Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

Calada noite: para os que amam a madrugada

A madrugada é uma mãe carinhosa que nos cobre com seu manto santo e acolhe (e perdoa) todas as vergonhas que durante o dia tentamos disfarçar: medos infundados, saudades do que poderia ter sido, expectativas prematuras, inseguranças tolas, arrependimentos vãos.


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A noite quando avança me tira para dançar. Às vezes bolero, noutras chá-chá-chá. Arrasto o sofá da sala e me ponho a rodopiar descalça sobre o tapete.

Uma, duas, três horas da manhã. A noite avança e me convence a conversar com os personagens que finjo não lembrar durante o dia.

Sob a luz do sol é mais fácil mentir para si mesmo. Tem contas a pagar, reuniões para negociar e avaliar projetos, textos para revisar, casa para arrumar, mercado para fazer, burocracias para roubar o tempo, e-mails para responder.

Durante o dia somos o que "devemos" ser: bons profissionais, bons amigos, bons namorados, bons pais. À noite somos o que podemos e conseguimos ser. À noite somos obrigados a olhar o que durante o dia os óculos de sol tentam ocultar: nossas faltas.

A madrugada é uma mãe carinhosa que nos cobre com seu manto santo e acolhe (e perdoa) todas as vergonhas que durante o dia tentamos disfarçar: medos infundados, saudades do que poderia ter sido, expectativas prematuras, inseguranças tolas, arrependimentos vãos.

Há quem chame de insônia o hábito de madrugar, eu chamo de amor-próprio. Porque somente à noite, quando as ruas silenciam e as rugas da alma se avolumam frente ao espelho, é que podemos de fato escolher se amamos ou odiamos o que estamos nos tornando dia após dia.

Quem é que consegue fazer um julgamento honesto de si mesmo (e das próprias emoções) com os ouvidos sujos de buzinas, britadeiras, telefone tocando, criança chorando? Amigos, cachorro, gato, marido, chefe e papagaio pedindo isso e aquilo? Na fila do banco? No trânsito?

Passei minha adolescência e boa parte dos meus vinte e poucos anos namorando a lua na companhia de amigos e amores. De segunda a segunda minhas madrugadas aconteciam na rua - bebendo, fumando, jogando conversa para dentro, dançando. Era no encontro noturno com o outro que eu descobria a mim mesma.

Agora que tomei posse de mim, dedico a maior parte das minhas madrugadas ao diálogo com o que fui, estou e ainda posso vir a ser. Leio, escrevo, coloco os clássicos do cinema em dia, arrumo armários, danço, bebo vinho tinto, escuto música, lembro-me de festas e prosas que nunca aconteceram.

Brigo ferozmente com o sono caso ele chegue antes da hora combinada: é acordada durante a noite que desperto para dentro.

E é por esses e por outros motivos que estou deveras apaixonada pelo programa Calada Noite, apresentado por Sarah Oliveira, do canal GNT.

Com um roteiro sensível, entrevistas inteligentes com notívagos célebres, imagens noturnas poéticas das cidades e histórias inusitadas sobre "os seres" da madrugada, Sarah - que, diga-se de passagem, está lindíssima e com um figurino super cool – nos oferece com o seu Calada Noite a graça de nos sentirmos menos estranhos (e sozinhos) em nossos hábitos de insones.

Malu Mader, como eu, também dança sozinha na sala durante a madrugada. Pedro Bial envia e-mails. Fafá de Belém telefona para ex-amores e depois morre de rir da vaidade masculina que faz com que os homens acreditem que quando uma mulher liga depois de muito tempo é porque ela quer voltar, e avisa: "Não queremos"! Ney Matogrosso leva fita crepe para todos os hotéis para vedar as cortinas, não dorme se um fio de sol entrar pela janela. Patricia Pillar, Marisa Orth, Mart'nália, Debora Falabella, Mateus Solano, Marcelo Tas, Baby do Brasil, Jô Soares, Ivete Sangalo e Serginho Groisman também garantem boas risadas e reflexões. Além disso, histórias de pessoas que trabalham na noite, como taxistas, plantonistas de hospital, artistas de rua e afins.

Calada Noite está em sua segunda temporada, toda terça-feira, às 22h30, no GNT. A primeira temporada está disponível no NET NOW e no GlobosatPlay.

Eu, adivinhem, assisto pelo GlobosatPlay depois das duas da manhã. Inteligente, sensível, poético, dinâmico, divertido. Um dos melhores programas de entrevista da atualidade e uma verdadeira declaração de amor à noite.

A apaixonada de plantão pela madrugada, aqui, agradece. Mais um golaço do GNT.

Abaixo duas músicas com o tema "noite" que amo e que, claro, fazem parte da trilha sonora do programa.

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(foto: Patti Smith - google)


Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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