Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

O exagero me comeu

Para os exagerados de plantão, um poema inspirado em João Cabral de Melo Neto


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Joanna,

O exagero comeu o ensinamento dos meus pais dos meus tornozelos. Às vezes sinto que tenho asas nos pés no lugar de botas e que elas não me deixam parar - principalmente quando amo.

O exagero comeu meu nome e meu sobrenome: fez-me dama, anjo, puta, demônio, criança, louca e santa num só tempo.

Comeu minha dignidade todas as vezes em que me ofereci para amar gratuitamente quem não queria ser amado.

Comeu minha sanidade todas as vezes em que não soube desamar com a mesma facilidade dos poetas marginais que bebem vodca barata e trocam de xoxota como quem chupa laranjas num dia de ressaca.

Comeu por completo, migalha por migalha, minha paciência e devorou todos os silêncios: não consigo deixar botar estranheza onde não existe nada.

O exagero comeu meu sono, minha fome, meus pulmões, os cachos dos meus cabelos, os novelos de lã que nunca usei para tecer um casaco de autopreservação que pudesse me proteger da solidão a dois.

O exagero comeu meus livros, meus discos, minhas anáguas, meus vestidos, bolsas e sapatos. Engoliu meu passado e os ponteiros apressados do meu relógio imaginário.

Comeu minha dança noturna, as viagens que nunca fiz, o balanço do quintal da minha infância, os palcos que nunca pisei, as cartas que não enviei e me esqueci de rasgar.

Comeu, também, os cabelos de vento que bagunçavam minhas memórias. Triturou toda a minha história, mastigada após mastigada.

Comeu amigos, inimigos, amores expressos, paixões instantâneas, manuscritos inúteis. O exagero comeu.

Comeu a flor roxa do meu peito e todos os poemas que escrevi e ainda poderia vir a escrever.

Comeu a hora do almoço, a hora do jantar, a hora da estrela, a demora que é não saber esperar.

O exagero comeu meus sonhos, as tardes de lassidão que vivi e bebeu minhas lágrimas de saudades como se elas fossem licor digestivo.

Roeu os pés da cama, puiu lençóis, triturou espelhos. Comeu minhas unhas pintadas de vermelho e as poucas certezas que eu tinha sobre mim mesma.

O exagero me comeu. Faz frio dentro de sua barriga.

FALANDO NISSO

Escrevi o texto acima inspirada em de João Cabral de Melo Neto, num trecho de Os Três Mal-Amados:

"Joaquim,

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos" ... continue lendo, aqui

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foto: Mônica Montone by Mônica Montone

E por falar em exagero:


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Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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