou encontrar a manicure fazendo compras naquela que era a sua loja preferida. Ainda mais ultrajante deve ser ver a empregada jantando filé mignon e dizendo a você que, de uma vez por todas, a escravidão acabou. Haja Lexotan para acalmar os ânimos dessa gente, tão afeita a mandar e desmandar sozinha em seus feudos imaginários. Quanto a isso, só resta uma coisa a ser dita: acostumem-se… A tendência é piorar”. Saiba mais

Era para ser um texto anti-preconceito, certo? Era! Porque Streit acaba sendo preconceituosa, também, ao generalizar, ao sugerir que pessoas mais favorecidas financeiramente pensam como Danuza ou Hildegard Angel e isso não é verdade.

Não sou rica, mas moro na zona sul. Moro na zona sul e nunca me incomodei com os transeuntes de outros bairros. Estudei na PUC-RJ e, ao contrário do que sugere Streit em sua coluna, nunca achei ruim estudar com os bolsistas – aliás, sou amiga de alguns deles até hoje. Conheço pessoas riquíssimas que não desejam nenhum tipo de segregação, fazem trabalhos voluntários maravilhosos, lutam por direitos iguais e ensinam seus filhos a tratar bem e reconhecer o valor de todas as pessoas independentemente de classe social.

É claro que existem mauricinhos (e patricinhas) desmiolados por aí, que infelizmente tem nojo de pobre, mas acreditar que toda pessoa que não é pobre, a priori, não gosta de pobre, é um erro tão grande quanto ter nojo de pobre. Preconceito igual. E fomenta segregação da mesma forma.

A generalização, no final das contas, pode ser mais perigosa e danosa do que o preconceito. Porque o preconceito, sendo “pré”, pode ser mudado com conhecimento de causa; a generalização, não. A generalização leva a crenças absolutas e absolutismos sempre acabam em... “torres gêmeas” e “je suis Charlie”.

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(imagem: google)


Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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