Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

O erotismo de Anaïs Nin: quando o sexo também é amor

Em “Fome de Amor” Anaïs Nin nos convida a perceber o que sente (e como reage) uma pessoa quando é queimada por medo, insegurança, desamparo, desejo, amor, paixão e ansiedade num só tempo.


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No filme Ninfomaníaca, de Lars von Trier, há uma cena em que uma das personagens diz: “O ingrediente secreto do bom sexo é o amor”.

Ao terminar a leitura das 143 páginas de Ladders to Fire ("Fome de Amor". Tradução Marli Berg), escrito em 1930 por Anaïs Nin, tive a impressão de que Trier chegou próximo do segredo, mas quem descobriu a chave e abriu a caixa foi Anaïs Nin.

Simplesmente porque a autora não separa as duas coisas. Nem mesmo quando a atividade dos corpos se dá por pura efervescência de uma noite de bebedeira. A fusão de dois corpos, para ela, é sempre amor. E tem sempre um objetivo comum: mergulhar no outro para morrer imensamente e depois descobrir um novo eu.

Engana-se quem pensa que vai encontrar o erotismo barato de mil tons de cinza em suas linhas. Seu erotismo não é vulgar (no sentido de comum, prosaico). Além de sua prosa extremamente poética (mas sem o excesso das rimas fáceis), Nin nos oferece um microscópio (ou seria caleidoscópio?) que nos faz enxergar o quê possivelmente se esconde por trás do nosso desejo de ser amado, desejado e protegido.

E assim descreve um ato de amor:

“Nenhum mar mais forte que o mar dos sentimentos, em que ela nadava dentro dele, encrespando, nenhuma onda como as ondas do desejo, nenhuma espuma como a espuma do prazer. Nenhuma areia mais morna que a pele e a areia movediça das carícias. Nenhum sol mais poderoso que sol do desejo, nenhuma neve como a neve de sua resistência derretendo em alegrias azuis, em lugar nenhum uma terra tão rica quanto a carne. Ela dormia, caía em transe, estava perdida, sentia-se renovada, abençoada, transpassada pela felicidade, aquietada, queimada, consumida, purificada, nascida e renascida dentro do ventre da baleia da noite”.

E assim descreve um beijo:

“Boca encontrando boca, o prazer batendo como um gongo, uma, duas, três vezes como o bater de asas de grandes pássaros. Os corpos atravessados por um arco-íris de prazer. Pela boca fluíam um dentro do outro e a pequena rua cinzenta deixou de ser um impasse em Montparnasse. O balcão estava agora suspenso sobre o Mediterrâneo, o mar Egeu, os Lagos Italianos e pela boca fluíam e corriam através do mundo”.

Se em “Paris é uma Festa” Ernest Hemingway nos convida a visitar os bastidores da vida artística da década de 20 na cidade luz, em “Fome de Amor” Anaïs Nin nos convida a perceber o que sente (e como reage) um artista quando é queimado por medo, insegurança, desamparo, desejo, amor, paixão, ansiedade.

As festas, a boêmia, a vadiagem consentida, a música, a bebida, os triângulos amorosos, a prepotência e a arrogância de alguns artistas aparecem como em Hemingway, mas somente como pano de fundo – não há detalhes em sua prosa de ambientes, ruas ou clima. O que interessa para a autora é a vida interna de Lilian, Djuna, Jay, Sabina e todos padecem da mesma aflição: a necessidade de curar a criança humilhada dentro deles e reconstituir o que sobrou através do amor (e consequentemente do sexo).

Com um tom psicanalítico, Nin consegue esboçar de maneira simples e direta aflições que Freud precisou de inúmeros seminários para descrever, como no trecho abaixo:

_ “Perdi Gerard porque saltei. Expressei meus sentimentos. Ele estava assustado. Por que amo homens que se assustam? Ele tinha medo e eu tinha que cuidar dele. Você já pensou alguma vez por que os homens que brigam por uma mulher e não a conseguem não ficam magoados? As mulheres se magoam. Se é a mulher que banca o Dom Juan e faz a corte e o homem dá para trás, ela fica assustada de alguma forma.

_ Sim, reparei isso. Imagino que é uma espécie de culpa. Para um homem é natural ser agressor, aceita bem a derrota. Para a mulher é uma transgressão e ela assume a derrota como se fosse causada pela transgressão”.

Outra característica que me chamou bastante a atenção na novela de Anaïs Nin: a identificação que sentimos com todos os personagens. Não há como eleger um. Todos são parecidos entre si e diferentes ao mesmo tempo; todos eles carregam um pouco de nós e das nossas contradições.

"Fome de amor" é uma das cinco novelas de "City of Interior" e foi publicado durante as décadas de 40 e 50 num período em que a prosa lírica e introspectiva não era vista com bons olhos nos meios literários norte-americanos. Somente após a publicação dos volumes de "The diary of Anaïs Nin", a partir de 1966, é que a autora ganhou o reconhecimento do público e consequentemente da crítica.

Uma leitura que nos ajuda a entender possíveis porquês escondidos sob o véu de nossa libido. Um livro bastante psicanalítico, mas que não perde a poesia e o erotismo jamais.

Fome de Amor

Anaïs Nin

143 páginas

Editora Artenova

FALANDO NISSO

Um dos filmes carregados de erotismo mais bonitos que já assisti é "Henry e June", do diretor Philip Kaufman, inspirado no livro homônimo de Anaïs Nin. O livro foi extraído dos diários da autora e apresenta um relato íntimo do florescer de sua sexualidade. Narra sua paixão pelo escritor Henry Miller e sua esposa June Smitch em meados da década de 30 em Paris.

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Abaixo alguns trechos retirados de Fome de amor e o trailer de Henry e June:

“Aprendi uma contabilidade muito rígida, em que considerava o prazer como uma jóia, uma espécie de jóia roubada, pela qual se deve pagar grandes somas de sofrimento e culpa. Mesmo hoje, quando alguma coisa realmente maravilhosa me acontece, quando alcanço o amor, o êxtase ou o momento perfeito, espero sempre que sejam seguidos pela dor”...

“Algum dia vou sentar e escrever um pequeno dicionário para você, um pequeno dicionário chinês. Vou por todas as interpretações daquilo que lhe dizem, a interpretação correta, isto é, aquela que não magoa, humilha, acusa ou duvida. E todas as vezes que lhe disserem alguma coisa, você vai consultar meu pequeno dicionário, para ter certeza, antes de entrar em desespero, que entendeu o que disseram”...

“Nos bailes, quando menina, aquele instante de espera antes que me tirassem para dançar, parecia intolerável! O suspense, a intolerância, talvez não fossem me tirar. Assim, eu investia para cortar o suspense. Eu investia. A minha personalidade precipitava-se, impelida pela ansiedade, apenas para poder romper aquele momento de certeza angustiante”...

“ A voz dele rosnava na superfície de sua pele como uma carícia. Não tinha poder algum contra aquela voz. Saía direto dele para dentro dela. Poderia tampar os ouvidos e ainda assim acharia caminho para o seu sangue”...

“Acostumei-me a considerar sua imagem de mim como verdadeira”...

“A fuga não me trouxe libertação. Todas as noites tenho o mesmo sonho de prisão e lutas para conseguir fugir. É como se apenas meu corpo fugisse, mas não os meus sentimentos. Meus sentimentos ficaram como raízes dependuradas , quando se arranca uma planta com muita violência. A violência não significa nada e não liberta ninguém”...

“Apenas os bêbados e os loucos trocaram aquilo que não é essencial pelo caos e apenas no caos há riqueza”...

“Em todo começo de relação acontece a jornada em direção ao passado: o desejo de todo amante de dar ao ser amado todas as formas de ser desde o princípio”...

“Em toda criança e em todo criminoso está presente a convicção que não há retribuição que possa sarar a feria infligida. O homem que passou fome uma vez, vinga-se do mundo - não rouba apenas aquilo que precisa, mas cobra do mundo uma taxa sem fim como pagamento de algo insubstituível que é sua fé perdida”...

“Ela sabia, assim como ele, que condecorações e honrarias conferidas a homens ou mulher, não alteravam o talento básico e a falta de talento como amante...Não há prêmio de arquitetura capaz de conferir o conhecimento mágico da estrutura do corpo. Nenhum jogo de palavras substituirá o conhecimento dos pontos secretos da resposta. Não há medalha concedida por coragem que confira audácia, a sedução da conquista, o exato conhecimento da batalha do amor”...

“O artista nasce a noite para que ninguém repare que seus pais lhe deram apenas sete meses de substância humana. Nenhum artista teria a paciência de permanecer nove meses dentro de um útero. Ele precisa fugir de casa. Ele nasceu com uma mania de se completar, de criar a si mesmo. É tão múltiplo e amorfo que seu núcleo está constantemente se desintegrando, recompondo-se apenas através do trabalho. Através de sua imaginação, pode entrar em qualquer situação, multiplicar-se e dividir-se e, qualquer coisa que faça, será sempre duas pessoas”...

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(imagens: google)


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Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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