Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

Que horas ela volta? O filme não é essa coca-cola toda

Como crítica social, excelente, digno de todos os aplausos. Como cinema, apresenta um roteiro redundante e arrastado.


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Há quem tenha implicância com o cinema brasileiro por achá-lo de má qualidade. Eu não tenho. Mas confesso que assisto pouco e isso se dá por um motivo bem simples: não gosto dos argumentos.

Detesto filmes de violência, por exemplo. Só assisti a dois filmes do Tarantino na vida e me arrependi profundamente de um deles - tive pesadelos horrendos por duas semanas. Por esse motivo não assisti a Tropa de Elite I e II, Carandiru, etc, para horror dos cinéfilos.

Filmes de comédia pastelão da Globo Filmes, não suporto. Passo longe, inclusive, das americanóides enlatadas que são rainhas desse gênero: simplesmente não consigo rir de piadas prontas.

Pobreza, Nordeste, favela. Sim, nossa triste realidade. A vida imita a arte e a arte imita a vida. Ok. Mas até quando esse será o tema do nosso cinema? Confesso que me dá uma certa preguiça do “mais do mesmo”.

Dentre os filmes nacionais (mais recentes), escolheria como prediletos: “Lavoura Arcaica”, “Durval Discos”, “Romance”, “Estômago”, “Cinema, aspirinas e urubus”, “O cheiro do ralo”, “Lisbela e o Prisioneiro”, “Domésticas”, “O homem que copiava” e “Madame Satã”.

E não acrescento nessa lista “Que horas ela volta?” porque, apesar de ter achado o filme extremamente sensível e importante no que diz respeito à crítica social, achei o roteiro arrastado e redundante em sua narrativa.

A atriz Regina Casé merece todos os prêmios do mundo por sua atuação como a empregada nordestina Val. Simplesmente impecável e tocante (personagem e interpretação). Camila Márdila também mostra a que veio como Jéssica, a filha "rebelde" da empregada que chega de Pernambuco de surpresa para passar uns dias com a mãe e questiona os valores da classe média burguesa - como, por exemplo, ter dois tipos de sorvete na geladeira, um baratinho para os empregados e um importado para os patrões.

No entanto, ficamos comovidos com a história, não com a película em si. Qualquer ser humano que tem um coração dentro do peito ficaria chocado e sentiria vergonha alheia diante da bizarra cena em que a filha da empregada cai na piscina e no mesmo dia “a madame” Bárbara (Karine Teles) pede para esvaziá-la com a desculpa de que viu “um rato” na água e por isso achou melhor mandar limpar.

Critica social fortíssima e que merece todos os aplausos do mundo. Questiona os valores da “família tradicional brasileira” sem piedade. Bota o dedo na ferida dos politicamente corretos que se acham ótimos somente porque ofertam migalhas, como um colchão num quarto apertado nos fundos da casa para receber a filha da empregada.

A direção de Anna Muylaert é acertada e sensível, valoriza os gestos. Os abusos morais que as empregadas domésticas ainda sofrem hoje em dia no Brasil são mostrados de maneira sutil, porém marcante, por Muylaert.

No entanto, o filme não passa disso: uma sequência de cenas que denunciam esses abusos e que nos fazem sentir uma imensa empatia por Val, a empregada. O que, socialmente falando, é muita coisa, SIM, mas não convence como cinema.

Não há um conflito central e as reviravoltas necessárias para resolver esse conflito como reza a cartilha dos bons roteiros da sétima arte. O conflito, no caso de “Que horas ela volta?”, é moral; todavia, conflitos subjetivos, mesmo quando o argumento é bom e a direção idem, têm grande probabilidade de apresentar narrativas arrastadas e redundantes. Foi o que aconteceu com o filme de Anna Muylaert.

Saí da sala do cinema com três sensações pulsantes:

1) meus pais me deram uma educação brilhante e sou imensamente grata a eles por isso pois nunca, em tempo algum, vi disparates como os que acontecem no filme dentro da minha casa - mais do que minha funcionária, a pessoa que trabalha em casa há mais de quinze anos é minha amiga e nutro um profundo amor e respeito por ela; 2) adoraria que todas “as madames” brasileiras assistissem a esse filme, mas acho pouco provável, elas jamais iriam assistir a história de uma empregada doméstica, afinal, “elas não têm nada a ver com isso”; 3) o filme, tirando a questão social e moral que é apresentada com brilhantismo, como película, apesar de ter sido elogiado por jornais estrangeiros e de ter sido indicado para representar o Brasil na disputa pelo Oscar 2016 de melhor filme em língua estrangeira, não é essa coca-cola toda.

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(imagens: google)


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Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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