Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

Pequenos souvenirs do amor

Descubra quais são as malas que não lhe pertencem e as devolva, ou, simplesmente, jogue-as fora, todas elas. A mochila do sentimento de inadequação, por exemplo, é um souvenir que não serve para nada.


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Quando nos apaixonamos nossa alma muda de casa. Entramos no mundo do ser amado de mala e cuia na mão mesmo que não tenhamos sido convidados. E por não conhecermos ao certo esse novo pedaço de chão, tendemos a agir conforme o ditado: “Em Roma, faça como os romanos”. Ou, ainda: “Em terra de vaca, boi é vaca”.

Sem perceber começamos um estranho movimento de nos tornarmos gêmeos do objeto amado: aprendemos a gostar de determinados temperos nunca antes experimentados, de novos estilos musicais, passamos a buscar as mesmas leituras e, subitamente, começamos a gostar de coisas que sempre detestamos.

Características de personalidade que outrora achamos abomináveis passam a ser vistas como defeitinhos fofos de fabricação e, claro, coisas sem importância e perfeitamente contornáveis.

Feito quando viajamos para um lugar sonhado e quando chegamos ao destino o hotel é uma espelunca, mas fazemos vista grossa e olhamos para o lado simplesmente porque estamos realizando um sonho. Que mal tem se o quarto cheira a mofo? Vamos passar o dia na rua, mesmo, visitando charmosos museus e simpáticos cafés...

O nome técnico para esse delírio consentido (e partilhado) é simbiose.

Mas esse delírio não é de todo mal! Assim como não voltamos os mesmos de uma viagem, nossa alma nunca volta do mesmo jeito quando retorna para a própria casa, ou seja, quando uma relação acaba.

Quem ama ao ponto de abandonar-se, de perder-se de vista, de achar que nunca mais vai encontrar o caminho de volta, descobre coisas valiosíssimas sobre si mesmo - e, às vezes, dolorosas - e esse processo leva ao crescimento e à ratificação do que somos (ou pensamos ser).

Sem contar os pequenos souvenirs do amor que hão de nos acompanhar para qualquer tipo de nova locação: um cantor que não conhecíamos e passamos a amar, um livro que nunca tínhamos lido e agora o temos como leitura de cabeceira, uma culinária que aprendemos a gostar, um hábito bom que adquirimos, um DVD emprestado e nunca devolvido, aquele moletom velho que adoramos usar para dormir nas noites frias, uma caricatura emoldurada feita num guardanapo, uma echarpe laranja trazida de uma viagem.

O problema é quando, durante o retorno, nossa alma se engana e traz caixas e malas que não são dela. Traz a insegurança que nunca foi sua. O pessimismo que jamais conheceu em vida. A vergonha dos pés descalços e sujos. A empáfia que sempre detestou. As crenças e valores rígidos que nunca lhe vestiram bem. A caretice de inventar um personagem obscuro somente por medo de não ser suficientemente boa.

Caso a imersão no amor tenha sido deveras profunda, a alma demorará um bom tempo para se sentir confortável na própria casa de novo e só conseguirá chama-la de “lar” quando se der conta de que trouxe consigo malas e caixas que não lhe pertenciam.

A pobrezinha passará dias, semanas, meses, tropeçando em objetos estranhos, machucando suas canelas, ralando tornozelos, praguejando e maldizendo o dia em que resolveu se mudar, até abrir uma janela numa noite de lua cheia e perceber que o clarão iluminou o que estava diante do seu nariz, mas que ela, distraída com suas pequenas raladuras, não notou: aqueles entulhos não lhe pertenciam. Ela podia devolvê-los, ou, simplesmente, jogá-los fora.

Além disso, a mochila da inadequação. Quando uma história de amor naufraga tendemos a acreditar que isso aconteceu porque não fomos adequados para o outro e/ou porque ele percebeu nossas falhas e as julgou como se fôssemos leprosos.

Do amor passado vale a pena guardar apenas o chaveiro comprado no chinês da esquina numa tarde regada a novidade, sorrisos fugidios e frio na barriga. A tonteria do outro e a inadequação embalada e extraviada na pressa de regressar, não. Somos o que conseguimos (podemos) ser e devemos sentir orgulho do que nos tornamos. Nenhuma viagem, para país distante ou morada de alguém, tem o poder de nos roubar de nós mesmos, alterar o nosso sangue.

Devolva a vergonha que nunca sentiu dos seus escândalos para quem é habituado a elas. Devolva o medo de fracassar que nunca te pertenceu, mas que acabou te paralisando por um tempo. Devolva a mochila da inadequação para o outro e entenda de uma vez por todas: se você não foi suficientemente bom para o outro, tampouco ele foi para você - acaso fossem bons um para o outro, estariam juntos; se morar em Cabrobó fosse bom pra você, certamente você estaria morando lá. E lembre-se das coisas que sempre acreditou, das coisas que sempre soube, antes de exilar-se de si.

Descubra quais são as malas que não lhe pertencem e as devolva, ou, simplesmente jogue-as fora, todas elas. Depois, arraste os móveis, coloque um disco da Billie Holiday para tocar, pinte as paredes de vermelho e chame os amigos para dançar. Ah, e faça uma tatuagem imaginária no braço esquerdo, com as palavras de Tom Jobim: “Viajar é bom, mas voltar para casa é melhor”.

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imagem: google


Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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