Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

Somos todas piranhas

Rihanna se declarou piranha. Somos todas piranhas. A diferença é que algumas se divertem com isso e outras tentam adormecer o dragão que carregam no peito.


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A diva do pop Rihanna chocou os pudicos e ganhou chuva de likes dos mais ousados ao declarar no Instagram que ainda está solteira "porque é piranha".

Com o passar do tempo é natural que algumas palavras ganhem novos significados.

Há alguns anos, "piranha" era a mulher que exercia a profissão mais antiga do mundo: a prostituição.

Em seguida, passou a ser adjetivo para meninas que exerciam sua sexualidade livremente.

Hoje, porém, representa um conjunto de códigos e comportamentos:

É piranha a mulher que usa roupas justas e curtas e exibe seu corpo como deseja.

É piranha a mulher que trepa no primeiro encontro e não no terceiro como reza a cartilha do dicionário amoroso.

É piranha a que bebe além da conta, dança até o chão, beija dois ou três na mesma balada.

Piranha é aquela que não necessariamente sonha em se casar e ter filhos.

Piranha é aquela que ao ser dispensada pelo bofe passa na frente dele com outro bem melhor.

A que viaja sozinha e trepa com um estrangeiro que acabou de conhecer.

Piranha é aquela que trai o namorado ou o marido.

É também a que aceita ser amante de um homem casado.

Etc, etc, etc.

Atire o primeiro anzol "quem nunca", e marque uma das alternativas acima e/ou todas elas.

A piranha de hoje fala o que pensa, não aceita regras sem questioná-las e não aceita que lhe digam o que é certo ou errado.

As piranhas de hoje são mulheres que assumem seus desejos e suas paixões. Que pagam para ver. Que se jogam de cabeça no que provoca prazer, alegria, encantamento.

As piranhas de hoje, ora ora, são os homens de ontem!

São apenas mocinhas que decidiram viver de acordo com suas vontades, necessidades e afetos de maneira livre.

O problema é que os mocinhos de hoje não conseguem se enxergar nesse espelho. Eles sabem que as consequências do que eles sempre exerceram - esse conjunto de códigos e comportamentos que vou chamar aqui de "piranhice"- são a insegurança, a instabilidade e a possibilidade do abandono (sentimentos antes vividos quase que somente pelas mocinhas).

O que eles fazem então? Salvo raríssimas exceções, o que seus tataravôs faziam: deliciam-se com experiências marcantes, intensas, apaixonantes, vívidas, ricas e pulsantes com as piranhas, mas casam-se (ou escolhem namorar) com as mocinhas bem educadinhas que (aparentemente) não vão oferecer o perigo da insegurança, da instabilidade, do chifre e do abandono.

O que eles não sabem, pobres rapazes, é que ser piranha nada tem a ver com esse conjunto de códigos e comportamentos que descrevi acima. Ser piranha é simplesmente ter um desejo latente e pulsante de liberdade, e toda mocinha, comportada ou não, tem esse dragão tatuado no peito que pode acordar a qualquer momento: não há segurança no amor!

Somos todas Rihanna! #somostodasrihanna

A diferença é que umas se divertem com isso, e cagam e andam para o que os outros pensam e para os rapazotes medrosos que só conseguem se relacionar com moçoilas que (aparentemente) não oferecem perigo algum. Outras cantam canções de ninar para os seus dragões internos com receio de que o fogo de suas ventas queime a possibilidade do altar.

As piranhas não necessariamente querem se casar. As piranhas querem, antes de qualquer coisa, viver grandes e arrebatadores amores. Casamento, para as piranhas, é consequência, não causa.

Mas como lidar com uma mulher que não necessariamente quer se casar (e não se comporta cordialmente para essa finalidade) se a educação de berço ensinou que o destino (e desejo) de toda guria deve ser esse? Como lidar com uma "piranha"?

Piranha que é piranha conhece bem a resposta: abandonando-a depois de alguns meses ou semanas. E, claro, passando o resto dos dias batendo punheta para elas e se lembrando de momentos inesquecíveis de pura alegria.

É preciso muita autoestima, autoconfiança, amor-próprio, coragem (ou seja: pica) para amar uma "piranha" e viver deliciosas piranhices ao seu lado enquanto houver sol no peito dos apaixonados.

E é preciso, também, que "as piranhas" compreendam de uma vez por todas que "os abandonos" que sofrem com frequência nada têm a ver com possíveis erros cometidos, e sim com a insegurança de certos machos.

O novo gera desconfiança. E embora a palavra "piranha" seja velha como o mundo, bem como o ato de piranhar, a piranhice feminina (assumida) é nova. O que quer dizer que, talvez, infelizmente, somente as futuras gerações de meninos e meninas consigam desfrutar da alegria de piranhar e fazer piranhices junto sem drama.

É o preço de ser "vanguarda", piranhas minhas...

Observemos. Oremos. E, sobretudo, sejamos piranhas convictas, piranhas como Rihanna, que enquanto não acha a outra metade do limão se diverte fazendo e bebendo caipirinha com a metade que tem, porque, convenhamos, não tem nada mais chato que piranha arrependida, que quer fazer piranhice e depois chora porque não consegue se casar...

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(foto: google)


Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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