Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

Posto, logo existo

Você já parou para pensar na sua necessidade de postar tudo o tempo todo? Quanto tempo você gasta vendo o que seu vizinho está fazendo nas redes sociais?


posto logo existo.jpg

Desde que li o conto “As aventuras de um fotógrafo”, de Ítalo Calvino, no livro Os Amores Difíceis (Editora Companhia das Letras), citado aqui em outra crônica, passei a olhar o nosso (meu?) vício pelas redes sociais com outros olhos.

Quando o texto foi escrito, em 1958, o autor sequer sonhava que décadas mais tarde uma nova tecnologia chamada Internet mudaria por completo o comportamento e a forma de as pessoas se relacionarem no século XXI.

Em “As aventuras de um fotógrafo”, Calvino fala sobre o advento da máquina fotográfica (mais precisamente da Polaroide, a tataravó do Instagram). Com seu humor ácido e peculiar, o escritor italiano - de origem cubana - aponta nossas misérias de cada dia, como a necessidade de reter os momentos através do registro fotográfico, na tentativa de anular a nossa incômoda sensação de seres perecíveis.

“O que leva vocês, moças, a retirar da movimentada continuidade de sua jornada essas fatias temporais de espessura de um segundo? Jogando a bola uma para a outra estão vivendo no presente, mas mal a divisão dos fotogramas se insinua entre os gestos de vocês já não é o prazer do jogo o que as impulsiona e sim o de se reverem no futuro, de se encontrarem novamente daqui a vinte anos num cartãozinho amarelado (sentimentalmente amarelado, mesmo se os processos modernos de fixação o preservarem inalterado). O gosto pela foto espontânea natural colhida ao vivo mata a espontaneidade, afasta o presente. A realidade fotografada assume logo um caráter saudoso, de alegria sumida na asa do tempo, um caráter comemorativo, mesmo se é uma foto de anteontem. E a vida que você vive para fotografar já é desde o princípio comemoração de si mesma."

O trecho acima me fez lembrar, por exemplo, das pessoas que não viram a queima de fogos durante a virada do ano porque estavam filmando e fotografando - ou será que fotografar e filmar é o nosso novo modo de ver e experimentar as coisas em suas essências e estou sendo apenas antiquada?

Fato é que, desde que li o conto, passei a ostentar uma vergonha secreta (ou seria pudor?) de manter Instagram e Facebook. Então me fiz as seguintes perguntas: o que pode acontecer se eu não disser, nem mostrar a ninguém o que ando fazendo, vendo e pensando? O que pode acontecer se eu não souber que o cara da NET deu o cano no meu vizinho pela enésima vez e que ele comeu no restaurante X no sábado passado?

A resposta, após um breve afastamento do mundo virtual, me pareceu tão óbvia que me envolveu como um carinho de mãe: as vivências, todas elas, das mais triviais às mais extraordinárias, se tornaram minhas! Só minhas! Como um bem precioso adquirido, um segredinho bom. Além disso, não saber o que meu vizinho faz todos os dias me trouxe ganho de tempo subjetivo: olhar menos para o outro = olhar mais para dentro de mim.

E tantas coisas bonitas me aconteceram nesse curto espaço de tempo! Ganhei flores num certo café da manhã na cama, bebi vinho tinto e tagarelei a noite toda sobre o sexo das baleias com uma querida amiga em seu sítio, conheci pessoalmente uma das atrizes brasileiras que mais admiro, deixei de beber coca-zero, avancei no meu novo livro, voltei a andar de bicicleta. Foram tantas as vivências significativas que não daria conta de descrevê-las ou registrá-las. Nem quero, pois como bem disse Calvino:

“Para viver de verdade é preciso fotografar o mais que se possa, e para fotografar o mais que se possa é preciso: ou viver de um modo o mais fotografável possível, ou então considerar fotografáveis todos os momentos da própria vida. O primeiro caminho leva à estupidez, o segundo, à loucura”.

Mas se em 1958 as pessoas tinham a ânsia de registrar tudo, como sugeriu o autor, por mera necessidade de reter o momento e afastar a sensação de transitoriedade e para se certificar de que viveram, mesmo, determinadas experiências, hoje tenho a impressão de que talvez o façamos porque, como sugere a psicanálise, necessitamos desesperadamente de uma identidade fornecida pelo olhar do outro.

Se o outro nos acha belos (dando likes em nossas fotos) nos sentimos bonitos. Se o outro nos enxerga como inteligentes ( curtindo ou compartilhando nossas postagens) nos certificamos de que somos inteligentes.

Sem perceber, acabamos criando a persona que gostaríamos de ser nas redes sociais, e acreditamos que somos essa persona quando o outro confirma isso através dos likes.

O problema é que cedo ou tarde a realidade se impõe e esfrega o equívoco em nossas fuças.

Ou seja, na tentativa de adquirir uma identidade sonhada, acabamos ficando amorfos e com a indigesta sensação de que não possuímos identidade alguma - já que não somos quem gostaríamos de ser nem tampouco quem imaginam que somos. Resultado? Depressão, ansiedade, autoimagem desregulada (leia: baixa autoestima) e uma avalanche de postagens diárias sinalizando: “Ei, eu existo!”.

Não quero dizer com esse texto que vou abandonar as redes sociais, ou que elas sejam maléficas - fazem parte do nosso tempo e vivo no aqui e agora. Sem contar que elas são ótimas em diversos aspectos. Mas confesso que perceber o quão atual é o conto de Calvino e como os excessos cometidos no espaço virtual podem, sim, nos distanciar de nós mesmos, me fez querer repensar o uso que faço das redes. Nesse processo, tenho descoberto cada vez mais como é bom, às vezes, simplesmente guardar o que vivi para mim! Guardar! Simplesmente guardar, como uma criança que guarda tatu-bola em caixinhas de fósforos ou uma adolescente que escreve sobre sua paixão secreta num diário perfumado e depois o tranca com um pequeno cadeado.

E como é bom ter pequenos e inocentes segredos guardados num mundo tão devassado. Creiam, eles nos dizem mais sobre nós mesmos do que milhares de likes que recebemos diariamente.

E você já parou para pensar na sua necessidade de postar tudo o tempo todo? Quanto tempo você gasta vendo o que seu vizinho está fazendo? Aliás, você já ouviu falar em FOMO ( Fear Of Missing Out) a síndrome do medo de estar por fora?

Abaixo duas paródias divertidas para refletir sobre o uso que estamos fazendo do Instagram.

MEU CANAL

Venha tomar um café comigo no canal do YouTube Dois Cafés e uma água com gás, onde falo sobre livros, comportamento, arte, cultura, moda e beleza.

(Imagem: google)


Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Mônica Montone