Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

Paisagem de porcelana: a dor de sentir-se invisível

Depressão é assunto sério, ausência de vontades e tristeza nem sempre são efeitos colaterais. Um quadro de depressão crônica pode gerar paranoia, delírio e uma completa ausência de si. Com generosas pitadas de poesia, Claudia Nina apresenta esses e outros tropeços no romance Paisagem de Porcelana.


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Por fim somos todos feitos de porcelana: qualquer deslize ou toque mais brusco pode nos trincar ou despedaçar de vez.

Nosso trabalho diário é de colagem, polimento, tinta decorativa. Uns têm mãos (e paciência) de chinesa caprichosa: reconstroem seus pedaços com tranquilidade e quase sem deixar vestígios das rachaduras, dos pequenos desastres. Outros, apressados, criam mosaicos assustadores de si.

Helena, protagonista do romance "Paisagem de porcelana", de Claudia Nina, despedaçou-se sem saber ao certo o que causou o acidente e, sem habilidade para a reconstrução, perdeu o rosto, a voz, a audição, o dedo, e permitiu que sua alma fosse engolida por um javali de olhos azuis.

Quem já passou - ou passa - por um quadro de depressão se sentirá ensopado pela chuva de Amsterdã junto à personagem.

Não, a palavra "depressão" não aparece na narrativa, mas é tão concreta e real que salta do livro e parece uma presença. Assim falou Helena: "Minha tristeza em Delft era quase uma pessoa à parte de tão real".

"Paisagem de porcelana" é um relato memorialístico de Helena, uma garota que parte para a Holanda aos 25 anos só com a passagem de ida, em busca de um grande amor e de grandes aventuras. Ela vive os dois, mas não da maneira como sonhava.

Ao sentir-se invisível num país onde as pessoas são silenciosas e cheias de decoro - e as noites de inverno assombrosamente longas - sem dinheiro, sem projetos, sem amigos, Helena refugia-se em sua angustiante falta de perspectiva e numa desesperança que embaça seus olhos e embota seus sentidos.

Nem as tulipas, nem os moinhos, nem os passeios de bicicleta, nada oferta conforto à jovem que conclui, a certa altura: " Não havia como transformar a paisagem com a nossa presença minúscula"...

A história de Claudia Nina se passa na Holanda, mas poderia ter sido ambientada em qualquer bairro de qualquer canto do mundo - todos nós já estivemos em algum momento da vida na Holanda de Helena, mesmo sem nunca termos colocado os pés lá.

Se tivesse lido "A náusea" e/ou "As palavras", de Sartre, certamente Helena saberia que seu problema não era o namorado misterioso Ernest, tampouco as chuvas e alagamentos holandeses, mas a iminência de uma crise existencial. Ou seja, a dor latejante da pergunta: para quê?

Saber disso não mudaria sua condição, nem aplacaria o desconforto do "para quê?", porém, ao menos (quem sabe?), ela experimentaria algum amparo - explicações são como dinheiro, sempre acalmam os nervos.

Depressão é assunto sério, ausência de vontades e tristeza nem sempre são efeitos colaterais. Um quadro de depressão crônica pode gerar paranoia, delírio e uma completa ausência de si.

Uma pessoa com depressão crônica não se sente confortável em canto algum, não se sente parte de nada. Sente-se como um pêndulo solto ao sabor do vento, ou, parafraseando a autora, com uma necessidade de voltar depois de não conseguir escapar.

Quem está deprimido em geral silencia não por não ter nada a dizer, mas porque em alguns casos "o silêncio é como um dique, segura o que pode matar".

Para quem está deprimido e/ou acaba de sair de um quadro de depressão, "Paisagem de porcelana" (Editora Rocco) é uma chance de encontrar eco das emoções experimentadas (e sentir-se menos só).

Para quem nunca passou por isso - existe nos dias de hoje? - uma oportunidade de descobrir como é a sensação de sentir-se exilado de si.

Com narrativa fluida e generosas pitadas de poesia no decorrer de 158 páginas, o livro é daqueles que se lê numa sentada só. Entre outras coisas, reafirma o que já sabemos (ou deveríamos saber): condicionar a nossa identidade à necessidade do olhar do Outro é o mesmo que caminhar à beira do precipício; reinventar-se, reconstruir-se, recolar-se são condições básicas e primordiais para mantermos nossa alma de porcelana lustrosa e reluzente.

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(imagem: google)


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Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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