Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

A vida não é filme, você não entendeu

A arte não imita a vida. Ela apenas inventa a vida que poderíamos ter se pudéssemos ser irreais como a personagem Sofía do filme argentino “O Crítico”. Cena de aeroporto? Esqueça, baby, isso não vai acontecer.


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“Se eu abandono minhas ideias não tenho mais nada”. Eis o verso que vaza do rádio do crítico após uma bela trepada enquanto a mulher encaracolada adormece junto ao seu peito.

Encarcerado no mundo que criou para si mesmo (uma casa escura e bagunçada, repleta de livros e filmes; uma cara sisuda de quem perdeu o gosto pela alvorada; uma rotina medíocre que não lhe diz absolutamente nada; a produção de resenhas de filmes estúpidos que ele jamais gostaria de ter assistido), Víctor Téllez (Rafael Spregelburd) vê a vida como frames de um filme ruim e pensa em francês - segundo ele, porque os diálogos internos ficam menos caóticos em outra língua.

Diz a lenda que os críticos são pessoas que possuem um grau de insegurança proporcional ao seu conhecimento. Que são artistas frustrados. Que por não terem coragem de realizar, especializam-se e passam a teorizar sobre as obras alheias. Será?

Mais clichê que isso somente o ar de insatisfação que ostentam. Parafraseando Camus: os críticos morrem e não são felizes. Ou melhor, não o podem ser, caso contrário perdem a credibilidade, afinal, o bom crítico deve ser aquele que não gosta de quase nada nunca, não? Quando muito devem ser otimistas em curto prazo e pessimistas em longo prazo. Pelo menos é assim que o diretor Hernán Guerschuny define esses profissionais no filme O crítico.

Sim, a película argentina de Guerschuny tem personagens (e roteiro) bastante clichês, mas mesmo assim, é gostoso de assistir. E é gostoso de assistir por um motivo muito simples: Guerschuny sabe que é clichê e se diverte com isso, criando cenas, diálogos e sequências que ridicularizam e exaltam num só tempo, através da metalinguagem, as comédias românticas e os críticos de cinema.

Para Víctor, o crítico que detesta comédias românticas e se vê enredado em uma com a sensual forasteira Sofía (Dolores Fonzi), o problema desse gênero está no enredo: encontros inusitados, beijos na chuva, corridas ao aeroporto e mal-entendidos resolvidos na última cena. Tudo previsível e batido por demais.

Para mim, está nas idiossincrasias das personagens apaixonadas e na maneira como estas lidam com elas.

Os mocinhos das comédias românticas quase sempre são mocinhos empedernidos. Em geral são tímidos, bem educados e reprimidos. Nunca foram a uma festa sem convite, falam baixo, são discretos e jamais tomaram banho de mar, nus, durante uma madrugada de bebedeira.

Já as mocinhas são as maluquinhas. Comem com as mãos, adoram andar descalças, falam muito, são amigas de DJs de casas de salsa, dormem até o meio-dia sem sentir culpa, adoram dançar, vivem meio descabeladas e com roupas coloridas ( quem não se lembra de Quero ficar com Polly?). Até que se prove o contrário, são livres.

Nos filmes de sempre eles ficam aterrorizados e encantados com as maluquinhas. Apaixonam-se por aqueles bichinhos exóticos. Esforçam-se para não parecerem caretas demais. Já as maluquinhas ficam excitadas com o poder celestial que lhes foi outorgado: tirar aqueles mocinhos dos seus comas.

Eles se desesperam diante das diferenças. Elas se divertem com a incapacidade deles de lidarem com essas diferenças.

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Até que, por algum motivo, elas se sentem julgadas por eles e dão no pé e eles, após amargarem o retorno à suas rotinas de chumbo, e percebendo que já não conseguem mais viver sem o colorido das maluquinhas, vão atrás das mesmas, pedem desculpas e tudo acaba num beijo.

Eis o grande clichê torto das comédias românticas, inclusive de O crítico: a máxima (ilusória e idealizada) de que os opostos se atraem e se complementam, quando sabemos que na vida real isso só acontece com os dispostos.

Enquanto a lindíssima Sofía convidava Víctor para dançar numa festa estranha repleta de gente esquisita ou o levava para um passeio noturno inusitado num barco abandonado, ou, ainda, vestia sua camiseta velha depois de uma noite de sexo para caminhadas serelepes até a cozinha, eu pensava segurando o saco de pipocas: “Essa menina, em momento algum, não se sentiu inadequada para esse homem? Não se sentiu oprimida, nem por um segundo, por suas convicções tão endurecidas? Não se achou colorida demais para o seu terno marrom? Não sentiu vergonha por não saber absolutamente nada sobre o cinema de vanguarda francês? Não temeu perdê-lo por conta de seus excessos”?

E mais:

“Como assim ela não sentiu vontade de cavar um buraco e se enfiar dentro quando ele perguntou: 'Você não se cansa de ser tão emocional e efervescente o tempo todo’?”

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De duas uma: ou Sofía tinha um ótimo terapeuta - que não apareceu na trama por economia de recursos - ou não era real.

Foi ali que compreendi de uma vez por todas: a arte não imita a vida. Ela apenas inventa a vida que poderíamos ter se pudéssemos ser irreais como Sofía.

A nós, realíssimos mortais, depois de trombarmos com pessoas extremamente (e diametralmente) opostas, resta apenas perguntas sem respostas e a ausência do outro fazendo barulho em todo lugar. Cena de aeroporto? Esqueça, baby, isso não vai acontecer!

Não, a vida não é um filme - embora possa ser um delicioso plano-sequência de Fellini quando estamos dispostos - e precisamos (ou preciso eu?) entender isso.

Digressões a parte, a película de Hernán Guerschuny - premiada pela crítica especializada do Festival de Gramado em 2014 - brinca com os apaixonados por cinema com humor inteligente e leveza e apresenta boas surpresas ao longo da trama (como o cineasta que não aceita a resenha ruim que recebeu de Víctor Téllez e passa a persegui-lo).

“O crítico” definitivamente não é o melhor filme argentino que já assisti. Medianeiras, Juan e a Bailarina e Relatos Selvagens continuam no topo da lista. Mas é um filme que vale a pipoca e o ingresso. Um filme tipo sexo, pizza e teatro: mesmo quando não é tão bom é bom.

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(imagens: google)


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Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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