Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

A virgem e o cigano

Em tempos em que o feminismo tem sido rediscutido ferozmente com uma série de equívocos é bacana se deparar com um autor que em 1926 lançou muito mais luz sobre a condição opressora das mulheres do que as atuais discussões.


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Sim, eu compro livros pela capa. Quanto mais kitsch ela parecer, mais o livro me atrai. Em geral o faço em sebos e dou preferência aos livros antigos e surrados.

Foi assim que comprei "A virgem e o cigano", de D. H. Lawrence (Editora Record).

Dentro da minha ignorância não sabia que estava levando para casa um dos maiores e mais polêmicos escritores da língua inglesa.

Mais tarde, lendo a orelha, descubro que seu livro mais famoso, "O amante de Lady Chatterley", foi um verdadeiro escândalo na época de sua publicação (1928) e chegou a ser proibido na Inglaterra - impresso confidencialmente em Florença, não foi publicado no Reino Unido até 1960.

"Por fim, sempre dou sorte quando entro num sebo e compro um livro pela capa", foi o que pensei ao recordar que um dos meus livros prediletos, "Cartas de amor", de Mariana Alcofarado, também chegou a mim do mesmo modo.

Ainda segundo a orelha de "A virgem e o cigano": " Lawrence coloca o sexo no centro da vida e afirma categoricamente que sem sexo não há vida. Mas, por isso mesmo, reconhecendo a importância do sexo na vida humana, Lawrence prega a sua libertação total de todos os véus, de todas as restrições, de todas as hipocrisias. Essa tese, que é central no pensamento e na arte de Lawrence, que é o eixo em torno do qual gira "O amante de Lady Chatterley" se reafirma aqui neste livro extraordinário e perturbador".

Ou seja? Depois que li isso nem o coloquei na pilha de livros que um dia vão ser lidos, fui logo passando para as primeiras páginas.

A história do vigário conservador que fora abandonado pela mulher que fugiu com outro homem - e o deixou com as duas filhas pequenas para criar - é repleta de generosas e suculentas alfinetadas na moral e nos bons costumes da burguesia.

As mulheres, todas elas, ou melhor, o destino reservado para as mulheres da época, tem papel de destaque na narrativa de Lawrence - em tempos em que o feminismo tem sido rediscutido ferozmente com uma série de equívocos, é bacana se deparar com um autor que em 1926 lançou muito mais luz sobre a condição opressora das mulheres do que as atuais discussões.

Pois bem, lá pela página 120 (o livro tem 159) perguntei-me: cadê a fudelança? Cadê a fudelança perturbadora prometida na orelha? A filha mais nova do reitor, Yvette, vai ou não se entregar aos prazeres carnais com o cigano? Cadê o erotismo?

Do erotismo prometido constam, apenas, duas páginas, sendo o trecho mais, digamos, caliente, este:

"Pareceu a Yvette que o único ponto estável da sua consciência era aquele amplexo de ferro que a rodeava. E isso constituía um alívio temeroso para o seu coração que parecia prestes a arrebentar. E, embora o corpo dele, envolvendo-a com tentáculos estranhos, flexíveis e poderosos, se agitasse em estremecimentos, semelhantes ao de uma corrente elétrica, a tensão rígida dos músculos que a prendiam conseguia mantê-los firmes. Pouco a pouco, a violência das tremuras causadas pelo choque começou a diminuir, primeiro no corpo dele, em seguida no dela..."

No entanto, isso não tem a menor importância diante das questões levantadas por Lawrence acerca, por exemplo, do medo (até hoje latente) das mulheres de se tornarem "solteironas":

"_ Provavelmente você nunca se apaixonará - disse Lucíla brutalmente. _ É nisso que as velhas solteironas pensam dia e noite.

Yvette olhou a irmã com olhos pensativos, mas aparentemente despreocupados.

_ Você acha? – perguntou. _ Acha mesmo, Lucíla? Mas isso para elas é horrível! Mas por que é que elas se preocupam?

_ Por quê? – perguntou Lucíla. _ Talvez não se preocupem de verdade. Talvez seja só pelo fato do povo dizer: pobre moça, não achou nenhum homem" ..."

Talvez o ato mais erótico do livro seja o próprio desejo de liberdade de Yvette.

"A virgem e o cigano" foi publicado depois da morte do autor (tradução Alexandre Pinheiro Torres); possui uma narrativa fluida e um desfecho digno dos grandes mestres da literatura, desses que nos fazem sorrir, abraçar o livro e suspirar de alegria pelo privilégio da leitura.

Confesso que sinto uma pontada no peito quando percebo que 89 anos se passaram e algumas coisas continuam intactas - como o medo da maioria das mulheres de não se casar. Neste aspecto o que mudou foi apenas a data limite: na época de Lawrence a contração do matrimônio era esperada até os 21 anos e hoje até os 33 - muitas meninas que chegaram aos 35 anos e não se casaram sentem-se imensamente frustradas, bem como a tia "solteirona" (termo usado no livro) de Yvette e Lucíla.

Perceber que as mudanças ocorridas de lá para cá foram apenas cronológicas, ou, cosméticas, me causa um certo desalento, mas isso já é outro papo.

Que venham os próximos livros de capas cafonas!

FALANDO NISSO

Em 1970 o diretor Christopher Miles adaptou o livro para a tela do cinema, confira

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(imagem: google)

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a capa que me atraiu


Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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