Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

Tudo ou nada

Quando se descobre que o nada pode ser infinitamente melhor que um punhado de não-sei-quê, toda e qualquer queda se torna uma oportunidade.


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Toda queda é uma possibilidade de reaprender a andar. De aprender um jeito novo de pisar e de quê (ou de quem) desviar.

Devíamos saber que o fracasso é a única sentença possível para os que tentam caber em sonhos alheios, para os que tentam se encolher em devaneios outros.

Mas como saber se ninguém ensina? Se tudo o que aprendemos desde a infância é comer de boca fechada, não falar palavrão, tirar os cotovelos da mesa, somar, dividir, subtrair, decorar verbos e a tabuada do oito?

As mitocôndrias. O que diabos temos a ver com elas? A equação de Bhaskara?

O que devemos fazer com a tabela periódica quando o calo do estômago aperta por não sabermos como nos tornar o que supostamente esperam de nós?

Não seria mais proveitoso se a escola nos ensinasse que é melhor ser gente de carne e osso do que Galatéia, musa esculpida com perfeição por seu amante Pigmaleão?

Engana-se quem pensa que Pigmaleão amava Galatéia. Ele amava simplesmente a ideia de estar esculpindo algo perfeito. Amava a impossibilidade daquele amor.

Ah... Se nós, mocinhas pós-moderninhas, tivéssemos aprendido o quão alegre é amar e ser amada por quem acredita no amor, e não por quem acha que não o merece e, por isso, tenta criar um ser perfeito, supostamente à sua imagem e semelhança, somente para não se decepcionar e/ou não correr o risco de ser abandonado...

Se assim o fosse não desperdiçaríamos nossa poesia com resenhas inúteis. Não tentaríamos ser o que não somos para agradar aqueles que apenas observam o mundo de longe sem nunca se terem lambuzado por completo em seu sabor agridoce.

Não tentaríamos ser a Galatéia de ninguém, tampouco sentiríamos culpa por não nos adequarmos, não cabermos em sonhos pequenos, e deixaríamos de botar estranheza onde não existe nada.

O nada, por exemplo. O que nos ensinaram sobre ele na escola? Muito pouco ou quase nada. Talvez seja por isso que o tememos como se fosse o boi da cara preta que pegou a menina que tinha medo de careta.

Nada sei sobre o nada. Mas creio que ele não é o boi da cara preta. Aprendi, para o meu total espanto, que o nada pode ser bom. Que não sentir nada pode ser libertador e que o nada pode ser infinitamente melhor que um punhado de não-sei-quê - antes nada do que reflexo de um Pigmaleão misógino não assumido qualquer.

Somente quando nada existe é que se pode nascer imensamente (e tudo pode acontecer).

Tudo ou nada. Hoje entendi (aceitei e amei) porque assim sou: é nesses dois polos que a vida emerge e acontece de fato. E eu sou feita de vida e sei que o que essa dama caprichosa quer da gente é coragem.

Que bom que a escola acaba, mas as lições verdadeiramente importantes continuam.

Saudações para quem tem coragem! Cantemos o blues da piedade para toda gente careta e covarde “que vê a luz, mas não ilumina suas mini-certezas”, nem muda quando é lua cheia.

FALANDO NISSO

Tem gente que parece nascer sabendo de tudo e de nada como se nunca tivesse colocado os pés numa escola. É o caso do poeta alagoano Jorge de Lima que, aos sete anos de idade, escreveu o poema abaixo:

Eu queria saber versos

como meu amigo Lau.

nunca vi versos mais belos

como ele sabe lá.

Trocava até meu carneiro

meu velocípede sim

sem saber os seus versos

meu Pai, que será de mim?

Meu pai, me bote na escola

de meu velho amigo Lau

quero aprender com ele

versos e não b a bá!!!

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(imagem: google)


Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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